Fez há bem pouco tempo 32 anos que António Variações morreu. Foi no dia 13 de junho de 1984, o dia do feriado de Lisboa. Esta foi a cidade que o acolheu ainda muito jovem e onde António teve a sua emblemática barbearia, deu concertos e está agora em cena com uma peça de teatro. Variações, de António está na Sala Mário Viegas, no São Luiz Teatro Municipal, até dia 10 de julho.

A peça é um monólogo em que António Variações fala sobre si. Sérgio Praia veste as calças púrpura, a camisola e colete lilás e o lenço cor-de-rosa. Vicente Alves do Ó assume a encenação do espetáculo. Nem para um, nem para outro o monólogo ou a representação de uma personalidade são uma estreia. Há bem pouco mais de um ano, na mesma sala, Sérgio Praia envergava Van Gogh e Vicente Alves do Ó, em 2012, retratava Florbela Espanca.

As três personalidade, António, Van Gogh e Florbela, cruzam-se na genialidade com que conceberam as suas obras e na introspecção que sugerem. Assim achou Vicente Alves do Ó e Sérgio Praia, que retratam um António para além das cores extravagantes e das letras da sua música. A peça, que estreou no São Luiz no passado dia 24 de junho, é um degradê na evolução da carreira de variações e uma descida à sua intimidade.

A peça não se subjuga às letras da música de António, mas decidimos acompanhar o artigo com aquelas que marcam as “variações” que este António no São Luiz nos vai contando.

Olhei Pra Trás: Um ensaio em que António olha para trás

António está nervoso. Sente-se pelo abanar da perna e pela respiração pesada. Há um foco de luz sobre ele e ele canta:“Mãe quero ir ganhar dinheiro/ pai quero ir para a cidade”. Está a ensaiar para um espetáculo de Amália Rodrigues. Quando termina e fica sozinho em palco, surge um António além dos espetáculos, surge a vida de António. Silêncio, que António Variações vai falar sobre si.

O cantor está no auge da sua carreira. Passa nas rádios, já tem os seus discos. Mas vai cantar num concerto do seu maior ídolo. Suplica:  “Ajuda-me, pai”. Vêem-lhe à memória personagens da sua vida antes de vir para Lisboa. Prevê-se um espetáculo além do António mais excêntrico. Há um António que veio de Fiscal (Braga),  para Lisboa e criou uma personagem:  “E assim saí daí/de olhar para trás/ pensamento em frente”. António olha para trás.

 

Povo que Lavas no Rio: Um nervosismo pela sua diva

“Povo que lavas no rio/ que talhas com teu machado/ as tábuas do meu caixão” são versos bem conhecidos da voz de Amália Rodrigues, que António também cantou. É uma pressão interior para António estar no mesmo palco que a sua diva. Para ele, “ela é o país” e também ele vai cantar para o país como Amália fez. Há o sonho de fazer mil projectos, de cantar o que sempre imaginou desde Fiscal… Para isso, lembra-se do Natal na sua terra e da família em volta da lareira.

Há também o sonho de mudar, o mais próximo possível do que imagina. Nota-se um amor a Portugal e à cidade que há muitos anos lhe abriu os braços, ainda mesmo antes do louvor das vizinhas, que em tempos o achavam esquisito, mas agora o tinham visto no programa de Júlio Isidro. António gosta de dançar, de fazer exercício e do mundo do espetáculo.

 

Deolinda de Jesus: Um choro por Angola e uma música para sua mãe

Sempre esteve pronto para o que era preciso. Começou muito novo, com 11 anos, a trabalhar em Canelas, a cidade mais próxima de Fiscal. Pouco tempo depois foi para Lisboa. Percorreu Amesterdão, onde aprendeu a cortar cabelos, e esteve antes em Angola. Soube que a sua mãe sofreu por ele, mas sempre o aceitou. Por isso, se fizesse um espetáculo da sua vida, seria também sobre a sua mãe.

“A minha mãe,/É a mãe mais amiga,/Certeza, com que posso contar,/E nem por isso, sou a/imagem que queria,/ Mas sempre me soube aceitar” são as suas palavras musicadas para sua mãe. Surge momentos depois o momento mais intimista de toda a peça. O pico da sua intimidade faz-se sentado no rochedo em Fiscal. Para o pico da imagem do espetáculo se fazer com uma bola de vidros e em cima do rochedo, junta-se o António da terra e o Variações da cidade. Era este que era António Variações.

Estou além: Uma insatisfação que perdurou no tempo

“Não consigo dominar / Este estado de ansiedade”, assim o cantava o músico. António Variações era um emancipado para o seu tempo. Um avantgarde para a cidade que vivia. E um insatisfeito no meio em que nasceu. Nem por isso deixou de dar à música portuguesa o som que ouvia do cavaquinho do seu pai, com as letras que desenvolveu na sua imaginação.

“Esta insatisfação/Não consigo compreender/ Sempre esta sensação/ Que estou a perder”. Vicente Alves do Ó aproveitou a sua insatisfação cantada e juntou-lhe as suas inquietações mais pessoais e pensamentos de auto-didacta.  O cantor que pisou o palco é um António novo, que faz compreender o que muita gente nunca quis perceber.

Muda de vida: Um espetáculo que muda a percepção de quem é António

Sérgio Praia foi um António Variações de corpo e cabeça. O ator não desleixou a fisicalidade, que o músico tanto cuidou e deixou na memória de todos. A movimentação em palco fez que o monólogo sobrevivesse em pouco mais de uma hora sem hesitações.

Mas as palmas eufóricas do final, não foram só para os movimentos e palavras bem ditas do ator. O texto de Vicente Alves do Ó é claro e uma rede eficaz entre o António Variações inseguro e intimo, com a personalidade extravagante e ‘cheia de si’, que mais conhecemos. Também a combinação entre cenografia de Alves do Ó com o desenho de luz  de Paulo Santos criaram uma limpeza na direção do espetáculo, como assim como a diferença de luz nos ensaios e na introspecção de António Variações. Ou ainda o momento final com a bola de espelhos, o apogeu de quem era António, um menino de Fiscal, que cantou na discoteca Trumps.

Variações, de António é um bom meio para se decifrar António, aquele que se tornou António Variações“Muda de vida se tu não vives satisfeito/ Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar”, António Variações mudou a música portuguesa e podia ter continuado a mudar.