Crónica do Pássaro de Corda é o oitavo romance de Haruki Murakami, e é considerado por muitos um dos seus mais notáveis trabalhos literários. Haruki Murakami é atualmente um escritor de culto e figura de referência no pós-modernismo literário, com obras traduzidas em 50 línguas. Os seus trabalhos são categorizados como surrealistas, melancólico-fatalistas e sempre pontuados de crítica social e um senso de solidão e alienação.

Um fio condutor interminável

500_9789724616926_cronica_do_passaro_corda

Em Crónica do Pássaro de Corda, a vida normal e pacata de Toru Okada é subitamente abalada quando o telefonema de uma mulher misteriosa inicia uma sucessão de eventos peculiares: a sua mulher, Kumiko, deixa-o e desaparece sem deixar rasto; Malta Kano, uma vidente misteriosa que haviam contratado para encontrar o seu gato perdido, torna-se numa presença omniosa na sua vida; trava conhecimento com May Kasahara, uma adolescente com um estranho entendimento do transcendente, com quem começa a trabalhar a fazer inquéritos sobre carecas.

Os episódios sucedem-se, cada vez mais peculiares. Cada personagem introduzida acrescenta uma peça do puzzle, mas também uma nova série de perguntas por responder. Verdade seja dita, Murakami não é um escritor ‘organizado’; o rol de personagens, cada um com a sua colossal backstory e mistérios por resolver, torna-se difícil de acompanhar depois das cinco personagens em cena.

E ainda que todas elas tenham pontos de contacto em comum, nem todas têm os seus character arcs satisfatoriamente entrelaçados numa narrativa comum, fechados e resolvidos, como seria de esperar. Existem pontas soltas que não são resolvidas, personagens cujo fim nunca chegamos a saber concretamente, ou cujo desenvolvimento fica na incerteza de se ter concretizado.

Fonte: The Wind-Up Bird Chronicle Theatrical Production

Fonte: The Wind-Up Bird Chronicle Theatrical Production

As Coisas: metáforas de identidade como objeto real

Na Crónica, destaca-se ainda como parte desta peculiaridade, desta realidade alterada e desfeita, o adicionar de metáforas à realidade como parte integrante desta. Objetos metafóricos, signos que serviriam funções apenas simbólicas, tornam-se objetos reais, palpáveis, com participação ativa no enredo e no desenrolar dos acontecimentos. Dentro destes, destacam-se as Coisas.

As Coisas são referidas por variadas personagens, e todas as suas descrições seguem uma linha comum: Creta Kano, irmã de Malta Kano, diz que é algo que lhe foi retirado fisicamente, e que a partir dessa altura nunca foi ela mesma. O Tenente Mamiya refere algo que, na altura da guerra, via do fundo do poço onde estava preso, alguns segundos por dia, quando o sol o alcançava. May Kasahara diz que é algo que habita no interior das pessoas e lhes fornece calor.

As Coisas, nesta perspetiva, são símbolos da identidade, do sentido do “eu” de cada indivíduo; mas símbolos que lhes são fisicamente manipulados, arrancados, estilhaçados; ao longo da história, as personagens debatem-se com quem são, qual o seu papel e o seu destino, enquanto as situações e pessoas à sua volta lhes tentam moldar as identidades. Existem pessoas que curam estas Coisas, e pessoas que as partem; que as manipulam para o bem, ou para o mal – uma metáfora para a realidade.

“É possível, em última análise, a um ser humano alcançar a perfeita compreensão de outro?
Podemos investir muito tempo e energia em esforços para conhecer outra pessoa, mas no final, quão perto podemos chegar à essência dessa pessoa? Convencemo-nos de que conhecemos bem a outra pessoa, mas saberemos mesmo alguma coisa importante sobre alguém?”

É notória a razão pela qual Murakami se tornou num dos escritores de culto contemporâneo; este consegue acrescentar a um enredo ilusoriamente simples uma enchente de histórias, sub-enredos e problemáticas que se emaranham, interpelam, e deixam o leitor simultaneamente a perguntar-se o que se passa e a ansiar descobrir o que mais se irá passar.

Adiciona-lhe problemas de identidade, de destino e futuro e manipula o conceito de realidade de forma a passar a sua mensagem: a de que a realidade é algo subjetivo, e a vida é um emaranhado de impossibilidades que se concretizam.

 

Nota: 8/10