Pierrot le fou 1

5 filmes da minha apatia

Quase 35% dos jovens em Portugal estão no desemprego. O cenário não é nada animador para alguém que se acaba de formar. Eu era um desses jovens e estes são os filmes que definem a jornada de um ano na selva precária que é Portugal em 2016.

Sabem aquelas ideias fantásticas que vos ocorrem às tantas da manhã quando tentas adormecer? Este artigo surgiu na minha cabeça numa dessas ocasiões. O alarme estava já configurado para berrar aos meus sonolentos ouvidos pelas 8 horas da manhã – sou suburbano e tinha que estar na capital pelas 10h00. Mas nem a hora tardia – maldito relógio que já marcava as 2 horas e 30 minutos! -, me impediu de pegar numa caneta e desbaratar ignóbeis pensamentos numa imaculada folha branca.

Pensei na jornada que começou há um ano atrás, quando fui forçado a tornar-me num jovem adulto. Acabei a licenciatura em junho de 2015 e debati-me com um mercado precário de oferta de emprego onde a nova moda passou a ser a de trabalhar de graça. Não quero ser fútil, mimado nem inconveniente, mas é cada vez mais recorrente encontrar situações completamente absurdas de condições inaceitáveis em estágios e primeiros empregos. Tenho o direito de me queixar quando estou a trabalhar há mais de 9 meses sem receber nada, tenho o direito de me queixar quando vejo estágios não remunerados em jornalismo reservados a pessoas de mestrado, tenho o direito de me queixar porque Portugal fede e pede que toda a sua juventude abandone as suas casas, pegue na sua trouxa e comece a falar francês, inglês, espanhol ou “brasileiro“.

Debati-me sobre aquela folha que acabou por levar com todas as minhas frustrações e agora levam vocês que clicaram neste artigo. Emoções, noites perdidas e batalhas interiores que se traduzem num percurso que vou dividir em 5 capítulos, correspondendo a cada um deles a uma fase deste meu atribulado ano e a um filme que consiga ilustrar aquilo que a maior parte dos jovens portugueses infelizmente passa.

1.º Capítulo

A Euforia

GAC_FMF
Fantastic Mr. Fox de Wes Anderson

Acabas de sair da faculdade. O ritual das fitas está passado, recebeste os parabéns dos teus avós, pais, amigos e animais de estimação. O mundo é teu e parece que nada te pode quebrar. É o calor do momento, e algo que lutaste durante 16 anos da tua vida desde que te alistaram sem a tua autorização na primária.

O sentimento com que saímos da faculdade é muito aquela euforia de ser alguém que Ash (Jason Schwartzman) tem no Fantastic Mr.Fox. Ash é filho de uma raposa atleta (Mr. Fox, voz de George Clooney) mas que é peculiarmente pequeno para a idade que já tem. Posto isto encontramos o herói deste filme num período de transição, num período em que tem que se provar a si próprio e mostrar a todos os outros o quanto vale por si próprio, apesar de ser um underdog (tão semelhante àquilo que sentimos quando o chapéu cai e o diploma é entregue).

2.º Capítulo

A Ingenuidade

282
Pierrot Le Fou de Juan-Luc Godard

Este é talvez dos mais famosos filmes do génio da Nouvelle Vague francesa, Jean-Luc Godard e uma das coisas que este cineasta sempre conseguiu transmitir muito bem é esta fragilidade, inocência e ingenuidade muito característica das personagens encarnadas por Anna Karina. E aqui estamos nós, no segundo capítulo da nossa aventura no mundo do mercado de trabalho português: a ingenuidade.

Caracterizo esta parte da jornada assim porque é aquela em que nos convencemos que, passados três anos de árduo trabalho e pagamento de propinas, os mesmos vão ser compensados com uns tantos estágios e, finalmente, o primeiro emprego. Mas esta ilusão é tão falsa quanto as esperanças de Marianne (Anna Karina) e de Ferdinand (Jean-Paul Belmondo) de uma vida sem problemas mal embarcassem numa road trip até ao sul de França. Os protagonistas aí não só não se livraram dos problemas deixados para trás, como arranjaram muitos outros envolvendo tráfico de droga e crime organizado.

3.º Capítulo

A Determinação

Marion-Cotillard-in-Rust-and-Bone
Ferrugem e Osso de Jacques Audiard

O momento em que pensamos que somos todos uma Beyoncé num mundo cheio de Michelles. Referência da música pop à parte, este momento é aquele em que começamos a sentir algumas dificuldades e percebemos como não é fácil a selva do mercado de trabalho. O nosso criativo começa a fervilhar e a nossa determinação parece inquebrável. Todos nós temos uns cinco minutos em que pensamos “ninguém me faz frente, eu vou conseguir”.

Mas é sol de pouca dura. Esta é a fase mais rápida a desaparecer, é talvez a mais intensa também e, por isso mesmo, efémera. Este paralelo traduz-se na perfeição com StéphanieMarion Cotillard – em Ferrugem e Osso que, depois de se ver a enfrentar uma das fases mais difíceis da sua vida, não perde a vontade de vencer e, com o apoio de Alain (Matthias Schoenaerts), vence contra as improbabilidades que lhe foram impostas pelo destino.

4.º Capítulo

A Desilusão

Blue-Valentine-2010
Blue Valentine de Derek Cianfrance

O cair na realidade. O sentimento que ninguém quer, isto é, que uma licenciatura no currículo vale tanto como um curso técnico de equivalência ao 12.º ano. Não quero ser fatalista, nem de todo sensacionalista, mas esta é a fase mais frustrante da procura incessante por oportunidades profissionais. É o momento que atormenta milhares de jovens diariamente no nosso país, um momento em que nada faz qualquer sentido e em que o mundo idealizado quando se atirou os chapéus de graduação ao ar, não existe.

A desilusão traduz-se na perfeição na relação de CindyMichelle Williams – e DeanRyan Gosling -, neste belíssimo filme de Derek Cianfrance. Esta longa-metragem explora muito bem esta faceta da vida humana, a desconstrução da história do “viveram felizes para sempre” a o mostrar ao espectador que nada é eterno e como a desilusão pode atormentar até o casal mais apaixonado.

5.º Capítulo

A Apatia

008-melancholia-theredlist
Melancholia de Lars Von Trier

A fase final. E que melhor personificação de todos os jovens que a esplêndida entrega de Kristen Dunst neste apocalíptico filme de Lars Von Trier? Este filme que se movimenta ao passo de Richard Wagner e se exprime através da indiferença de Justine é a perfeita alegoria ao desânimo, ao desencanto e ao fatalismo. Esta obra do cinema de Trier consegue, melhor que qualquer outro filme até então, transmitir a ideia de apatia na sua belíssima cena final, em que Justine enfrenta o fim do mundo com uma total serenidade e calma.

Portugal tem este condão especial de apagar o fervor dos seus jovens. Os noticiários enchem-se de perspectivas negras, o medo é propagado pelo restante dos media, a entidade patronal trata os candidatos como se de objetos estivéssemos a falar e a pressão continua sempre lá. “Tens de ganhar dinheiro”, “não vais ser ninguém”, “até o Zé conseguiu emprego com o 12.º ano”, “já não vais para novo”, “vai para mestrado”, “arranja dinheiro”, “não podes viver para sempre na casa dos pais”, “sai do país”.

Agora a ver vamos. No filme de Trier o mundo acaba mesmo e a indiferença de Justine não resolver qualquer coisa, sem ser um apaziguar da sua própria alma e uma distração dos seus problemas. Mas tu, jovem, não desistas. É difícil perceber o rumo em tal época tão conturbada, mas eventualmente boas novas virão.

A única vergonha que sinto não é de ter estado meses sem fazer nada, mas sim do país que tenho onde se maltrata tanto uma geração que tenta fazer o impossível para trabalhar. Uma geração que aceita fazê-lo de graça ou até pagar mil e um passes de transporte e mil e uma refeições para o fazer.

Uma geração que é por todos apelidada de preguiçosa, presunçosa e narcisista, mas a única que, na história mais recente do nosso país, se sujeita às míseras condições do enfermo e impotente mercado de trabalho da pós-licenciatura. Uma geração que é condenada por todos, mas que para a qual todos olham para resolver a merda deixada pelas gerações antigas.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Cristina Ferreira
SIC acusa Cristina Ferreira de recusar vários formatos no canal