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Como o online está a matar o jornalismo

Nesta transição dos media para o digital, em particular com a deslocação dos lucros das bancas e da versão impressa para o financiamento de espaços de anúncios online, passou a ser premiado financeiramente o click sobre o rigor do conteúdo no jornalismo.

Como sempre, é o impacto da mudança na forma como se gera dinheiro que determina, hoje em dia, a política e estratégia de desenvolvimento de conteúdos, com um impacto óbvio no próprio processo de decisão editorial e no critério jornalístico.

Não obstante o constante fluir da informação que agora existe, que poderia ser visto no abstrato como positivo, quem sofreu foi o critério jornalístico, foi a ética e a deontologia de uma profissão central ao bom funcionamento de qualquer sociedade e de qualquer sistema político.

Torna-se assim importante perceber, hoje mais do que nunca, para onde é que caminha o jornalismo, e como se processará doravante a relação entre o indivíduo e os seus instrumentos de obtenção de informação.

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Parece-me possível identificar para já um conjunto de fenómenos principais:

1 – A confusão entre notícia, opinião e entretenimento

Este diluir de fronteiras acontece porque para a obtenção da unidade de lucro no mundo digital, a distinção entre o carácter do conteúdo é absolutamente irrelevante. O leitor lê opinião que tenta ser notícia e lê notícia impregnada de opinião.

2 – O “click bait” e o enviesamento sensacionalista

As notícias, do ponto de vista da obtenção de lucro, passaram a ser construídas quase exclusivamente de forma a gerarem mais clicks. Isto cria uma narrativa sensacionalista com títulos propositadamente enviesados (alguns mesmo falsos), na tentativa de tornar um assunto o mais chocante possível.

Muitas vezes esta tentativa vai ao ponto de desfasar o título do artigo do próprio conteúdo da notícia e da verdade.

3 – O imediatismo informativo e a perda de profundidade

Se o objetivo é apenas o click, passa a ser exigido um fluir constante de novas “notícias”. Isto leva antes de mais a erros jornalísticos grosseiros. O frenesim da necessidade de produção de conteúdos destruiu parcialmente a verificação das fontes e a criação de artigos com um mínimo de profundidade e de investigação jornalística.

O jornalista que escreve para o online parece, por vezes, não passar de um funcionário que resume textos de variadas fontes e os repassa com um título diferente. Uma notícia que resulte de um prolongado tempo de investigação jornalística muitas vezes tem menos clicks do que três linhas de texto com um título atentatório ao seu próprio conteúdo.

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4 – A diluição e a permeabilidade à propaganda

Pelas razões acimas referidas, a toda a hora são publicados conteúdos noticiosos online. Este fluxo constante gerou uma importante diluição de conteúdos, onde estes passam e instantaneamente se perdem, enterrados pela avalanche de notícias ao minuto, atualizações, artigos de opinião e novos desenvolvimentos.

Esta torrente contínua reduz a capacidade de discussão pública sobre um qualquer assunto e diminui o controlo crítico exercido pelo julgamento público sobre aquilo que é publicado.

Tal resulta num escrutínio praticamente inexistente, que permite mais facilmente a veiculação de conteúdos enviesados, seja por motivos económicos ou políticos, sem que exista qualquer consequência, contaminando de forma insidiosa o espaço público de discussão.

5 – A contaminação do discurso público pelo imediatismo noticioso

Se acima se explorou a contaminação crescente do jornalismo pelo poder político e económico, também importa verificar o fenómeno inverso. A degradação do jornalismo acima referida e a forma como hoje é tratada a informação veio degradar por sua vez o discurso político, que se subordinou à lógica da produção do “soundbyte”.

Tal degradação levou a um dramático empobrecimento da discussão pública na tentativa de gerar a maior quantidade possível de ruído imediato dentro do fluxo constante de informação, usando formatos de discurso que premeiam a crispação e o simplismo, e onde se perde o conceito de nuance.

Numa sociedade de relações complexas entre os media, o poder político e o poder financeiro, a decadência do jornalismo de investigação, assim como todos os fenómenos acima referidos, têm um impacto profundo na sociedade e nas formas de atuação dos poderes que nela se movimentam.

Sobre todos nós cairão sempre as consequências do empobrecimento do discurso público e da diminuição da qualidade da informação.

Uma sociedade menos informada é uma sociedade mais manipulável e mais à mercê das forças que nela tentam provocar divisões e crispações desnecessárias.

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