O solstício de verão é sinal de que vem aí a época de festivais de verão e temos um já neste fim de semana, que veio acompanhado de muitas… nuvens? Vento teimoso, pouco sol, mas muita vontade nos diferentes tipos de rap caracterizaram o primeiro dia do Sumol Summer Fest.

Quem veio a este festival para celebrar o começo do verão não teve sorte: um pesado manto de nuvens cobriu a Ericeira na sexta-feira. Ainda assim, surfista que é surfista não tem medo do frio, e ainda se vislumbram uns corajosos que desafiam o mar escuro de prancha na mão. No entanto, em festival de música é a própria música que reina, e essa ontem não falhou.

Ao fim da tarde, a aproveitar a última claridade do sol invisível, foram os Trevo que estrearam o palco Sumol. Um punk bonito, a lembrar Blink-182 ou o rock independente do início do milénio português, apela aos mais novos, que se juntam modestamente à frente do palco. Cantam sobre os likes do Facebook ou ressacas em festivais, sobre a vida com que nos identificamos, e com isso tornam-se numa banda fácil de apreciar e de se relacionar. Interagem bastante com o público, que por sua vez, não tem vergonha em retribuir.

Trevo no Palco Sumol

Trevo no Palco Sumol

Muitas pessoas aproveitam para explorar o recinto enquanto esperam por nomes maiores. Um mini skate park da Moche com demonstrações junta algumas pessoas, bem como o lounge da Sumol onde se organizam jogos para ganhar brindes. Os corajosos da praia começam a chegar, mesmo à hora dos tais nomes maiores.

Regula reclama o palco para cantar o seu rap, e começa assim a demonstração das variações deste estilo de música que vão ocorrer ao longo do dia – ou da noite. Também ele, à semelhança dos Trevo, canta sobre coisas com as quais o público se relaciona no dia a dia, ainda que relata capítulos mais… arriscados.

É assim fácil criar proximidade com o público, que o acompanha nos refrões, quando ele pede, nos finais ou nos “façam barulho”. E fazem, fazem muito barulho. Há tempo para uma música mais calma, com Fábia Maia, ao microfone, para t-shirts e bonés à la Regula lançados para a multidão ou até para a atuação de bailarinas em algumas das músicas. Perto do fim, e para deleite do público, entra Sam the Kid, para ajudar com o seu rap quase matemático a terminar em grande este concerto.

Regula com Sam the Kid no Palco Sumol

Regula com Sam the Kid no Palco Sumol

Enquanto isso, mais acima na colina da Ericeira, Rastronaut puxa os primeiros passos de dança puros no palco Sumol Remix Academy. O seu som eletrónico e industrial permite encontrar uma forma fácil de entrar no ritmo, e o público assim o faz. Com o pé a bater ritmadamente no chão, o público faz com que se levante uma constante nuvem de pó na clareira.

Rastronaut no Sumol Remix Academy

Rastronaut no Sumol Remix Academy

Quem aproveitou a deixa para a dança foi Azealia Banks. Baseia-se no rap para acrescentar uma irrequieta bateria ao DJ, e com isso transforma a sua música num som mais explosivo, inspirada pelo urbanismo e movimento da Nova Iorque da cantora. Se a sua voz é competente, é o seu ritmo e empatia em palco que impressionam. Os seus dois bailarinos marcam o ritmo com o rigor de um relógio suíço e o espalhafato de um fogo de artifício. Ainda que fosse o maior nome internacional presente neste festival não se fez de estrela e esforçou-se para dar um bom espetáculo.

Azaelia Banks no Palco Sumol

Azaelia Banks no Palco Sumol

Em sentido contrário, quem aproveitou o seu estatuto foi Nelson Freitas, de cara sorridente e passo de dança mansinho que sem grande esforço nem aparato conquistou a audiência. O público grita, canta a voz feminina cuja gravação apenas é tocada nas colunas, tudo fazem para o espetáculo acontecer.

Se antes nem era preciso audiência para Azaelia Banks fazer a festa, agora quase que nem era preciso música para tal, bastava aparecer Nelson Freitas em palco. E, para o observador comum, é isso mesmo que parece. Nada se destaca neste concerto: não são os ritmos repetidos até à exaustão por todo este estilo musical, não são as letras banais, ora em português ora numa espécie de inglês. Qual o motivo do delírio então? Serão os tais temas das letras fáceis de relacionar que passaram agora para o capítulo amoroso?

Nelson Freitas

Nelson Freitas no Palco Sumol

Já noite dentro e, com o nível de gritos histéricos a diminuir, veio Gabriel o Pensador. Mais uma variação de rap, desta vez a puxar para o reggae, fala sobre paz, amor e um mundo unido. Aproveita e lança uma cover de Bob Marley, adaptada à língua portuguesa da atualidade. Mistura as suas rimas brasileiras com um baixo, uma guitarra e uma bateria que não se fazem por esconder nas músicas, chegando mesmo a esboçar um rock muito interessante em algumas músicas. Enquanto isso, as pessoas dançam num recinto já meio despido, em círculos e com sorrisos na cara. Gabriel é o rap amoroso, inspirado no idealismo de John Lennon, enervado quando tem de ser, mas otimista num futuro melhor.

Gabriel o Pensador no Palco Sumol

Gabriel o Pensador no Palco Sumol

O Sumol Summer Fest segue então esta linha, sem grandes confusões nem grandes multidões, um festival tranquilo do qual é fácil de gostar, que faz por se aproximar do seu público. Hoje tocam Jimmy P, Tinie Tempah e Robin Schulz, entre outros.