Perdoem-me, mas não sei definir a quantidade exata de minutos em que Naomi Campbell dançou naquele ecrã do Coliseu de Lisboa. Nem tão pouco consigo identificar com exatidão o que era aquele som que se intensificava à medida que os minutos passavam. Assim foram as primeiras impressões de Anohni. 

Mesmo que o Coliseu estivesse longe de cheio e que se ouvissem comentários como “quem é esta modelo” ou “bem, já chega disto, não?”, a verdade é que a forma como o vídeo se nos apresentava tinha o seu quê de hipnotizante. De triquiní, com um gorro (que do ângulo certo nos faz lembrar uma nova Estátua da Liberdade), saltos altos e um crucifixo ao peito, o aquecimento era feito com aquele vídeo.

Com planos mais aproximados e afastados, a passagem de tempo era marcada pelo decréscimo de luminosidade na sala. Com um Coliseu às escuras, não foi Anohni quem nos levou pela mão a entrar nesta viagem de Hopelessness. Aliás, cedo se perceberia que qualquer contacto era de evitar naquela noite. Mas já lá vamos.

Uma versão mais curta do tema Hopelessness ainda não nos deixava ver Anohni em palco. Bem, não enganemos ninguém: ver Anohni foi uma missão quase impossível. Quando surgiu em palco, envolta num manto claro, para entoar 4 Degrees, o seu rosto estava coberto por um pano negro. E assim permaneceria durante todo o concerto. Afinal, o importante neste álbum, com pouco mais de um mês de vida, é transmitir uma mensagem. Se está carregado de intervenção, de mensagem política, de revolta contra uma sociedade machista e de incitação à mudança? Definitivamente, mas sem ser aquilo a que estamos habituados dentro do género.

Longe vão os tempos em que Anohni se apresentava como Antony e tudo era feito de doçuras, pianos e derivados. O mel deu lugar às batidas electrónicas e minimalistas, dançáveis, mas não tão aceitáveis de dançar.

Enquanto desfiava os temas do álbum, como Watch Me, ou as inéditas (e tão significativas Paradise, Indian Girls ou Ricochet), Anohni tinha por companhia vídeos com planos fechados de mulheres que repetem as palavras de ordem dos temas. Sem máscaras, aquelas mulheres eram a verdadeira definição de diversidade – e não aquela a que o politicamente correto nos costuma habituar. Havia dor, força, a verdadeira essência humana e feminina projetada num ecrã e acompanhada por uma voz arrepiante.

A belíssima I Don’t Love You Anymore foi cantada bem perto do chão, com uma mescla de raiva e desilusão. A mesma desilusão e amargura que se manteve no tema seguinte, com Obama, uma espécie de carta aberta ao (ainda) Presidente norte-americano.

Em momento algum houve uma palavra de Anohni para o público. Rapidamente se entendeu que não havia ali ninguém para conquistar com falinhas mansas – os longos e fortes aplausos entre temas mostravam que a mensagem de cada tema era absorvida e apreciada. E, bem, que mensagem forte. Violent Men entoa que Never, never again we will give birth to violent men. Era bom que fosse verdade, mas ainda andamos longe disso.

Drone Bomb Me trouxe-nos novamente Naomi Campbell, à la Estátua da Liberdade negra. Mas, se durante longos minutos dançou de forma sensual, agora deixa rolar lágrimas pelo rosto, enquanto Anohni canta I think I wanna die (…) so drone bomb me. Curiosamente, poucas foram as pessoas que dançavam, embora a batida assim convidasse. Não parecia aceitável – o corpo pede movimento, a cabeça interpreta a mensagem que ecoa pelo Coliseu e não acha respeitoso aceder aos pedidos do instinto. Pelo menos, assim revelava um olhar rápido pelo público.

A artista Ngalangka Nola Taylor tem a missão de encerrar o espetáculo de digestão complexa, mas nem por isso menos bonita. Num plano apertado, com destaque para os olhos, questiona de que forma é que vamos fazer do mundo um lugar melhor para viver. Durante hora e meia, Anohni colocou muito boa gente a pensar no mesmo. Uma reflexão forte pela mão da arte, que mais uma vez prova que Hopelessness reivindica com força um lugar na lista dos álbuns de 2016.