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A Academia das Musas: um professor e o seu labirinto

Comecemos por dizer que a mais recente longa-metragem de José Luis Guerín, A Academia das Musas (a segunda a estrear em Portugal, depois de Comboio de Sombras), é de uma acessibilidade surpreendente. Isto porque a história deste filme, reduzida à sua crueza narrativa, poderá parecer uma justificação obscura e demasiado académica para os altos voos conceptuais que se adivinham. Veja-se: um professor de Filologia, inspirado pelas referências clássicas que leciona há anos, insurge-se contra o esquecimento do Belo nas sociedades contemporâneas e sugere às suas alunas que se convertam em “musas” com a missão de fazer renascer o amor platónico num mundo profano e esgotado, mas não irredimível. Para que se cumpra este projeto, o docente cultiva, aula após aula, o espírito e intelecto destas jovens, desenvolvendo com algumas delas relações questionáveis – ou, descritas em termos mais simpáticos, “pouco pedagógicas”.

Altos voos? Há-os, certamente. Mas o enredo que se acaba de resumir não é, de modo algum, um pretexto para o género de pseudofilosofias óbvias e pretensiosas a que as piores fases do cinema europeu nos têm habituado. O cineasta espanhol, reconhecido por misturar o real com o ficcional, não permite que a complexidade da intriga resulte em esterilidade, e decide, engenhosamente, encená-la sobre o palco de um falso documentário: as transições bruscas, os close-ups, as estudantes-atrizes, os espaços habitados e em constante transformação – tudo serve para animar e conferir autenticidade a um projeto que teria fracassado caso estivesse em mãos menos experientes e mais desejosas de impressionar.

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Nas primeiras cenas, assistimos às discussões que Raffaele Pinto, o nosso eloquente professor, mantém com os alunos acerca da função que as musas desempenham na produção literária, e sentimos que também estamos presentes nessa sala de aula, participando em silêncio com as nossas questões e objeções que, muitas vezes, os estudantes antecipam, colocando-as eles mesmos. Nesse contexto académico, Raffaele desvia-se habilmente das acusações de misoginia que algumas raparigas lhe fazem: tendo em conta que a qualidade feminina do comportamento amoroso é essencialmente performativa, porque deveremos importar-nos se as musas são mulheres ou homens? No entanto (e aqui reside a chave do filme), o professor que teoriza as convenções não as pode senão perpetuar pela prática, e a distância clássica – platónica – que gostaria de impor entre si e as suas alunas é preterida a favor de uma proximidade cada vez mais romântica, cujas últimas consequências se concretizam quando, perto do fim, duas personagens centrais entram num confronto verbal que tem tanto de violento como de patético, e que, estivéssemos nós perante uma tragédia grega, seria quase catártico.

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Nada disto, todavia, funcionaria sem as excelentes interpretações de todo o elenco, do qual destaco a revelação que é a mulher de Raffaele, Rosa Delor, que sobe à torre de marfim do marido para lhe relembrar do seu amor e da vida conjugal que se esforça por manter. As cenas que os dois partilham encontram-se entre as melhores porque nos apresentam uma espécie de síntese tragicómica dos profundos debates intelectuais implicados nos restantes diálogos do filme: é filosofia dramatizada (e é pena que não dure mais tempo).

A Academia das Musas engana-nos com a linearidade da sua estrutura narrativa. Quando nos julgamos próximos de fixar o seu significado, deparamo-nos com um qualquer beco sem saída – a fala enigmática, o plano inesperadamente fotográfico, o corte abrupto de uma cena – e achamo-nos, novamente, perdidos neste labirinto de reflexos. Leveza e superficialidade não são, felizmente, sinónimas: assim o prova Guerín com a beleza etérea deste seu filme.

8/10

Ficha técnica
Título: L’ Accademia delle muse
Realizador: José Luis Guerín
Argumento: José Luis Guerín
Elenco: Raffaele Pinto, Rosa Delor, Emanuela Forgetta
Género: Drama
Duração: 92 minutos

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