Os melhores filmes de 2016 até agora

Os melhores filmes de 2016 até agora (parte II)

Eis que chegámos a meio de 2016. Os primeiros seis meses de cada ano para os cinéfilos revelam-se, quase sempre, pobres em oferta: só na segunda metade, na senda da Award Season, é que os grandes filmes começam a surgir, e os maiores destaques de festivais como o de Cannes ou de Berlim demoram uma eternidade a aterrar nas nossas salas. Tirando os muitos e diversificados certames que passam pela agenda cultural do país, como o IndieLisboa ou o MONSTRA, de janeiro a junho os apreciadores da 7.ª Arte pouco parecem ter para saciar a sua sede de bom cinema.

A secção de cinema do Espalha-Factos decidiu então reunir-se para contrariar esta ideia e fazer a lista de melhores filmes de 2016 até agora. Dos mais sonantes aos mais discretos, não nos faltaram títulos, alguns deles ainda em exibição, para escolher e elaborar uma lista que, de tão variada, se irá dividir em dois artigos. O de hoje é constituído pelas escolhas da Mariana Cruz, Rodrigo Umbelino, Sebastião Barata e Simão Chambel.

The Witch

Incluir The Witch nesta lista é congratular o género do terror por ainda encontrar maneiras de nos surpreender. The Witch é como uma rajada de ar fresco num género que, entre o uso e o abuso do gore e o recurso excessivo à câmara amadora, já começa a cheirar a mofo.

Vencedor do galardão para Melhor Realizador (Robert Eggers) no Festival de Sundance e nomeado para o Grande Prémio do Júri, The Witch passa-se nesse embrião da nação americana que é a Nova Inglaterra do século XVII e segue uma família de sete que é expulsa da sua congregação pela sua incompreendida devoção religiosa. É quando decidem instalar-se à entrada de uma floresta que o pesadelo verdadeiramente começa.

O maior triunfo do filme é a sua ousadia: aquela que é provavelmente a cena mais chocante toma lugar ainda na fase inicial da narrativa e a terrível ameaça que aterroriza as personagens é dada a conhecer em todo o seu esplendor logo quando faz a primeira vítima. O facto de termos desde o princípio conhecimento da origem de todos os males da família, permite que The Witch faça a sua magia através da tensão acumulada em vez dos jump scares, do terror psicológico no lugar do derramamento desmedido de sangue. Ainda de destacar são os desempenhos impressionantes da parte mais jovem do elenco, em particular Anya Taylor-Joy que consegue inspirar misericórdia com os seus olhos esbugalhados e a sua expressão aparentemente ingénua, mas deixando-nos sempre reticentes relativamente à sua pureza e real inocência.

Os maus presságios e um ambiente familiar crescentemente opressor, construídos à base de silêncios pesados, imagens ominosas e uma fotografia que tem tanto de deslumbrante como de sinistra no recurso a cores escuras e desmaiadas, geram uma experiência imersiva e sufocante que nos assombra até muito depois de deixarmos a sala de cinema. E ainda bem. Afinal, o terror vive.
Mariana Cruz

witchOs Oito Odiados

Ainda está por chegar o dia em que Tarantino desilude. A fórmula do realizador norte-americano é bem conhecida e os padrões repetem-se: diálogos que parecem não ter fim sobre temas improváveis, personagens extravagantes, longos planos-sequência, divisão em capítulos, banda sonora que fica no ouvido, piscares de olho aos seus filmes de eleição… e sangue, muito sangue. E ainda assim, somos surpreendidos e arrebatados de cada vez que nos sentamos para ver aquilo que pode apenas ser definido como puro entretenimento. Os Oito Odiados, ainda que profundamente divisivo, não foge à regra. É Tarantino no seu melhor.

Para quem está familiarizado com o trabalho do realizador, a importância dos antecedentes torna-se óbvia desde o início: no tema e na estrutura ecoam as influências de Cães Danados, Sacanas sem Lei e Django Libertado. A ação começa numa paisagem invernosa, ampla e coberta de neve, e progride até uma cabine isolada onde permanecerá o resto do filme. Tarantino explora os limites do espaço confinado como forma de potenciar e exacerbar a tensão que se vai estabelecendo entre personagens, que não confiam umas nas outras e estão apenas à espera do tiro que despoletará o massacre.

Desenvolvendo-se languidamente e sem pressas, aproveitando para pôr a descoberto realidades históricas diretamente ligadas a um claro subtexto político, Os Oito Odiados não poupa na linguagem e não tem medo de chocar. Digna de referência é a banda sonora de Ennio Morricone, na sua primeira colaboração com Tarantino, bem como o desempenho impressionante de Jennifer Jason Leigh, provavelmente a mulher mais agredida por minuto na História do cinema.
Mariana Cruz

hateful_eight_twc_1.0.0Quarto

Quarto é uma obra-prima dramática que enaltece a relação entre mãe e filho, aliada a inquietantes momentos de thriller e suspense. Jacob Tremblay mostra uma surpreendente maturidade artística tendo em conta a exigência do seu papel, e permite ao espectador experienciar vividamente como seria existir na pequenez de um universo de quatro paredes. Por sua vez, Brie Larson presenteia-nos com uma performance merecedora do seu Oscar, retratando na perfeição o outro lado do conto de fadas em que o filho vive, transmitindo sublimemente a angústia das suas circunstâncias.

Estas performances criam os alicerces para as fundações de um enredo que pode parecer previsível ao princípio, mas que suscita o nosso pensamento, de como decorrerá a adaptação da criança que somente conhece o parco conteúdo do contentor onde o sequestrador a manteve a si e à sua mãe. Uma longa-metragem extremamente emotiva que nos faz sentir na pele das personagens, viver as suas tristezas e alegrias, as suas estranhezas e surpresas.
Rodrigo Umbelino

roomDeadpool

O menino dos olhos de ouro de Ryan Reynolds, Deadpool é uma lufada de ar fresco na amálgama de filmes de super-heróis repetitivos e previsíveis. A história do Merc with a Mouth traz tudo o que o fã dos comics pode desejar, realçando tudo o que há de mais icónico na sua personagem. Sexo, piadas questionáveis, quebras da fourth wall, e uma boa dose de vísceras são os ingredientes principais para a receita de Deadpool, e neste belíssimo e corajoso trabalho da Marvel somos convidados a apreciá-la.

De salientar o excelente trabalho da equipa de efeitos especiais, que se pode dizer que fez tudo com pouco, uma vez que o orçamento para o filme era extremamente reduzido. Uma aventura rated R sem comparação, que se funde inevitavelmente no universo X-Men numa carnificina cinematográfica, deixando em aberto quaisquer opções de sequelas e expansão para o futuro.
Rodrigo Umbelino

deadpool-trailer-2A Lagosta

Yorgos Lanthimos sempre nos habituou a mundos insólitos e bizarros. Em A Lagosta, o grego leva-nos até um futuro não muito distante, onde solteiros e solteiras são hospedados no Hotel para, em 45 dias, encontrarem um parceiro. Caso cheguem ao fim desse prazo sem ninguém, serão transformados em animais e lançados ao Bosque.

Desta premissa, Lanthimos desconstrói a sociedade em que vivemos, mais precisamente a forma como vivemos as nossas relações amorosas e olhamos as dos outros. Ainda que uma fria melancolia seja constante, ou não fosse David, o nosso protagonista, sentir-se incorrespondido durante quase todo o filme, A Lagosta é, acima de tudo, uma comédia. Com um humor negro em velocidade deadpan sempre eficaz e, por vezes, absolutamente hilariante e absurdo, não há como não nos rirmos das peripécias de David e dos seus amigos de hotel, que buscam desesperadamente uma companheira.

Contudo, e apesar de sairmos da sala de barriga cheia de gargalhadas, A Lagosta leva-nos essencialmente a pensar sobre o amor nos dias de hoje. Sim, é uma sátira assumida, mas é comummente uma inteligente metáfora para todos os pequenos pormenores que caraterizam os relacionamentos do século XXI e que por vezes nos deixa desconfortáveis. No terceiro ato, quando o humor negro dá lugar a um tom pesado e a melancolia de David, que entretanto havia experenciado pequenos momentos de genuína felicidade (ou assim ele acredita), se transforma em puro desespero e descrença, o filme dá-nos o último murro no estômago… e, desta vez, já não nos rimos.
Sebastião Barata

lobsterAnomalisa

O novo trabalho de Charlie Kauffman tem lágrimas e suor impressos desde o primeiro ao último minuto da longa. Se o desafio estava em manter vivas as expectativas de quem financiou o filme por Kickstarter, então este foi dignamente superado. Minimalista mas complexo, Anomalisa pode muito bem ser a animação mais ousada e altenativa do ano.
Simão Chambel

anomalisa

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