“Força força, Vamos, força força” – assim começa Música da Terra, o álbum de estreia dos Batuk, lançado a nível mundial no passado dia 31 de maio. De Joanesburgo para África, de África para o mundo, o trio composto por Aero Manyelo, Spoek Mathambo e Manteiga oferece aos ritmos africanos uma composição de fundo virada para house e para a eletrónica. Agora que o grupo se encontra em tourné pela Europa, o Espalha-Factos decidiu aproveitar a estadia do trio por terras nacionais para conhecer mais sobre a música e as motivações que o faz aquecer as pistas de dança.

EF – Como surgem os Batuk?

Spoek Mathambo (S): Começamos há cerca de um ano. O Aero e eu estávamos a tentar arranjar um projeto juntos, eu era um grande fã dele. Depois vi algum trabalho que ele desenvolveu e fiquei espantado com a sua voz. Ele trabalha texturas e uma voz fantástica, e pensámos que com os nossos beats eletrónicos seria uma boa combinação.

Manteiga (M): Sim, foi assim que aconteceu. E nós juntamo-nos em estúdio, experimentamos, e resultou! Resultou bem tudo junto. Foi mágico!

EF – Como é que tem sido o trabalho entre os três?

Aaero Manyelo (A): É bastante fácil, na nossa zona de conforto, conhecemo-nos muito bem. Às vezes tento uns beats, surgem melodias, eles escrevem, gravamos, é basicamente isso.

Fotografia de Inês Delgado

Fotografia de Inês Delgado.

EF – O que é vos inspira na hora da produção musical?

A: Eu sou uma pessoa triste no meu interior, mas no todo sou uma pessoa alegre. Na produção, eu liberto um pouco disso. Mesmo numa canção alegre pode haver algo de melancólico.

EF – Identificam-se com algum género musical específico?

M: Nós não temos um género específico, não queremos colocar uma etiqueta no nosso som. Nós temos tantas influências.

S: Eu penso que nós exploramos as influências do Aaero e depois damos o nosso toque.

EF – Consideram que a partir de uma abordagem mais house estão a projetar a música africana?

S: Eu não considero que haja uma abordagem house music constante, mas nós somos da África do Sul, nós representamo-nos naturalmente.

M: Nós somos africanos e África está na nossa música. Temos influências de todo o mundo, mas no fundo a música tradicional sempre esteve nas nossas músicas, tem uma forte influência e está claramente na música.

S: É algo que nos toca. E nós só queremos tocar o mundo da forma como ele nos toca.

EF – O que é que gostariam de explorar em termos musicais no futuro?

M: Mais daquilo que temos feito. Nós temos feito apenas colaborações, temos trabalhado com diferentes artistas de diferentes pontos do mundo, com sons diferentes, ritmos diferentes, línguas diferentes. Portanto, mais daquilo que estamos a fazer agora. Nós só tocamos ainda na ponta do iceberg. Ainda há muito por explorar. Só agora é que começamos.

Fotografia de Inês Delgado.

Fotografia de Inês Delgado.

EF – Num panorama onde muitos resvalam para a música cantada em inglês, o que é que vos faz apostar em vários idiomas, entre os quais a língua portuguesa?

S: No começo do grupo eu fiz várias missões em vários países. Algo que me tocou profundamente foi tocar em Moçambique, num local chamado Nambale. Depois fui a Angola, Etiópia, Zâmbia… Descobri um interesse partilhado na música africana eletrónica. Foi então que encontrei uma forma de tocar música afro-house angolana e afro house-sul-africana. E nenhuma dessa música era em inglês, mas em línguas tradicionais e português. Mas tudo isso em contextos diferentes resultou muito bem, enquanto uma ligação. E eu fiquei contente como línguas como a portuguesa que resultam em vários locais, tal como a língua inglesa, mas é uma forma alternativa, uma exploração diferente. Então este foi o início de uma jornada. Também usamos línguas diferentes que o Aaero fala, que eu falo, que os artistas que colaboram falam, e é uma mistura. Mas também temos canções em inglês.

Fotografia de Inês Delgado

Fotografia de Inês Delgado.

EF – No vosso álbum de estreia, Música da Terra, partilharam o tempo de antena com artistas de vários países africanos. Como foi essa conjugação de estilos e saberes?

M: É poderoso! É sempre poderoso colaborar com outras pessoas. Entramos na mente e coração desses artistas e partilhamos e aprendemos uns com os outros.

EF – Alguns artistas com os quais gostariam de trabalhar no futuro?

M: Milhões!

EF – E podem adiantar alguns nomes?

A: Eu acho que isso depende, porque nós viajamos e portanto não há um nome específico em mente. Mas se houver alguém que trabalhe bem no nosso projeto, podemos até ir à China e trabalhar com alguém.

S: Acima de tudo temos a mente aberta, não estamos necessariamente à procura de artistas como a Lady Gaga. Mas se ela quiser trabalhar connosco, vamos trabalhar! (risos)

EF – O terceiro single do vosso álbum, PUTA, é o grito feminista do álbum. Consideram que o próprio desafio linguístico de abordar este palavrão múltiplas vezes é também uma forma de protesto?

M: Claro que sim!! Há mulheres que são constantemente chamadas de “puta”, “cabra”,… em todos os tipos de música. No hip hop ouve-se a toda  a hora “puta”. E por que é que eu não posso dizer esta palavra uma e outra vez? Já é cantada vezes sem conta de qualquer forma. No carro, quando as crianças estão a caminho da escola.

S: A canção nasceu de uma experiência verídica. Vem de episódios de mulheres que são agredidas e chamadas de “puta”.

M: Eu estava em Berlim com os rapazes. Era fevereiro e estávamos apenas a passar na rua. De repente um rapaz qualquer passou por nós numa bicicleta, bateu-me no rabo e gritou “PUTA!!”. Quem me dera que esse rapaz ouvisse a música! (risos).

EF – No passado dia 4 passaram pelo Serralves em Festa no Porto. Como correu o concerto?

M: Foi o melhor concerto que fizemos até agora.

EF – Como é o público português?

M: Fabuloso! Fantástico! Tem tanta energia! Foi poderoso. Quando estávamos no palco foi a loucura.

A: Eu acho que houve crowdsurfing! (risos)

M: Estavam todos bastante envolvidos, queriam tirar fotos connosco, falar connosco. Havia muita gente a aproximar-se e que apreciava a nossa música, o que é fantástico porque a maioria das pessoas não conhecia a nossa música. Foi a primeira vez e vê-lo fascinado a ouvir-nos pela primeira vez fascinou-nos.

Fotografia de Inês Delgado.

Fotografia de Inês Delgado.

EF – Quais as expectativas para o concerto em Lisboa com os Buraka Som Sistema, a 1 de julho?

S: O alinhamento é extraordinário. Convidaram-nos para tocar e vai ser mesmo entusiasmante. Eu penso que vai ser emocional para eles [Buraka] porque é o último concerto. Temos estado a ouvir Dotorado Pro, um jovem produtor que tem feito músicas fantásticas; ele também está no alinhamento connosco. Sim, é entusiasmante!

M: Nós também estamos a tentar puxar pela nossa música aqui em Portugal, portanto penso que é uma grande oportunidade. O público vai estar animado. Quando falo a alguém do concerto dizem-me que vão lá estar. Portanto nós estamos prontos!

S: Antes de termos a ideia para o grupo fomos influenciados pelos Buraka Som Sistema!

M: Eu tenho ouvido os Buraka há cerca de 10 anos. Sou completamente fã! Para mim, este concerto é como um sonho tornado realidade. Belisquem-me!

Fotografia de Inês Delgado.

Fotografia de Inês Delgado.

EF – Gostariam de dar mais concertos aqui em Portugal?

M: Nós vamos!

S: Claro! Eu penso que com o português como língua para comunicar pela música é natural e é empolgante para nós! Aqui as pessoas percebem-nos, retiram os seus significados das letras,…

EF – Que mensagem deixam para os leitores que ainda não ouviram o “Música da Terra”?

M: É algo diferente, algo de novo.

S: Todo o mundo precisa de abanar o rabo, ocasionalmente!

M: Sim, ocasionalmente vão abanar o rabo, mas oiçam, apenas oiçam. É novo, fresco!

S: É uma viagem entusiasmante, que mostra onde a música está agora. Não é apenas um género, mas é algo coeso. É divertido, tem ritmo. Eu acho que é uma boa viagem que as pessoas deviam fazer. Há pessoas que têm dito que os álbuns morreram nos últimos 10 anos ou assim, e que agora há mais singles, para esquecermos os álbuns. Mas nós descobrimos que as pessoas estão a aderir mais a esta ideia de viagem do “Música da Terra”, e os leitores deviam aderir também.

M: O feedback que temos tido das pessoas que têm mesmo ouvido o nosso álbum dizem que está mesmo bom!

Com o primeiro álbum lançado há relativamente pouco tempo, os Batuk já preconizam um quarto EP, com lançamento previsto para setembro. Deste novo projeto feito a partir de Música da Terra, os ouvintes poderão esperar muito “groove” e vários remixes. Spoek afirma que provavelmente haverá um próximo álbum em 2017, com “novas influências”, assegura Manteiga.

“Stay Tuned!” (Fiquem atentos!) – afirma a vocalista.

Fotografia de Inês Delgado.

Fotografia de Inês Delgado.