Eis que chegámos a meio de 2016. Os primeiros seis meses de cada ano para os cinéfilos revelam-se, quase sempre, pobres em oferta: só na segunda metade, na senda da Award Season, é que os grandes filmes começam a surgir, e os maiores destaques de festivais como o de Cannes ou de Berlim demoram uma eternidade a aterrar nas nossas salas. Tirando os muitos e diversificados certames que passam pela agenda cultural do país, como o IndieLisboa ou o MONSTRA, de janeiro a junho os apreciadores da 7.ª Arte pouco parecem ter para saciar a sua sede de bom cinema.

A secção de cinema do Espalha-Factos decidiu então reunir-se para contrariar esta ideia e fazer a lista de melhores filmes de 2016 até agora. Dos mais sonantes aos mais discretos, não nos faltaram títulos, alguns deles ainda em exibição, para escolher e elaborar uma lista que, de tão variada, se irá dividir em dois artigos. O de hoje é constituído pelas escolhas do André Vieira, Diogo Ferreira, Diogo Simão e Pedro Rodrigues.

O Caso Spotlight

Spotlight é uma obra essencial para entender, da melhor possível, a arte do jornalismo de investigação. Thomas McCarthy desenvolveu um trabalho que não procura cativar os espectadores atraves do glamour visual mas sim ao apresentar uma história que explora os danos irreversiveis que um tema tão controverso, como a pedofilia, pode causar numa comunidade, neste caso o estado de Boston. Isto só é possível através de um argumento fantástico que procura não cair em clichés e ainda consegue espremer a qualidade de cada elemento do elenco. À medida que os minutos vão passando, o espectador assume a pele do pequeno grupo de investigadores e percebe como um trabalho de campo pode afetar, em grande escala, a vida de um jornalista profissional. A premissa é simples e está muito bem executada. Esta capacidade em explorar cada detalhe de um caso tão polémico, torna Spotlight num dos filmes essenciais de 2016.
André VieiraSpotlight

Cemitério do Esplendor

Tendo estreado por cá no início deste ano, o último filme de Apichatpong Weerasethakul (Febre Tropical, O Tio Boonmee Que se Lembra das Suas Vidas Anteriores) foi fervorosamente elogiado pela crítica em 2015, mas por razões quase sempre redundantes. Não é apenas pelo seu mistério que Cemitério do Esplendor merece aplausos; aliás, falar unicamente da lógica onírica que o anima (como se esta bastasse para justificar a fluidez do seu enredo) é reduzi-lo às tautológicas sinopses que por aí se lêem. Se olharmos para além do sonho, para além do inominável, notamos que a obra de Weerasethakul tem: uma protagonista como nunca vimos, sábia e profundamente espiritual, também ela um mito que jamais compreenderemos inteiramente; um inesperado e formidável sentido de humor, que mais se aproxima do teatro absurdista do século passado que da comédia de pura esquisitice tão frequente no cinema de autor desta última década; uma cinematografia belíssima que não cede à fácil fotogenia do cenário tropical onde esta história tem lugar. E é de louvar a reflexividade – ou a coragem? – de um filme que, conservando o seu mistério fundamental, se revela mecanicamente perante o espectador, mostrando-se como aquilo que todos os filmes verdadeiramente são e procuram, com grande desespero, esconder: hipnose.
Diogo Ferreira

cemiterio45 Anos

O título indica-nos uma duração – a de uma vida conjugal – que é, à escala humana, tempo suficiente para duas pessoas casadas se tornarem mutuamente transparentes, sem ângulos mortos ou segredos inimagináveis. Ou pelo menos, deveria ser assim, há uma inescapável pressão social para que assim seja, tal como é suposto que se celebre o aniversário desse mesmo casamento. E é isso que Kate e Geoff (Charlotte Rampling e Tom Courtenay, galardoados com o Urso de Prata para melhor atriz e ator por este filme) se preparam para fazer: comemorar 45 anos que viveram juntos enquanto casal, numa comedida e segura felicidade. É então que o passado – um longínquo mas traumático evento – interfere e toda a festa fica suspensa. De súbito, apercebemo-nos de que estamos a assistir à mais triste das histórias de fantasmas. Junta-se-lhe a elegante realização de Andrew Haigh (Weekend, Looking) e o inacreditável desempenho de Rampling e temos um filme que tão cedo não esqueceremos, uma lenta ferida que se vai abrindo e consumindo tudo em seu redor.
Diogo Ferreira

45

10 Cloverfield Lane

A ficção científica contemporânea faz dos efeitos especiais o seu chamariz. 10 Cloverfield Lane seguiu no sentido oposto, oferecendo quase duas horas cheias de tensão, conversas ambíguas, metáforas inteligentes e um clímax merecidíssimo. De salientar John Goodman, que se entrega de corpo e alma, contribuindo com (talvez) a melhor interpretação da sua carreira.
Diogo Simão

10_cloverfield_lane_still_1Bons Rapazes

Shane Black regressa à forma, escrevendo e realizando uma das melhores comédias dos últimos anos. Inteligente, rápido e vulgarmente hilariante, Bons Rapazes é uma lufada de ar fresco no panorama do cinema norte-americano. Embora siga uma estrutura convencional, fá-lo com tal classe e descompromisso que liberta o espectador das amarras da realidade, levando-o numa jornada onde vale, literalmente, tudo.
Diogo Simão

nice

The Revenant – O Renascido 

Adaptado do livro homónimo de Michael Punke, por sua vez inspirado na história verídica de Hugh Glass, The Revenant ambienta-se nos Estados Unidos da América do século XIX, tendo como ponto precursor de toda a trama um grupo de caçadores que sobrevive à custa da venda de peles de animais e tenta a todo o custo escapar dos frequentes ataques mortíferos das tribos índias. No seu decorrer, Hugh Glass, (Leonardo DiCaprio), é vítima de um ataque de um urso pardo, uma das melhores cenas do filme e excelentemente tratada, sendo deixado entregue ao destino pelos seus companheiros, e posteriormente à morte por parte de John Fitzgerald (Tom Hardy), que se nega a carregar o corpo moribundo de Glass, acabando por o abandonar e matar o seu filho. Posto isto, a vingança de Glass pela traição de Fitzgerald passa, portanto, a ser o fio condutor de toda a narrativa.

Com poucos diálogos, DiCaprio entrega-nos uma prestação física e psicologicamente irrepreensível. Ao longo da película somos confrontados com todo o sofrimento de que a sua personagem é vítima e com todas as adversidades que tem de enfrentar para saciar as suas necessidades e o seu objetivo de vingança. Não, não é o seu melhor desempenho, estando longe disso, mas mesmo assim, acaba por ser digno do Oscar que, efetivamente, acabou por ganhar. Tom Hardy, no entanto, não lhe fica nada atrás, evidenciando, neste papel como vilão, o porquê de ser um dos atores mais cobiçados do momento.

Tecnicamente, The Revenant, é um filme fenomenalmente conseguido. O melhor que esta película nos oferece é o trabalho cinematográfico perfeito de Emmanuel Lubezki, um verdadeiro mestre do seu ofício. A sua capacidade técnica é, muitas vezes, de cortar a respiração e, alienada à fabulosa banda sonora composta por Carsten Nicolai e Ryuichi Sakamoto, somos muitas vezes confrontados com planos-sequência inegavelmente espetaculares e assombrosamente fenomenais, o que torna The Revenant num dos melhores filmes, tanto em aspetos visuais como sonoros, dos últimos tempos.

Nomeado para 12 Oscars da Academia dos quais venceu apenas três, The Revenant é um filme que, apesar de todos os seus convencionalismos e falhas de argumento, acaba por ser uma obra tecnicamente impecável e puramente realista que muito dificilmente deixa alguém indiferente e é, inquestionavelmente, um dos melhores filmes que chegou este ano ao nosso país.
Pedro Rodrigues

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