A Tua Cara - Destaque
Fotografia de João Marcelino.

A Tua Cara: quando um objeto também é um retrato

Ana VeigaDavid Martins são dois jovens que, para além de partilharem a paixão pela arte de fotografar, são o rosto do projeto A Tua Cara. Cerca de cinco meses após o lançamento da primeira publicação no blog,Espalha-Factos esteve à conversa com os criadores deste projeto com “um conceito distinto”, nas palavras dos próprios.

Num ambiente descontraído, num extenso relvado em Belém, falou-se do começo do A Tua Cara e de uma série de aspetos que gravitam em torno dos jovens fotógrafos e do seu blog em crescimento.

EF – Como surgiu o projeto A Tua Cara?

David Martins (D) – O projeto surgiu entre duas ideias de duas pessoas diferentes. A minha era fazer um projeto mais ou menos baseando-me num fotógrafo norte-americano, Martin Schoeller, que é basicamente retratar mendigos ou outras pessoas. Ele tinha um género de um estúdio portátil, com um manto preto e dois tripés a segurá-lo, e fotografava essas pessoas, fosse retrato, fosse meio corpo. E a Catarina era basicamente…

Catarina Veiga (C) – Eu queria ir mais além, eu queria ser mais poética! Andava à procura de uma ideia que fosse mais além, à essência das pessoas, até que ponto é que há coisas que definem a identidade da pessoa.

Houve um dia que vinha a conduzir e quando cheguei ao pé dele disse: “Eu tive a ideia! A melhor ideia de sempre!”. E disse-lhe: “porque é que não juntamos a tua ideia de fazer retratos com, por exemplo, tentar perceber o que é que para as pessoas, a nível de objetificação, as identifica?”. Às vezes vemos algo, viramo-nos para um amigo e dizemos: “É mesmo a tua cara!”. Porque não tentar perceber que objetos, para as pessoas, as identifica? E foi assim que surgiu.

Fotografia de João Marcelino.
Fotografia de João Marcelino.

EF – Para além de Martin Schoeller, que outras referências no mundo da fotografia vocês têm?

D – Tenho uma referência que não tem nada a ver com o projeto. Admiro James Natchwey, que é um fotógrafo de guerra, acho que é um dos mais conhecidos. Quando segui fotografia fui-me baseando no trabalho dele, chamou-me imenso a atenção.

C – Eu sou péssima com nomes, admito já! Sei apreciar e avaliar determinado trabalho fotográfico, mas eu sou mais “do nosso cantinho”: tudo o que eu aprendi na área da fotografia foi com um fotógrafo português, José Carlos Carvalho, que é uma pessoa que admiro bastante a nível de trabalho. Gosto muito do trabalho dele. A par disso há vários fotógrafos dos quais gosto de ver trabalhos, mas eu sou apologista dos portugueses. O que é português é bom!

EF – Como tem sido a partilha da autoria do A Tua Cara entre vocês os dois?

C – Ele é chato! Eu tenho de lhe estar sempre a dizer “Não te esqueças…!”, de implicar com ele, mas é giro!

D – É engraçado, porque eu digo-lhe o mesmo! É bom, é o jeito de cada um. (risos)

C – Funciona bem. Tentamos fazer com amigos, família, e amigos de amigos. Tentamos que cada um faça dos seus amigos e dos amigos dos amigos, e vamos sempre tentando contrabalançar: uma vez ele, outra vez eu. Se um não tiver fotos por publicar, o outro acaba por publicar na sua vez, e vamos tentando fazer com que o projeto vá ganhando corpo.

D – A ideia é publicar duas fotos por semana, uma de cada um…

C – Ainda não aconteceu. Estamos à espera que as pessoas se cheguem à frente. Estamos de portas abertas.

D – Até quando vou para a terra dos meus avós falo com primos, familiares, amigos, e tento combinar com eles para ver se eles têm algum objeto que os identifique. Daqui para Castelo Branco, daqui para Castro Verde, por exemplo.

C – Mas as pessoas são muito preguiçosas (risos). Dizemos para as pessoas pensarem num objeto e elas dizem “Ah não sei!…”. A minha mãe está há três meses para fazer a foto, e é a minha mãe!

D – Sim, o meu pai também!

Fotografia de João Marcelino.
Fotografia de João Marcelino.

EF – Quando criaram o projeto, que expetativas tinham?

C – A nossa ideia era que desse numa coisa gira, que desse gozo fazer, e que desse gozo às pessoas que participam no projeto.

D – Sim, claro dar gozo, este projeto é também para as pessoas. É assim, muita gente compara este projeto com um outro trabalho na área do retrato. Muita gente diz que o nosso projeto é baseado nele, mas não tem nada a ver. Esse projeto, basicamente, é composto por quatro fotógrafos que estão a trabalhar e encontram uma pessoa, perguntam se quer entrar para o projeto e encontram a história. Fazem eles muito bem.

C – Sim, nós gostamos muito do projeto, atenção!

D – Gostamos muito do projeto deles!

C – A nossa ideia acaba por ir mais além porque faz as pessoas pensar.

D – A razão pela qual aquele objeto identifica aquela pessoa.

C – Mais do que a história de vida. “Quem és tu? Como que é que este objeto que escolheste te define?” É um bocadinho diferente.

D – É retratar um objeto que identifique a pessoa, não retratar a pessoa. É completamente diferente. E quanto à maneira de fotografar, cada fotógrafo tem a sua maneira.

C – As minhas são mais giras que as dele!

D – Isso não vamos falar! (risos)

EF – Há pouco referiram que era um pouco complicado arranjar pessoas para o blog. Para além disso, que outros desafios têm encontrado?

C – As barreiras geográficas. Há gente a querer participar. E é assim, este é um projeto sem custos. Já tivemos pessoas a perguntar qual era o valor para participar no projeto. Mas não tem custo, pronto!

A agora a questão é: para irmos para o Porto ou para irmos a Braga, isso tem um custo para nós, e que nós não vamos fazer com que a pessoa pague para participar no projeto, não faz sentido. Portanto acabamos por deixar algumas pessoas que querem participar em stand by. Por exemplo, nós fomos ao Porto tratar de outras coisas. E lá fotografamos logo duas pessoas que estavam no Porto. Vamos tentando colmatar assim. Mas ainda assim há gente que quer participar e nós estamos à espera que, ou venha a Lisboa, ou que por acaso nos encontremos a meio do país por algum motivo.

Há quem nos pergunte se podem enviar a foto e depois publicamos. Não, a ideia não é essa. A ideia é sermos nós, de facto, a fazer a foto. Acho que essa é a principal barreira.

Fotografia de João Marcelino.
Fotografia de João Marcelino.

EF – Vocês têm em mente alguma pessoa em mente para fotografar, independemente de ser famosa ou não?

C – Eu gostava de entrevistar o Marcelo Rebelo de Sousa! Ou o Raminhos que, por exemplo, ia concretizar o teu sonho!

D – O meu sonho? Ah!

C – O David, quando criámos o projeto, disse: “De certeza que vai haver imensa gente a querer escolher um determinado objeto sexual, para maiores de 18!” E ele está muito triste porque ainda ninguém escolheu. Portanto eu acho que o Raminhos era pessoa para isso. Estamos aqui a propor um desafio ao Raminhos!

Mas há tanta gente, e as pessoas acabam por ser uma surpresa. Às vezes a pessoa que achas que é a mais calma, que vai escolher um objeto super banal, sai assim com uma escolha surpreendente. Acaba sempre por ser uma surpresa. Eu não costumo perguntar às pessoas qual é o objeto. Quero que seja uma surpresa porque acaba por ser mais cativante. Mas há muita gente que eu gostava de fotografar!

EF – Qual foi a fotografia que mais gostaram de fazer?

D – A minha, até agora, foi uma fotografia da minha avó. A minha avó tem Alzheimer há já 13 anos. É um caso raro, é uma cobaia de um cientista português que está a tentar arranjar uma cura para a doença. A minha avó já não sabe o que é segurar, comer, e hoje em dia ela já não consegue andar. Ela anda sempre com uma canadiana, e se ela pegar na canadiana ela consegue fazer alguns movimentos, mas não consegue fazer quase nada. Basicamente anda de cadeira de rodas.

Ela estava sentada na cadeira de rodas, eu peguei na canadiana e coloquei-a entre as pernas delas. E o engraçado é que, sem lhe dizer nada, a minha avó ajeitou a canadiana, agarrou-a e colocou-a em frente. Agarrou como uma sensação de que sabia que ia fazer a foto. O texto que está lá escrito é uma coisa que ela sempre dizia. E isso tem muito significado para mim. A minha avó, para além de avó, é como uma mãe para mim.

C – Eu vou para a parte da palhaçada, não é? Sou o lado do “palhaço” do projeto. Não, ele também é (risos)! Não houve assim uma que me tenha marcado muito. Já apanhei objetos muito engraçados.

Para mim, um dos objetos mais engraçados foi o de um colega nosso do trabalho, que escolheu um Game Boy. Mas mais engrçado foi a justificação que ele deu: ele fez uma analogia da vida real ao Game Boy, ou seja, equiparou as decisões da vida aos botões. Deu uma coisa muito gira, muito engraçada. Não estava à espera de uma coisa tão profunda.

EF – Que feedback têm tido do blog até agora?

C – As pessoas gostam muito.

D – Até agora tem sido tudo bom e nada de mau. Ainda bem.

C – Ainda ninguém nos quis bater, ainda ninguém nos disse que não tirávamos fotos de jeito, ou que o nosso projeto era assim algo que “esquisitóide”. Portanto…

D – A única coisa que nos chegou foi a tal comparação com o outro projeto. E essas pessoas acabaram por perceber as diferenças.

C – Mas sim, as pessoas gostam. É bom!…

Fotografia de João Marcelino.
Fotografia de João Marcelino.

Para participar no A Tua Cara basta falar com qualquer um dos fotógrafos, escolher um objeto que te identifique, e responderes à questão “Porque é que escolheste esse objeto?”. Como forma de impulsionar esta iniciativa, Catarina David fotografaram alguns membros da equipa do Espalha-Factos. A primeira publicação fotografada neste dia já pode ser vista e lida aqui.

 

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