Não foi propriamente em Nova Iorque que estivemos. Mas pode-se dizer que fomos à Broadway, ou melhor, aos bastidores de uma peça da Broadway. Tendo como inspiração Bullets over Broadway, de Woody Allen, Gangsters na Broadway instalou-se no Auditório do Casino Estoril. Damos-te cinco motivos para não dizeres que afinal não estivemos num dos mais conhecidos palcos do mundo.

Bill (Pedro Barroso) é um escritor em busca da consagração no mundo do drama. Sonha em ser um Tchekhov americano e elevar o verdadeiro sentido do teatro ao público da Broadway. Paul (Guilherme Barroso) duvida do êxito da sua história. Bill quer um drama psicanalítico, Paul acha que o público na Broadway precisa de algo mais leve.

Mas há quem se queira torna conhecida e tenha uma namorado milionário, líder de um grupo de gangsters e dono de um bar com espetáculos. Rosie (Dânia Neto) veio para Nova Iorque para ser atriz, aliás, veio para a cidade para ser famosa. Juntando o útil ao agradável, Mr. Pavone (Paulo Cintrão), o seu namorado, compra a peça de Bill.

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Rosie com Mr. Pavone. Foto: Jhonatan Magalhães

O elenco não está terminado e há personagens a contratar. Entre a deprimida Marylin Taylor (Carla Vasconcelos) e o guloso Michael Durcell (Nuno Távora), a peça de Bill vai contar com uma lenda viva da Broadway: Dianne West (Fernanda Lapa). Contudo, uma nota. A emblemática atriz só aceita o papel porque os anos passam e a juventude do autor e encenador são atraentes.

A intriga está lançada. Será que a assistente da peça, Sandy (Paula Neves), vai ser a salvação de uma drama que podia estar condenado ao fracasso se não fosse um guarda-costas criminoso (Henrique Feist) com muita imaginação?

1) Não é o mesmo que ver o filme

Parece que os palcos portugueses se estão a converter a Woody Allen. Foi assim com Intimidades, da Companhia da Esquina, e acontece agora com Gangsters na Broadway, da Artfeist. Mas não há que ter medo de ir ver uma adaptação do filme. Sim, fala-se de psicanálise, há gente que faz terapia e até se aponta Freud, mas a peça encenada por Eduardo Gaspar não se cola ao filme de 1994.

Gangsters na Broadway segue a linha do drama da sétima arte, protagonizado por John Cusack e Diane Wiest. Contudo, não há como confundir. E não falo apenas da mudança dos nomes ou do facto de em teatro se estar cingido a um único espaço. A dinâmica das personagens é diferente. O Bill de Pedro Barroso é bem mais neurótico que o David de John Cusack. Também o próprio ritmo da ação é mais intenso e o objetivo de fazer rir é mais forçado.

Bullets over Broadway passou mesmo pela Broadway, em 2014, no St. James Theatre, entre a sétima e a oitava avenida. A crítica recebeu bem a adaptação, com um defeito para o Stagegrade, é um espetáculo demasiado barulhento. Para Alexis Soloski, do The Guardian, as músicas não se conjugaram bem com a coreografia (que elogiou) e a história.

2) É um show de divas

Broadway que é Broadway tem as suas divas! Neste caso, nem há mal nisso, porque até dão cor à história. Rosie, que se mostra pouco culta e inteligente, quer um papel com muitas palavras. Diane, em tempos intemporal, quer que o público se lembre dela e a glorifique. Figurinos da Channel ou oito dúzias de rosas brancas por espetáculo fazem parte das exigências destas senhoras.

Entre muitos tecidos de marca e muitas flores por dia, há uma que se mostra a verdadeira diva: Sandy. A assistente mostra-se a atriz chave da peça que antes de chegar a Nova Iorque se estreia em Boston. E não falo apenas da personagem, Paula Neves mostra uma representação segura e embora não assim com tantas deixas (tal como a personagem que interpreta) coloca um tom maduro à peça. Nem tudo na Broadway são plumas e risinhos fáceis.

3) O verdadeiro artista não é aquele que esperamos

O autor e encenador é o herói da peça. É ele que escreve, é ele que coordena, mas Bill tem um problema: é demasiado poético e pouco dramático. Quem salva o texto de ser uma seca para o público é de onde menos se espera. Quer dizer, se fosse pelo ator, todos esperaríamos, é a personagem de Henrique Feist. Freddy é um gangster sem medo de matar, impiedoso, que se cansa de assistir aos ensaios como guarda-costa de Rosie. Por isso, decide dar sugestões para se mudar a peça. Todos aplaudem, até o público quando a peça estreia.

Henrique Feist é outro dos atores a destacar. Mais uma vez, dá uma linha clara à sua personagem, tem carisma e não é monótono nem cria tédio como a personagem que lhe corresponde no filme de Woody Allen.

4) O ambiente convida-nos a entrar no espírito nova-iorquino

Estamos mais ou menos nos anos 30. Os penteados das divas ou os ‘fatiotes’ dos cavalheiros colocam-nos na época. Mas também se pode referir os vários apontamentos musicais que nos embalam nas mudanças de cena e nos colocam numa noite de Nova Iorque, naqueles que foram uns anos em que o teatro era a distração predileta e que mais consagrava os atores.

Se a música final de Louis Armstrong nos faz colocar num La vie en rose americano, as luzes encaminham-nos para esse cenário “apaixonante” e cheio de holofotes, que é a Broadway. Falta apenas aquela coreografia característica da Broadway que a versão americana tem.

5) Reflete sobre o teatro de forma aliviante

A frase já é feita e a reflexão não é nova. Mas é tão bom quando o amor vence! Bill é um escritor tão neurótico pelo seu trabalho que é capaz de se apaixonar pelas personagens da sua própria peça. Mas é com a mais talentosa delas que termina.

Há também apontamentos de um efervescente mundo do entretenimento em detrimento da arte e da publicidade como motor da bilheteira e da consagração da peça.

Quando me refiro a uma forma aliviante é assumidamente também sobre a carga de entretenimento da própria peça. É uma peça descontraída e que faz rir pelo ridículo de algumas situações. Estamos na Broadway, tudo é possível.

Pontos fracos

  •  Muitas vezes, cai na piada já feita e fácil, quer a nível do ‘humor sexual’ ou da descoordenação das línguas, como acontece com Rosie e a empregada francesa Amélie (Teresa Macedo).
  • Com excepção de Sandy e, por momentos, de Amélie, todas as mulheres têm uma personalidade muito desvirtuada e, por vezes, fraca. A demasiado estridente Rosie, de Dânia Neto, é apenas uma alienada e mais nada?

Pontos fortes

  •  As personagens masculinas têm muito carisma e mantém uma representação coesa, como é o caso de Bill, de Pedro Barroso, e Freddy, de Henrique Feist.
  • O cenário facilita a inserção do espetador num ambiente de espetáculo sem ser necessário o elenco fazer grandes mudanças e sem o tornar confuso ao espetador.
  • Não se pegou no que já estava feito e criou-se uma versão própria. Nem as personagens psicanalíticas de Woody Allen, nem a carga musical e com sapateado da versão da peça americana estão lá.
A peça pode ser vista no Auditório do Casino Estoril até final de julho, de quinta a sábado, às 21h30 e domingo, às 17h00. Sabe mais informações, aqui.