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Um dia perfeito: não basta rir

Um dia perfeito, a primeira longa-metragem em língua inglesa de Fernando León de Aranoa (autor dos premiados Los lunes al sol e Princesas), apresentada na Quinzena dos Realizadores de Cannes 2015, estreia agora nas salas portuguesas. Com este filme, León de Aranoa não abandona os lugares de denúncia e consciência social onde podemos situar grande parte da sua filmografia. Desta vez, acompanhamos o dia perfeito de uma equipa de ajuda humanitária que, durante a guerra civil jugoslava, se vê a braços com uma crise local: serão contaminadas as reservas de água de uma comunidade isolada caso não se retire um cadáver do fundo do poço desta aldeia. Os nossos heróis entram numa corrida contra o relógio em busca da corda necessária para erguer o morto, tarefa que se revela mais árdua do que poderia inicialmente parecer, pois vão surgindo vários obstáculos no caminho – milícias armadas, burocratas, minas, etc.

O plano de abertura, que se inscreve no tom negro anunciado pela sinopse, é prometedor; porém, neste seu novo trabalho, mais internacional que aqueles que o precederam, o cineasta espanhol precipita-se ao querer familiarizar o desconhecido. Para que nos aproximemos de imediato da história contada, enche-se o filme de um humor aborrecido, inoportuno, por vezes inteiramente dispensável, que aplana e, desculpe-se o estereótipo, “americaniza” a realidade em causa, transformando-a numa sucessão de sarcasmos e irreverências cool.

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O problema não é tanto a leveza da abordagem, que, por si só, é bem-vinda (antes esta visão cáustica que mais um exercício de lágrima fácil como os que com frequência se encontram neste género de cinema). O que verdadeiramente incomoda é que esta tirania da comédia visa neutralizar o objeto de estudo e conferir-lhe uma falsa imparcialidade, sob a premissa de que tudo é absurdo e inexplicável. Nesse processo de simplificação, há pequenos percalços como, por exemplo, o tratamento sexista que é dado às duas mulheres, Sophie e Katya (Mélanie Thierry e Olga Kurylenko, respetivamente), que são postas a orbitar em torno de um carismático (mas automático) Benício del Toro. A resposta é, tal como as personagens, simples: uma maior complexidade psicológica seria incompatível com a rajada de piadas que constitui pelo menos metade do guião. Por isso, quando chegam as previsíveis armadilhas emocionais, já estamos demasiado acostumados à natureza bidimensional do enredo para que estas tenham qualquer efeito de empatia. A conclusão apressada da narrativa também sabe a pouco, tentando, com uma montagem final, devolver ao filme uma sensação de coerência totalizante que esteve sempre ausente.

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No que diz respeito à cinematografia e edição, Um dia perfeito já é mais consistente. A realização, ainda que impessoal, é eficiente: León de Aranoa não perde tempo para nos colocar no centro da ação. Sobram algumas cenas bem conseguidas e eficazmente sugestivas – como a do soldado que se recusa a fornecer a corda que mantém uma bandeira hasteada – que mereciam estar incluídas num conjunto mais sofisticado, sem diálogos snappy, de preferência.

4/10

Ficha técnica
Título: A Perfect Day
Realizador: Fernando León de Aranoa
Argumento: Fernando León de Aranoa (baseado na obra Dejarse Llover, de Paula Farias)
Elenco: Benicio del Toro, Tim Robbins, Mélanie Thierry, Olga Kurylenko
Género: Comédia dramática
Duração: 106 minutos

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