Dizem que depois da tempestade vem a bonança. No Porto assim foi: depois de uma sucessão de dias cinzentos, o regresso do sol traz consigo a promessa de um concerto inesquecível: Benjamin Clementine, na continuação da saga pelas principais salas do país, abalou o Coliseu do Porto na noite de 2 de junho. Ainda não se sabe ao certo quando vai recuperar.

O concerto começa, como não podia deixar de ser, da mesma maneira que a generalidade dos eventos começa em Portugal: atrasado. Não fosse esta uma casa portuguesa – e um público português, que mesmo a vinte minutos depois da hora estipulada, vai chegando na sua calmaria característica – só por volta das dez é que a baixa das luzes deu o presságio de que a espera estava para acabar. É uma noite de quinta-feira e no dia a seguir há, com certeza, escola e trabalho para muito boa gente, mas a casa está cheia e foi assim que o palco a encarou. O pano sobe, estamos completamente às escuras; no centro do coliseu, o homem mais talentoso da música atual está sentado a um majestoso piano de cauda. Não está sozinho: no mesmo palco, os seus músicos (e portuenses de gema, segundo reza a lenda!) recebem as palmas em conjunto.

Estamos perante alguém que percorre o piano com a mesma naturalidade com que respira e que, com a voz, mesmo sendo só um, enche mais a sala do que a audiência inteira. As primeiras notas, inconfundíveis, levam ao êxtase geral: Condolence veio para nos desarmar e provocar o instantâneo arrepio na espinha (talvez até lágrimas, nos mais sensíveis). Por vezes, ao ouvir o álbum em estúdio – At Least For Now – questionei-me se aao vivo Benjamin Clementine seria igualmente majestoso e imponente; este foi o momento em que me arrependi de ter sequer colocado a questão mentalmente. Entre versos, o cantor sorri para o público que o acompanha, embevecido. Entre canções, diz “Olá, Porto” e agradece, num português surpreendentemente bom. Foi, aliás, o primeiro artista estrangeiro a arriscar a expressão “Muitíssimo obrigado” na História.

London e Nemesis são as próximas no alinhamento e são, obviamente, sabidas de cor e salteado pelo público, que marca o seu ritmo com as palmas. Neste tipo de concerto, em que não há muito para se fazer para além de observar e sentir (e chorar, vá) aconselha-se a seguinte experiência: fechar os olhos e deixar que a música preencha a alma. O verdadeiro carpe diem em termos musicais, diria eu. “Obrigado por terem vindo. Desejo-vos a todos o melhor” agradece o músico, já na língua materna (a dele e não a nossa). O melhor que podia acontecer a este público era mesmo estar aqui neste momento.

Benjamin Clementine

Benjamin Clementine

 

Entre Adios e I Won’t Complain, fazem-se declarações de amor. “I love you!” alguém corajoso grita das galerias do coliseu. O músico sorri. Não é todos os dias que um estranho declara que nos ama, mas também não é todos os dias que assistimos ao melhor concerto dos últimos tempos, por uma voz que matávamos para ter. O concerto prossegue e, também das galerias, alguém insiste em não se calar (o típico show off de quem quer ser engraçado em concertos, gritando coisas indistintas mas certamente irrelevantes) e é atacado com “Shhhh!” provenientes de toda a sala. O próprio Clementine, igualmente farto, responde com um “One more talking and i’m gonna fuck off”, uma frase que ficaria arruinada se fosse traduzida para português.

Winston Churchill’s Boy é uma canção ponderosa que nos transporta para o percurso de Benjamin Clementine até aos dias de hoje. Tendo passado vários anos como sem-abrigo em Paris, por se recusar a fazer da vida outra coisa que não a sua verdadeira paixão – a música – a carreira que hoje leva é uma vitória incrível e um exemplo para todos nós, sejam quais forem as nossas ambições. Depois da emblemática Cornerstone, uma jam session com o seu baterista e um momento de coro com o Coliseu inteiro, Clementine partilha um pouco de si próprio connosco: “Não afastem os vossos filhos só porque eles amam a arte, a pintura ou a música. Porque se os afastarem, eles vão odiar-vos e isso é um facto. Têm que encontrar o que amam e simplesmente fazê-lo.” Esta mensagem de força e esperança aplica-se a todos, sem excepção.

Estamos inevitavelmente muito perto do fim. Apesar de ser óbvia a existência de um encore, nunca fica mal simular a despedida com agradecimentos e ovações em pé. O dito encore prolongou a separação sofrida com algumas canções, entre elas The People And I e Riverman. Todos os músicos regressam ao palco e são apresentados e cumprimentados por Benjamin Clementine. Também ele lhes bate palmas, humilde e de pés descalços, em profunda admiração pelo talento. Com a excepção do seu baterista, todos os músicos que o acompanham são da Invicta (um aparte: não consigo imaginar sorte maior na vida do que participar num concerto destes) e foram escolhidos para acompanhar o artista na odisseia de emoções que foi esta noite.

Clementine abandona o palco, certamente, com uma sensação de missão cumprida. E nós também.

Fotografia: Mariana Gomes