1 Gregório Duvier
Foto: Mariana Gomes

Gregório Duvivier: do Brasil para a Lua

“Um homem em cima do palco pensando”, é este o mote para Uma Noite na Lua. Aqui, o homem é Gregório Duvivier e o palco vai variando a cada noite. O comediante brasileiro tem conquistado Portugal de norte a sul e, por isso mesmo, o Espalha-Factos quis falar com Duvivier. Temas como a comédia, criatividade e política marcaram a conversa. Depois da entrevista, rumámos ao Tivolli, em Lisboa, para assistirmos à tão aclamada peça do ator brasileiro. 

Em criança era tão tímido que os pais, músicos de profissão, puseram-no no teatro para ver se espevitava e a comédia entrou-lhe de rompante na vida. “Foi só nessa relação com a plateia que percebi que podia ter graça. Nunca fui especialmente engraçado na vida real”, admite Gregório Duvivier.

Formou-se em Letras. É um poeta publicado e cronista na Folha de São Paulo. Mas foi o seu trabalho como argumentista e ator no canal humorístico de YouTube Porta dos Fundos, do qual é um dos fundadores, que o catapultou para o sucesso internacional. O registo cómico com que agora se apresenta em Portugal, na peça Uma Noite na Lua, é, segundo Duvivier, totalmente o oposto. “Aproxima-se mais de um humor poético e melancólico do que do humor mais ácido e corrosivo que fazemos no canal”, explica.

Em Uma Noite na Lua, acompanhamos o monólogo desesperado de um homem que foi deixado pela sua amada, Berenice. Numa impulsiva tentativa de impressioná-la, este homem vai a uma badalada festa onde encontra um reconhecido ator e lhe oferece um papel na sua fantástica peça sobre um homem em cima de um palco pensando. O problema: ele não escreveu peça nenhuma e agora tem uma noite para escrever uma peça de arrasar, mostrá-la ao ator e reconquistar Berenice.

Nunca fui especialmente engraçado na vida real – Gregório Duvivier

Fotos: Mariana Gomes
Fotos: Mariana Gomes

A peça é da autoria do dramaturgo e encenador brasileiro João Falcão e foi escrita na década de 90. “Esse texto é o melhor texto teatral que já li”, assegura Gregório Duvivier. “Posso dizer sem falsa modéstia porque não fui eu que escrevi. Nem saberia escrever. É brilhante”. Mas não ser o autor também pode trazer algumas vantagens: “A dor do ator é também o seu gozo: ele é um veículo”, esclarece.“Hoje em dia, sou tão atacado por tudo o que digo que é reconfortante poder dizer: «isso não sou eu quem está dizendo»”.

Uma odisseia por Portugal

Depois de ter recuperado o texto, em 2012, e de ter recebido o Prémio de Melhor Ator, atribuído pela Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro, pela sua interpretação na peça, Duvivier rumou para Portugal em digressão. Menos de um ano depois, retorna com mais uma série de datas marcadas por todo o país.

O ator diz que foi a saudade aquilo que o fez voltar tão depressa: “Mal saí de Portugal no ano passado e já queria voltar”. Agora, durante três semanas, Gregório Duvivier pisa os palcos de 12 cidades portuguesas. “Portugal é imenso”, afirma, “Apesar da pequena dimensão geográfica, quando comparado ao Brasil, as dimensões culturais são gigantes. Falta muito Portugal para conhecer”.

Ao longo de Uma Noite na Lua, o público vai acompanhando a luta deste personagem para acabar com o bloqueio mental e escrever a sua peça, um tema com o qual Gregório Duvivier se consegue identificar com bastante frequência, entre crónicas, poemas e guiões para cinema, televisão ou sketches do Porta dos Fundos. “Sinto diariamente o mesmo”, confessa o humorista, “a branquidade da página nunca deixa de ser intimidante”.

Berenice acaba por permear todos os pensamentos do protagonista e revelar-se o cerne de cada questão colocada, tudo aquilo que ele não é, mas acha que poderia ou deveria ser por ela. “O humor é uma ótima maneira de falar de amor”, garante Gregório Duvivier. O ator acredita que este personagem é alguém em quem todos podemos encontrar um pouco de nós mesmos. “Aquele homem está pensando também nas outras pessoas que ele deveria ser, caso não estivesse condenado a ser ele mesmo. Trata-se de um homem às voltas consigo próprio, e com as mil pessoas que ali habitam”.

Acredito que a política permeia tudo. Impossível não ser político” – Gregório Duvivier

A política de tudo

Assumidamente aberto e interventivo quanto à sua posição política e à luz dos recentes eventos políticos no Brasil, Gregório Duvivier fez questão de convidar não só todos os espetadores, mas também muitos apoiantes políticos e amigos portugueses do mundo do espetáculo para duas ações de protesto contra o ataque à democracia brasileira. Centenas de pessoas marcaram presença em solidariedade com o povo do Brasil. Lisboa e Porto foram as cidades anfitriãs.

Acredito que a política permeia tudo. Impossível não ser político”, Duvivier argumenta. “É fundamental ter a consciência da política dos seus gestos, e a coragem para ser fiel ao que acredita”.

Para já, Gregório Duvivier fica em Portugal até dia 5 de junho, quando encerra a digressão de Uma Noite na Lua no Cine Teatro Avenida, em Castelo Branco. E depois daí? Quando volta Portugal a vê-lo? O próprio responde: “O filme do Porta dos Fundos vai estrear este ano e queremos muito trazê-lo para Portugal. Está hilário!“.

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