O Apsarases deste mês é dedicado a uma das peças mais emblemáticas dos últimos tempos. Wayne McGregor já é considerado como um marco artístico deste século, uma inspiração, um modelo, um criador exímio.

Atomos foi criado em 2013. É uma peça centrada na partícula mais pequena e na movimentação da mesma. Despojada de sentimentos, Atomos não conta uma história. Não há lado poético, lirismo ou sentimentos. Wayne McGregor levou ao extremo o seu interesse pela matemática e pela ciência e criou uma peça onde  a exploração do movimento e próprio processo de criação da dança tomaram o lugar central.

Distanciando-se do humano, McGregor pegou no lado mais mecânico do corpo e trabalhou-o como se de uma máquina se tratasse. Nesta redução do corpo ao átomo, na transformação do Homem num aglomerado de pequenas partículas, corpo, movimentos, filme e som atomizam-se em miniaturas de intensidade e sensações.

Como inspiração, McGregor usou um filme sem título de ficção cientifica dos anos 80. Com um arco narrativo construído era necessário explorar a coreografia e o movimento. Numa criação partilha entre coreógrafo e os dez bailarinos da companhia duetos, trios, solos e grandes momentos conjuntos foram feitos.

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Foto: Divulgação

Cada bailarino trabalhou sobre diferentes frames do filme. Esse frame era explorado a nível de cor, som, textura, imagem, o que for. Esse conceito abstrato foi inserido num programa matemático que o transforma num corpo estranho que se move. A intensidade torna-se numa medida matemática que possibilidade a criação de uma forma com profundidade que dá as coordenadas de movimento ao artista: se cresce, diminuiu, avança ou recua.

aqui a entrevista do coreógrafo ao jornal Guardian sobre Atomos.
Fotografia retirada do site oficial da Companhia.

Foto: Divulgação

Como disse ao jornal britânico The Guardian, Wayne McGRegor interroga-se sobre o que é ser humano, naquilo que faz o corpo mexer e criar uma dança e o processo disso mesmo. McGregor interessa-se pela invenção e por novas maneiras de criar. O estudo teórico que tem, a exploração cientifica, matemática e até medicinal que tem é uma busca constante de novos processos.

É nesse sentido que muitos o comparam ao mestre Merce Cunningham. O uso da tecnologia na criação e o incentivo da mesma em palco – projecções em 3D são usadas durante o espetáculo – caracterizam estes dois artistas. Os bailarinos em palco além de uma técnica perfeita e  de uma expressão assombrosa, possuem uma força e elasticidade anormal. Além disso tem de haver uma verdadeira disposição do mesmo para que sujeitem a experiências, que se sacrifiquem e se esqueçam do que é ser pessoa para ser unicamente um objeto em constante mudança e a ser moldado por si e pelo outro.

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Foto: Divulgação

Atomos é uma das peças coreográficas que certamente ficará na história da dança. Não apenas pela genialidade do seu criador, mas também pela exploração inovadora do processo de criação. A retirada do lado humano dos bailarinos, a redução dos mesmos a átomos que se movem livremente tal como música, cenografia e figurinos, para que cresçam e se assumam numa grandiosidade mecânica salientam aquilo que por vezes a sociedade esquece. A importância da criação, do corpo, do movimento e da dança na sua forma mais máquina e insensível.