João Tamura viaja entre dois mundos: a música e a fotografia. Holly é “um puto das Caldas” que toma conta de beats complexos e recheados de alma. HOKKAIDO é o projeto que resulta desta combinação e o resultado é algo especial, que não te devia passar mesmo ao lado.

Pedir a alguém para falar sobre a sua própria música nunca é fácil. Como às vezes gostamos de mudar o estado das coisas e estamos a falar de João Tamura, fotógrafo que já é uma presença habitual nos concertos de hip hop tuga, lançou-se o desafio – que imagem escolherias para representar cada uma das faixas deste HOKKAIDO? Pelo meio, também fizemos umas quantas perguntas, para que ninguém fique às escuras nesta viagem.

HOKKAIDO tem, neste momento, mais ou menos um mês de vida, desde o seu lançamento oficial. Composto por sete temas, é um registo muito pessoal, em que a poesia de Tamura ganha vida com os instrumentais de Holly. INITIUM dá, como já se percebe pelo título, o pontapé de saída deste registo.

I _ INITIUM - joão tamura

I _ INITIUM – “Se eu subo para o palco eu não peço barulho” vai mesmo ficar na cabeça. Podes ouvi-la aqui.

Espalha-Factos (EF): Quem é este João Tamura?

João Tamura (JT): Sou João Tamura, músico e fotógrafo de 20 e poucos anos, nascido e criado na cidade de Lisboa. Em HOKKAIDO, sou criador das letras e intérprete das mesmas, sobre os instrumentais do Holly, que em conjunto comigo criou este EP.

EF: Quem é que surgiu primeiro, pelo menos no teu percurso: a música ou a fotografia?

JT: A música – que faço desde os 14 anos, aproximadamente. Apesar de, desde criança ser apaixonado por fotografia, só comecei a fazê-la bem mais tarde, talvez por volta dos 20 anos.

II _ SALTO - joão tamura

II _ SALTO – podes ouvi-la aqui.

EF: Li algures isto: “João Tamura não se parece com um rapper.” O que é suposto ser um rapper, pelo menos na tua visão? Achas que uma possível fuga desse estereótipo até te dá alguma vantagem ou é completamente irrelevante?

JT: Não sei até que ponto um rapper é suposto ser alguma coisa em específico. Creio que um rapper é alguém que faz rap, independentemente da imagem ou visual que essa pessoa tenha – e também acredito que a imagem de alguém pouco influencia a música que cria. Até acho que, desde criança, os meus rappers favoritos pouco se “parecem com rappers”. De qualquer forma, creio que a fuga a esse “rótulo” – e se é que ele existe – pouco ou nada me ajuda pois, para mim, tudo recai na música, e não na imagem do artista que a cria.

III _ ILUSÃO - joão tamura

III _ ILUSÃO – Podes ouvi-la aqui.

EF: Tens um género muito particular, uma sonoridade específica. Conseguirias defini-la, em poucas palavras?

JT: É-me sempre muito difícil falar acerca da minha música, sobretudo tentar defini-la. Mas acho que, de qualquer das formas, aquilo que faço não deixa de ser rap – apesar de muita gente afirmar que se afasta do rap mais “tradicional”, se é que isso (ainda) existe, repito. Cada vez mais surgem gigantes pluralidades de géneros, estilos e formas de fazer música, e as barreiras que outrora se julgavam tão facilmente definíveis já pouco fazem sentido. Seja como for, faço música – não tento defini-la.

EF: De onde partiu a ideia para este EP, HOKKAIDO?

JT: Surgiu de uma forma bastante natural, até. O Holly é dos meus melhores amigos, e já trabalho com ele há algum tempo. Um dia pensámos que fazia sentido juntar aquilo que separadamente íamos fazendo e criar um EP em conjunto, onde partilhássemos o nosso som, ideias e visões.

IV _ FUGA - joão tamura

IV _ FUGA – podes ouvi-la aqui.

EF: Não foi a primeira vez que trabalhaste com o Holly ou com o Harold, por exemplo. Notaste evolução desde colaborações anteriores, foi um processo natural trabalhar com eles?

JT: Trabalhar com o Holly e com Harold é muito natural para mim. Somos amigos e, entre nós, as ideias fluem facilmente para a criação musical. Temos influências, estilos e sonoridades bastante diferentes, também, o que nos ajuda a criar uma fusão interessante. De momento estamos a trabalhar num projeto a três: OS LOBOS COMERAM A LUA.

V _ SPATIUM - joão tamura

V _ SPATIUM – Podes ouvi-la aqui.

EF: Pedir a um músico que escolha uma música preferida de um registo é quase como pedir a um pai que diga quem é o filho preferido. Mesmo assim, há preferidas?

JT: De HOKKAIDO, a minha canção predilecta é, sem dúvida, a CAPUCHOS XXI. é das canções mais pessoais que alguma vez fiz e é das letras que escrevi que mais fala comigo e que mais significado tem.

VI _ CAPUCHOS XXI - joão tamura

VI _ CAPUCHOS XXI  conta com a participação de Racoon e Sara Hayes. Podes ouvi-la aqui.

EF: A Salto já tem vídeo. Estás satisfeito com o resultado? Fizeste parte do conceito ou passaste a batata quente à Laura Martins?

JT: Estou, sem dúvida! A Laura é minha amiga e eu e o Holly demos-lhe a liberdade total na criação do vídeo para a Salto – apenas lhe disse que queríamos um vídeo para essa canção. O resultado final surpreendeu-me! Acho que ficou bastante bonito e original.

EF: Achas que o facto de seres fotógrafo te ajuda a transmitir ainda mais a ideia/conceito de um álbum? Se sim, isso aconteceu neste álbum?

JT: Sinceramente, não sei. Sei que me ajuda a escrever, isso sim. Grande parte das minhas letras são “imagens”, e imagino sempre visualmente aquilo que escrevo. Sinto que a minha escrita, e isto acontece quase inconscientemente, vive muito da imaginação de imagens – ao escrever, imagino sempre cenários, fotografias, retratos, e creio que isso acontece, em grande parte, por estar muito ligado à fotografia, o que molda bastante a minha escrita.

EF: Como é que tem sido a reacção ao EP?

JT: Bastante boa, creio. Apesar de o “buzz” online não ter sido gigante, recebi opiniões e criticas muito positivas e as cópias físicas que fizemos para venda já foram quase todas vendidas – e em pouco mais de duas semanas, algo que não esperávamos!

VII _ QUEDA - joão tamura

VII _ QUEDA conta com a participação de Harold e Sara Hayes. Podes ouvi-la aqui.

EF: Para quem quiser conhecer este EP ao vivo, há novidades sobre datas? Ou mais projectos que tenhas em vista?

JT: Temos o concerto de apresentação do EP agendado para junho, no Teatro do Bairro, no Bairro Alto – mas ainda sem data exata definida. E trabalho, constantemente, em nova música e fotografia, que irão sempre saindo online, nas minhas páginas pessoais, no Facebook e no Tumblr.

O EP HOKKAIDO está disponível para download no bandcamp. As (poucas) cópias físicas podem ser encomendas através do Facebook de Holly. As fotografias presentes neste texto são da autoria de joão tamura.