Segundo dia de festival Rock in Rio Lisboa e um calor daqueles que até dá vontade de dizer asneiras – assim foi o dia 20 de maio. 

Conforme aconteceu ontem e acontecerá nos próximos dias, a jornada de música começa pelas 17 horas no palco Vodafone. Neste dia, a abertura ficou a cabo dos Pista, banda rock qualquer coisa difícil de definir, banda rock que nos põe a dançar, a gritar PUXA e a perceber quem são os gajos mais fixes da música portuguesa. Não nos importarmos assim tanto com o suor que nos escorre pela testa e nos invade o corpo. Como sempre, os Pista, que hoje se fizeram acompanhar por Nick Nicotine no baixo em todo o concerto e por Alex D’Alva Teixeira a cantar em algumas canções, deram um concerto simpático, festivo e cheio do seu rock sem vergonha de saber a verão e a felicidade.

Rock in Rio Lisboa 2016 - PISTA

Foram o exemplo (tal como os The Sunflowers o foram no dia anterior) de que não é preciso muita gente para se fazer a festa. Destacam-se a já referida PUXA, Sal Mão, Campipraia e Queraute. Esta última, numa versão ainda mais frenética e acelerada que o habitual, fechou o concerto na mó de cima.

A seguir aos Pista e as às imperiais cada vez mais úteis para dar alento contra a tarde quente, chegam os vila-condenses Sensible Soccers. E se à primeira vista a sua música quase sempre instrumental, de camadas e contra camadas, não parecia ajustar-se ao espaço, a verdade é que se criou uma mistura bonita entre o calor, o início do fim da tarde e um pôr do sol que é um dos grandes cabeças de cartaz do Rock in Rio. No meio da dormência em que a música dos Sensible Soccers naturalmente nos insere, momentos como Shampoo ou Sob Evariste Dibo deram vida e dança ao público. Só faltou mesmo um pouquinho de Sofrendo Por Você para que a pontuação fosse máxima.

Rock in Rio Lisboa 2016 - Sensible Soccers

Entretanto já tinha começado mais um musical do Rock in Rio, mas a julgar pelo que aconteceu no, pareceu-nos melhor esperar sentado pelos Boogarins do que ir passear, sujeitos a ouvir aquilo. E os Boogarins não demoraram. A banda brasileira, que se estreou em Portugal no Musicbox em novembro do ano passado, voltou a Portugal para tocar e encerrar o palco Vodafone.

A banda trouxe consigo a palco as músicas de dois álbuns (As Plantas Que Curam e Manual) e contou logo à primeira canção – o single Avalanche – com a presença de um público bem composto e colaborante. Num concerto que pecou pela qualidade do som, como de resto tem sido habitual ao longo do festival, os brasileiros fizeram o seu trabalho e souberam encantar quem os ouvia, sobretudo com canções como a já referida Avalanche, 6000 dias ou Lucifernandis.

Rock in Rio Lisboa 2016 -Boogarins

Ao mesmo tempo, no palco Mundo, qual fénix renascida das cinzas, aparece Fergie. E com ela a segunda vez que o Rock in Rio faz a recuperação de coisas que se foram perdendo no tempo: aqueles espetáculos das pop stars que tinham direito a paragens para mudança de roupa e videoclipes a passar no fundo enquanto se “cantam” as músicas. Fergie teve tudo isto e até direito a duas partes do corpo a desesperarem por ar para respirar…

Infelizmente, só não teve playback.  Ao longo de uma hora, a integrante dos Black Eyed Peas, entre mudanças de outfit que nunca foram capazes de responder aos anseios das suas protuberâncias, foi despachando consecutivamente uma série de canções que, com os anos, foram sendo guardadas em partes recônditas e pouco usadas (ainda bem) da nossa memória. É o caso de London Bridge, Fergalicious, Glamorous ou Big Girls Don’t Cry. À falta de reportório próprio, a artista respondeu com a triste decisão de cantar Start Me Up (Rolling Stones), Black Dog (Led Zeppelin) e ainda Love is Pain (uma espécie de tributo ao recentemente falecido Prince). Antes de terminar, ainda teve tempo para abrir uma mini sessão de Black Eyed Peas para, em medley, passear por canções como My Humps, Rock That Body ou Don’t Stop the Party. Depois disto, tomou uma das melhores decisões da noite e deu por terminado o concerto.

Rock in Rio Lisboa 2016 - Fergie

Para dar continuidade ao reviver de 2006, quem se seguiu foi Mika. E não sei se tudo isto aconteceu porque Fergie colocou todas as nossas expectativas no mínimo dos mínimos, mas a verdade é que o concerto deste inglês nascido no Líbano foi das melhores coisas que se viram até agora no Rock in Rio. Mika, que se apresentou em fato de gala e com uma simpatia e disponibilidade absolutamente irrepreensíveis, foi o grande entertainer da noite. O homem saltou, dançou, correu e cantou. E todas as falhas, incluindo as vocais, passaram para segundo plano porque o artista soube tocar em quem o via: quando falou num português exemplar, quando fez um arranjo de fado para a canção Over My Shoulder ou quando trouxe Mariza para palco para fazer não sei muito bem o quê. Ao longo do concerto foi engraçado concluir que, na verdade, Mika tem muito mais hits do que pudéssemos pensar. Assim, foi deleitoso ouvir canções como Big Girl, Grace Kelly, Relax ou Love Today.

Rock in Rio Lisboa 2016 - Mika

Escolher Mika para fazer a abertura do concerto mais aguardado da noite, o dos Queen + Adam Lambert fez sentido. E agora só faltava mesmo a chegada do prato principal, que veio com meia hora de atraso. É importante perceber desde já que aquilo a que se iria a assistir não era um concerto de Queen, era um concerto de Queen (representados por Brian May e Roger Taylor) cantado por Adam Lambert. De resto, o cantor fez questão de marcar a diferença, quando disse que Freddie Mercury só há um.

Nesse sentido, foi com naturalidade que o guitarrista Brian May assumiu um papel muito mais central do que assumiria nos tempos em que o vocalista era aquele senhor do bigode, com as camisolas de alças e com a voz que tinha. O lendário guitarrista passeou pelo palco, cantou, comunicou com o público e até uma câmara de filmar tinha montada na cabeça da sua guitarra.

Rock in Rio Lisboa 2016 - Brian May

O concerto foi, sem tirar nem pôr, um desfile de grandes êxitos dos Queen, um best of ao vivo, um presente para aqueles do seu tempo e um tesouro para aqueles que são da minha idade. Começou acelerado e os primeiros grandes momentos da noite foram Stone Cold Cray e Killer Queen. Depois disso, entre imagens de Freddie a cantar nos ecrãs gigantes, solos mirabolantes de May e várias mudas de roupa de Lambert (esta devia ser uma regra para este dia, porque já Mika também o fez), o público teve direito a ouvir e cantar canções como Under Pressure, I Want to Break Free, Crazy Little Thing Called Love ou a impressionante e adequada The Show Must Go On (ver setlist em baixo). Para o encore ficaram reservadas Radio Ga Ga, We Will Rock You e We Are The Champions.

Rock in Rio Lisboa 2016 - Queen + Adam Lambert

Adam Lambert é um exímio cantor a quem foi dada a ingrata tarefa de cantar canções que em tempos foram cantadas por Freddie Mercury. Engana-se quem pense que foi parecido. Porque não teve nada a ver, não foi sequer próximo. E também não tinha que ser. À semelhança daquilo que aconteceu com os AC/DC (embora as circunstâncias sejam radicalmente diferentes) o concerto de ontem não foi a calamidade que muitos previam. E mesmo que a única forma de estarmos realmente próximos dos Queen tenha sido através de um ecrã gigante, nenhum dos que ali estavam se poderá queixar daquilo a que assistiu: um desfile de canções lendárias.

Alinhamento Queen:

Flash (Intro)
The Hero
Hammer To Fall
Seven Seas Of Rhye
Stone Cold Crazy
Fat Bottomed Girls
Play The Game
Killer Queen
I Want To Break Free
Somebody To Love
Love Of My Life
These Are The Days Of Our Lives
(drum battle)
Under Pressure
Crazy Little Thing Called Love
Don’t Stop Me Now
Another One Bites The Dust
I Want It All
Who Wants To Live Forever
Tie Your Mother Down
The Show Must Go On
Bohemian Rhapsody

Encore:

Radio Ga Ga
We Will Rock You
We Are The Champions