A romancista espanhola Rosa Montero e o artista polivalente Sérgio Godinho estiveram à conversa com o jornalista João Paulo Sacadura, na 14.ª etapa da Viagem Literária, que se realizou sexta-feira, dia 19 de maio, no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria. O Espalha-Factos assistiu a esta conversa, que juntou grandes nomes da cultura atual.

Algumas dezenas de pessoas já esperam no foyer do Teatro José Lúcio da Silva. A conversa entre Rosa Montero, Sérgio Godinho e João Paulo Sacadura está marcada para as 21h30, mas não começa a horas. Pressupõe-se que estejam a aguardar que chegue mais pessoas, afinal a entrada é gratuita. Precisamente dez minutos depois da hora, eis que o jornalista J.P. Sacadura sobe ao palco e apresenta os convidados desta 14.ª viagem por Portugal através dos livros e da literatura.

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Foto: Porto Editora

Primeiro as senhoras, por isso, é Rosa Montero a primeira a subir ao palco, depois de ser apresentada de forma tão carinhosa por J.P. Sacadura. Ficamos a saber que é jornalista, colabora em exclusivo com o jornal El País, tendo já entrevistado grandes personalidades da atualidade. Em 1980 ganhou o Prémio Nacional de Jornalismo, e é hoje considerada uma figura central da literatura espanhola contemporânea.

Seguidamente apresentam-nos Sérgio Godinho, que claramente dispensa apresentações. Divide-se entre a criação e a performance, é o verdadeiro “homem dos sete instrumentos” e conta já com uma carreira artística invejável, que se prolonga há mais de 40 anos.

O início da criação literária

A conversa começa pelo início, literalmente. Fala-se sobre a infância de cada um e Rosa surpreende-nos com a sua. Para a escritora espanhola a sua infância é um autêntico assunto tabu, e apenas nos desvenda que foi com cinco anos que começou a escrever, devido a uma doença que a impossibilitou de sair de casa durante quatro anos. “Os grandes romancistas têm trágicas infâncias”, diz-nos Rosa.

O Peso do Coração é o mais recente romance de Rosa Montero, tendo sido publicado na passada segunda-feira, dia 16. Usa a ficção científica como género, e nesta obra encontram-se os temas fundamentais nas suas criações – a identidade, a memória, o dogmatismo e a morte. Rosa fala-nos sobre a memória, referindo que esta “é uma construção artificial”.

J.P. Sacadura passa a palavra a Sérgio Godinho que, acompanhado pelo seu copo de vinho, nos fala também da sua infância. Relembra as histórias com os seus avós, e passa imediatamente para a sua juventude e revela-nos algumas das suas aventuras. “Andei à boleia, trabalhei na cozinha de um barco holandês, onde tanto aprendi”, refere Sérgio.

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Foto: Porto Editora

Desde cedo que Sérgio Godinho percebeu que tinha de seguir o caminho da criação e da performance que, para o artista, são ações que se complementam. Relembra ainda o período em que esteve exilado no Brasil, na altura da ditadura, onde “sem mas nem porquês” levou choques elétricos. “Não havia razões, davam choques elétricos porque sim, porque era rotina”, conta-nos.

A loucura de quem escreve

João Paulo Sacadura questiona agora Rosa sobre a sua decisão de tirar o curso de Psicologia, ao que a escritora responde com toda a seriedade: “Pensei que estava louca, por isso decidi estudar psicologia”. A convidada espanhola admite que um escritor é um louco, e um romance é um delírio, fruto da loucura. Rosa Montero vê Portugal como o seu refúgio. Quando se sente triste ou deprimida ruma a Cascais, onde comprou uma casa de janelas grandes e uma vista para o mar. “Portugal me encanta”, confidencia-nos.

A palavra volta agora a Sérgio Godinho, que nos fala sobre a sua experiência durante o movimento de maio de 68, em França. Foi a maior greve geral da história, que rapidamente adquiriu significado e proporções revolucionárias, e o artista viveu tudo isto. “Foi algo que me deixou marcas, nunca vou esquecer”.

Mas vamos agora passar aos livros e à criação literária, afinal foi isso que aqui nos trouxe. Para Rosa Montero, a sua inspiração provém dos seus sonhos. “Quando acordo depois de um sonho, e fico com aquela imagem na cabeça, tenho de partilhar com os outros”, revela-nos a escritora espanhola. Já para Sérgio Godinho, a inspiração surge naturalmente, por vezes com coisas do quotidiano, do que vê na rua. Escrever, para ambos os convidados, tem de ser uma criação livre, inconsciente, não pensada. “A escrita é uma criação misteriosa”, acrescenta Sérgio Godinho.

O ‘Coração Mais Que Perfeito’

Sérgio Godinho é já conhecido pelos seus contos infantis, e sobre isso adianta que “os contos não são valorizados em Portugal”. Godinho admite ainda que é um género literário maravilhoso, mas que não pode constar no título na capa, senão não vende. O convidado de J.P. Sacadura aproveita ainda a conversa em Leiria para fazer uma revelação em primeira mão: o título do seu novo romance – Coração Mais Que Perfeito.

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Foto: Porto Editora

O jornalismo é a atividade que apaixona Rosa Montero, nota-se isso nas suas palavras. Revela-nos que fez mais de duas mil entrevistas, muitas delas a grandes personalidades, mas garante que as melhores que fez durante a sua carreira foram a pessoas anónimas. Questionada sobre quem gostaria de entrevistar, Rosa Montero aponta Gorbachev. A escritora/jornalista espanhola confessa ainda que a entrevista que fez a Yasser Arafat foi uma desilusão, talvez a maior de todas. Depois de tanto batalhar para conseguir uma entrevista com o líder palestiniano e, ao fim de um ano, conseguir, Rosa garante: “Tive a sensação de estar a entrevistar um monstro. Não te dá a mão para cumprimentar porque pensa que o podes envenenar”.

Terminada a conversa, é agora tempo para o público colocar questões aos convidados. Questionam a Sérgio Godinho sobre se é a escrita ou a música que mais lhe dá gozo, ao que responde: “São dois lados da mesma moeda”. A rotina de escrita também é uma das curiosidades do público, e sobre isso ambos os convidados estão de acordo – escrevem todos os dias, mas sem pressões, sem limites.

Na estrada desde abril de 2015, a Viagem Literária, iniciativa da Porto Editora, segue agora para Coimbra, com uma sessão que contará com a presença de Luís Sepúlveda e Richard Zimler, no dia 10 de junho, no Teatro Académico Gil Vicente.