Rock in Rio Lisboa 2016-47

Rock in Rio 2016: Bruce Springsteen, o salvador do Rock

Chamar festival de música ao Rock in Rio é redutor. É um certame, uma festa de família, um evento de ativação de marcas, uma tarde e noite de entretenimento  garantido. No meio de tudo isto há pool parties e bandas a tocar. Algumas delas bem jeitosas.

A fila para os sofás insufláveis e para os paninhos já é grande quando o Rock in Rio 2016 é inaugurado, pelo menos para os concertos, com o Palco Vodafone. Os primeiros são os portugueses Sunflowers. Duo rock castiço de guitarra/bateria e rapaz/rapariga. Num concerto que não devia ter mais que 40 ou 50 pessoas a assistirem de facto, o menino e a menina foram destilando aquelas malhas que de extraordinário não têm muito mas que são sempre boas de ouvir e capazes de satisfazer um apetite musical que, convenhamos, vai passar fome nos próximos dias. Canções como Charlie Don’t Surf, Witch, Zombie ou Hasta La Pizza arrancaram aplausos efusivos de quem estava ali para ver a banda e puseram a abanar a cabeça o pessoal que estava só ali à espera de Xutos & Pontapés. Destaca-se ainda o facto de terem acabado a sua set com uma algo confusa mas bonita versão de I Wanna Be Your Dog dos The Stooges, que por acaso até cá passarão no verão, mas num festival de música.
Sunflowers
Sunflowers
Passear no Rock in Rio é ser bombardeado com merchandise. Se uma pessoa quiser ir à casa de banho, assim que se vê perante a sanita, vê também que no caminho ganhou duas perucas, seis colares, um paninho, um pacote de batatas e insufláveis diversos. Sobrevivemos a tudo isto e demos de caras com os Keep Razors Sharp. A banda liderada por Afonso e Rai e que tem feito do melhor rock que se tem ouvido nestes últimos tempos por terras lusitanas apresentou-se simpática, comunicativa e agradecida pelo facto de poder estar a tocar aqui, no palco fixe do Rock in Rio. Em músicas cantadas, ora por Afonso, ora por Rai, e com uma plateia mais cheia, a banda de Coimbra fez jus ao seu nome e mostrou um rock afiado, bem tocado e discreto, mas nem por isso pouco pujante. O grupo de senhores tatuados e indumentárias estilosas percebeu o que enfrentava. Pediu ao público para se chegar à frente porque “nós não metemos medo” e soube aproveitar da melhor forma as suas canções mais rodadas como Lioness e I See Your Face. O concerto acabou e eu não conseguia deixar de pensar que, afinal de contas, o RiR até estava a ser porreiro.
Keep Razors Sharp
Keep Razors Sharp
Até que decidi ir ao Palco Mundo e assistir ao musical Rock in Rio. Explicando muito rapidamente: lembram-se daqueles musicais foleiros que, felizmente, se foram perdendo na passagem do século XX para o XXI. Pois bem, aqui estão de volta. Durante os 5 dias de certame, antes que comecem a tocar as bandas agendadas para o palco principal, o público terá direito a ser entretido por um pequeno musical que conta a história dos últimos anos de Rock in Rio. Ou seja, a desculpa perfeita para se misturar português do Brasil, português de Portugal e o medley bastante duvidoso de canções icónicas de artistas que vão de Britney Spears aos Oasis ou de Michael Jackson a Beatles.
Blacklips
Blacklips

Depois disto, ir novamente para o Palco Vodafone ter com os Black Lips, mais do que uma vontade, tornou-se num imperativo. A banda de Atlanta, que por cá passou na edição de há dois anos do Vodafone Paredes de Coura, apresentou-se para encerrar o dia do palco secundário. O estilo foi o habitual, o de quem não quer saber e se está literalmente a borrifar. Mas nem por isso deixaram de ser bons e mesmo aqueles que pudessem não gostar assim tanto do quarteto conseguiam deixar de louvar a banda pela sua atitude aguerrida. Num concerto que até se provou bastante competente só faltou um pouco de entrega da parte do público (sim, um moche) que não se mostrou muito familiarizado com o reportório da banda mas que, ainda assim, disse presente na hora de ajudar em canções mais conhecidas como Family Tree, O Katrina!, Boys in the Wood ou a final Bad Kids. Nota ainda para os rolos de papel higiénico que foram sendo lançados para deleite da banda e do público e para Cole Alexander, que cuspiu no chão o suficiente para curar a sede em África.

Entretanto, enquanto muitas pessoas aproveitavam para ir à zona da restauração responder aos anseios da sua barriga, já os Stereophonics se apoderavam do Palco Mundo para fazer a revisão saudosista e muito bem sucedida àquele rock tão típico dos anos 90 e aos seus maiores êxitos como Dakota ou Maybe Tomorrow.
Xutos & Pontapés
Xutos & Pontapés
Aos galeses seguiram-se os Xutos & Pontapés. Perante uma plateia quase cheia e na qual se misturavam as cruzes de braços e a paciência na espera por Bruce Springsteen, os históricos portugueses deram um concerto bastante semelhante ao que deram em (inserir nome da terra de quem está a ler isto) no ano de (inserir ano). E a verdade é esta. Não se minta. Toda a gente sabe cantar o Circo de Feras ou o Homem do Leme. Toda a gente vai cantá-las quando as ouvir. Mas é incrível como os Xutos andam neste registo há tanto tempo e, melhor, ainda conseguem tirar prazer e real satisfação da milionésima vez que tocam as suas canções de sempre. Isso é de louvar.
Até que chegou o momento mais aguardado da primeira jornada do Rock in Rio 2016. Segundo números dados pela organização, até à meia-noite entraram cerca de 67 mil pessoas na Cidade do Rock, o que diz muito sobre as multidões que Bruce Springsteen é capaz de movimentar.
Bruce Springsteen
Bruce Springsteen
A setlist apresentada pelo americano e pela sua E Street Band – na qual o baterista Max Weinberg foi o membro mais virtuoso – foi significativamente diferente daquela que até agora têm tocado nesta The River Tour e o cantautor aproveitou para passear ao longo de quase 3 horas e 27 temas de concerto entre canções mais antigas e menos tocadas, covers de Patti Smith (Because the Night) ou The Beatles (Twist and Shout) e ainda os seus maiores clássicos que, numa espécie de injecção de adrenalina foram tocados todos de seguida: Born in the U.S.A., Born to Run, Glory Days e Dancing in the Dark. O concerto terminou com o homem, a guitarra acústica e a harmónica sozinhos em palco para cantar This Hard Land, dedicada à vida muitas vezes madrasta da América natal do Boss.
Mais que um concerto, aquilo que Springsteen deu foi uma lição. De rock, de generosidade, de reconhecimento da importância do seu público, de humildade e simpatia e de uma força e disponibilidade que só pode ser de louvar quando já se está bem a caminho dos 70. Velhos são realmente os trapos e ele, de trapo, não tem nada.
E assim ficámos. Aquilo que me foi oferecido no fim foi uma chapada de luva branca. Como sempre, há inumeráveis coisas de que nunca haveremos de gostar e se calhar até odiaremos no Rock in Rio. Mas quando olhamos para o vale da plateia vemos setenta mil almas devotas a cantar os seus dias glória ficamos inevitavelmente impressionados. E isso quer dizer alguma coisa.
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