Embora muitos se queixem da falta de ação (não devem estar a acompanhar a contagem de mortes que tivemos para já em três episódios), a verdade é que a sexta temporada de Game of Thrones parece estar a caminhar lentamente mas de forma interessante por uma rota ainda sem destino certo. Oathbreaker, o terceiro episódio inédito deste ano, continuou esse caminhar que, embora divida opiniões, tem trazido à série um dos seus melhores momentos narrativos.

Cheiro a guerra civil

Há já umas temporadas que o Norte não se mostra como uma grande força unida na batalha contra a casa Lannister. Atualmente o que vemos é uma guerra dentro da própria região, movida em grande parte com a “tomada de posse” de Ramsay Bolton (Iwan Rheon). Pelo que assistimos neste episódio, em que descansámos um pouco de mortes causadas pelo novo psicopata de serviço, a casa Umber, que tinha jurado lealdade aos Stark, aliou-se aos Bolton (um dos momentos que fez jus ao nome do episódio). O objetivo é a criação de um exército capaz de vencer Jon Snow (Kit Harington) e os selvagens que este deixou passar pela Muralha. Como sinal de que o compromisso é para honrar, Ramsay recebeu de presente Rickon Stark (Art Parkinson) e Osha (Natalia Tena), dupla que Bran (Isaac Hempstead-Wright) tinha mandado procurar proteção com os Umber, três temporadas atrás.

Uma cena pequena mas que simboliza um grande avanço naquele que promete ser o confronto com maior destaque deste ano na série: o choque entre os bastardos do Norte.

Espionagem como só Varys consegue

Por Meeren tudo continua tranquilo, como se se tratasse da calmaria antes da tempestade. Com a sua rainha ainda desaparecia, Tyrion (Peter Dinklage) continua a tentar resolver os problemas da cidade e conta com a ajuda de Varys (Conleth Hill). A prioridade era saber quem financiava os Filhos da Harpia, que têm atacado os Imaculados, antigos escravos e todos aqueles que apoiam o final da escravatura. Varys não desiludiu e descobriu que o grupo recebe dinheiro dos mestres de Astapor e Yunkai, cidades outrora dominadas por Daenerys (Emilia Clarke) mas que voltaram aos seus velhos hábitos.

Por muito que esta semana não tenham aparecido dragões (orçamento apertado), foi interessante ver a conversa que Tyrion teve com Missandei (Nathalie Emmanuel) e Grey Worm (Jacob Anderson) e comparar a forma como o Lannister vê a diplomacia como primeiro recurso na resolução de um problema, enquanto os outros dois já só vêem violência como forma de reagir. Um verdadeiro choque de mundos, é como se pode chamar à estadia de Tyrion em Meeren.Game of Thrones

Horário de treinos apertado para os jovens Stark

Nesta semana surgiram desenvolvimentos para Arya, com mais um brilhante desempenho da atriz Maisie Williams. Desta vez, a jovem conseguiu finalmente mostrar bons avanços no treino que tem feito desde que chegou à Casa do Preto e Branco. Ficou assim provado que a cegueira realmente era temporária e é fácil concluir que esta serviu de motivação para que Arya deixasse a pessoa que era enterrada no passado e passasse realmente a ser “ninguém”, desta vez com a total aprovação de Jaqen H’ghar (Tom Wlaschiha).

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Bran Stark continua a dar-nos alguns dos melhores momentos dos episódios, graças ao treino que tem tido com o Corvo de Três Olhos (Max von Sydow). Voltando a viajar até ao passado, desta vez a dupla regressa ao momento em que um jovem Eddard Stark (Robert Aramayo) se prepara para entrar na famosa Torre da Alegria (curiosos podem pesquisar a teaoria “R+L=J”). Momentos como este têm sido muito bem recebidos porque se servem da rica história de que o universo de Game of Thrones dispõe, ao mesmo tempo que voltam a inserir Bran e companhia na narrativa da história, depois de um temporada inteira de ausência.

O final da cena foi, no entanto, um pouco frustrante, já que termina exatamente no momento que todos os fãs esperavam: a revelação de quem estará dentro da torre. O lado positivo é que, para essa resposta, provavelmente não teremos de esperar um ano, do género “Jon Snow está realmente morto?”.

Começo de vida de viúva?

Daenerys pouco apareceu neste episódio mas, do que vimos, o futuro não lhe reserva nada de muito positivo. Agora que chegou a Vaes Dothrak, a rainha de Meeren volta a estar longe do seu reino, do seu objetivo de acabar com a escravatura e, por incrível que pareça, ainda mais longe de chegar a Westeros e lutar pelo seu lugar no Trono de Ferro.

É certo que toda esta história envolvendo o compromisso que a Mãe dos Dragões estabeleceu com os costumes dos Dothraki, oficializado quando se casou com Khal Drogo (Jason Momoa), serve para tirar um pouco Daenerys do aborrecimento de Meeren, para refrescar a personagem e, como é lógico, não deixar simplesmente no esquecimento uma parte tão importante do passado da jovem.

Daqui para a frente vamos descobrir se a princesa Targaryan será aceite junto das viúvas de khals ou se, por se ter aventurado pelo mundo após a morte do marido, merecerá também morrer. O que é certo é que Daario (Michiel Huisman) e Jorah (Iain Glen) já não deverão demorar muito a aparecer e, entretanto, podemos ver Emilia Clarke a regressar aos momentos bons e desafiantes de representação na série.

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Rainha só para alguns

Em Porto Real, Jaime (Nikolaj Coster-Waldau) e Cersei (Lena Headey) , sempre acompanhada pelo simpático Gregor Clegane (Hafþór Júlíus Björnsson), tentam participar numa das reuniões dos conselheiros reais mas, embora entrem de peito feito, são deixados sozinhos na sala. Começando com as palavras ditas por Olenna Tyrell (Diana Rigg) a Cersei e terminando no grande gesto silencioso que foi a saída do conselho da sala, toda a cena acabou por representar um estalo na cara dos irmãos Lannister, principalmente para a antiga rainha, que planeia ainda a sua vingança contra o High Sparrow (Jonathan Pryce).

Falando nele, o jovem rei Tommen (Dean-Charles Chapman) vai visitar o líder do culto religioso dedicado aos Sete Deuses para lhe ordenar que deixe a mãe visitar o túmulo de Myrcella. Em vez disso, o rei levou com um sermão sobre a importância do amor maternal na religião e de como a punição de Cersei pelos seus pecados ainda não está concluída. Um pequeno passo no desenvolvimento da personagem de Chapman e uma tentativa quiçá eficaz de tentar humanizar o lado religioso tão severo por parte do culto.

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E da vida se fez morte

Sim, Jon Snow voltou! Davos (Liam Cunningham) e Melisandre (Carice van Houten) nem conseguiam acreditar no que estavam a ver (calculo que a fé da feiticeira tenha sido restaurada após este acontecimento) quando a personagem de Kit Harington se levantou e regressou ao mundo dos vivos. O mesmo espanto, misturado com alegria, ficou bem explícito na cara de todos os presentes na Muralha.

Pode ainda ser cedo mas, para já, não parece que Snow tenha regressado muito diferente do que era antes de ser esfaqueado até à morte. É certo que já nos foi dito que na série quem volta dos mortos perde um pouco da sua alma e acredito que essa teoria ainda vai ser desenvolvida nos próximos episódios. Em Oathbreaker, porém, vemos um Jon Snow bastante ligado às suas memórias e ao ensinamento que Ned Stark lhe transmitiu: “The man who passes the sentence should swing the sword” (basicamente, aquele que dá a sentença deve ser o que a executa).

Foi isso que aconteceu quando Snow ordenou que Ser Alliser (Owen Teale), Olly (Brenock O’Connor), Othell Yarwyck (Brian Fortune), e Bowen Marsh (Michael Condron) fossem enforcados por traição. O líder da Muralha é então o responsável por cortar a corda que mantinha os prisioneiros vivos, tendo de seguida renunciado ao seu atual cargo, afirmando que o seu serviço para com a Patrulha da Noite chegou ao fim.

Game of ThronesNa verdade, o bastardo da casa Stark não está errado, uma vez que os votos que fez prendiam-no à Patrulha até à sua morte. Foi muito bom ver que a evolução de Jon Snow ainda não acabou e que este continua no caminho certo para se manter como uma das personagens essenciais para o avanço de toda a história. Foi também agradável assistir ao paralelismo aqui criado, referente a cenas do primeiro episódio da série, que mostrou a forte influência que Eddard Stark ainda agora tem no jovem.

Podemos ainda encontrar uma espécie de final poético para outro conselho que Snow recebeu, desta vez do Mestre Aemon (Peter Vaughan) em Kill the Boy, o quinto episódio da temporada passada. O já falecido sábio avisou Jon de que este deveria “matar o rapaz” para atingir sucesso, algo que na altura se associou a matar o rapaz que mora dentro de si e tornar-se um homem. Em Oathbreaker podemos encontrar outra interpretação dessa profecia, com a morte de Olly. Mais uma prova de que Game of Thrones contém vários pormenores escondidos, à espera de serem encontrados pelos fãs mais atentos.

No final, podemos chamar a este mais um episódio já típico desta temporada: ação em doses reduzidas, aplicadas onde mais convém e diálogos que têm sido um bom estímulo para o desenvolvimento dos vários pontos do enredo. Não duvido que grandes batalhas estão para chegar ainda este ano, portanto o melhor é mesmo aproveitar este tempo mais pacífico da série e apreciar o esforço que tem sido efeito na melhoria de diálogos e caracterização.

NOTA FINAL: 8.5/10