Espalha-Factos esteve à conversa com João CorreiaRudolfo Jaca, membros do grupo Quinta-Feira 12. Durante cerca de 20 minutos, conversámos sobre a evolução da banda, que se prepara para lançar Fiasco, o álbum de estreia. A apresentação do disco terá lugar na FNAC do Chiado no próximo dia 15, pelas 18:30h.

EF – Os Quinta-Feira 12 foram a banda nacional apresentada na sétima edição do Casulo. Na semana passada, foi lançada a edição nº 80, e por lá já passaram bastantes bandas e artistas nacionais. O que é que acham que é o vosso factor distintivo no panorama musical português?

João Correia (JC) – Nós temos um conceito de vídeo, que aliamos a uma história. Isso é uma das coisas que queremos ter: um conceito específico por detrás da música. Não é que não haja mais bandas assim em Portugal, que eu acho que há. Se calhar nada nos distingue! (risos).

Rudolfo Jaca (RJ) – Nessa parte se calhar é onde nos podemos destacar, na parte do vídeo; tentar contar a mesma história de mais de uma maneira. Na parte musical, temos um parte eletrónica, influências de cinema…

JC – Sim, também. Não é uma distinção, mas pode ser daquelas coisas que o pessoal ouve e acaba por identificar aquele estilo de Quinta-Feira 12. Temos umas certas ambiências que metemos na parte eletrónica. Temos assim uns ambientes mais visuais…

EF – Como foi o vosso primeiro concerto, na NOVA Day & Night, em 2015?

JC – Eu gostei imenso. Foi uma experiência interessante para todos, até porque foi um teste, quer dizer, na nossa cabeça foi um teste. Acho que correu muito bem. O pessoal parecia meio interessado, estávamos a puxar. Notava-se que havia muita gente que não conhecia, obviamente. Se estivessem lá umas duas mil pessoas atrás, se calhar tinham vindo mais para o pé do palco, mas como só estavam umas 50… (risos). Mas foi fixe, acima de tudo foi uma boa experiência.

RJ – Foi sempre um teste porque foi o primeiro concerto. Começámos a juntar as pessoas para tocar. Não sabíamos se ia resultar, tendo em conta a forma como fizemos as músicas anteriormente…

JC – Isto porque nós os dois é que iniciámos os Quinta-Feira 12. Todos os outros três elementos (porque nós ao vivo somos um quinteto) foram postos posteriormente. Depois foi do estilo: “Vamos lá sacar o álbum, vamos pôr isto e montá-lo todo”. Chegou a haver a hipótese de continuarmos a ser apenas nós os dois, o Rudolfo com uns samples e eu com umas guitarras. Mas depois parecia estar a abusar um pouco na composição e já não fazia muito sentido estarem duas pessoas a tocar instrumentos de cinco.

RJ – Mais valia chamar mais pessoal.

EF – Têm tido muitos concerto ultimamente?

JC – Para além do nosso arranque inicial tivemos mais um, no festival Vagueira Surf Fest, fomos com o Dengaz. Foi na praia, foi engraçado para experimentar tudo assim num palco maior. Depois decidimos parar um pouco, pôr o CD cá fora e fazer uns concertos.

Fotografia de: Ana Póvoa

Fotografia de: Ana Póvoa

EF – O vosso álbum de estreia, “Fiasco”, vai ser lançado no próximo dia 13 de maio. Quais foram os maiores desafios na produção deste disco?

JC – Conseguimo-nos juntar para o fazer. Isto funciona assim: o Rudolfo faz a maior parte da composição, juntamo-nos e finalizamos, organizamos as coisas. Uma dificuldade seria termos uma semana, cada um, para irmos para o Algarve. Chegámos a ir várias vezes a casa de um amigo nosso, onde nos sentávamos e nos focávamos. Nessas semanas avançávamos bué. Depois havia interregnos de dois meses, em que não conseguíamos fazer nada porque não havia tempo.

RJ – Estávamos dividos entre trabalhos e outras bandas.

JC – Essencialmente o problema foram as disponibilidades.

RJ – Foi também transformar as músicas todas num álbum em si. Começámos há muito tempo. Tínhamos uma primeira música, fomos fazendo as outras, depois pegávamos outra vez na primeira e íamos sempre tentando ajustar o estilo às outras.

JC – Porque chegou a um ponto em que estávamos sempre a mudar de estilo quase sem nos apercebermos! Às vezes tínhamos partes mais acústicas, outras vezes mais eletrónicas. O álbum acabou por não ficar todo “igualzinho” mas ficou o mais equilibrado que conseguimos, numa junção de vários estilos. Essa também foi uma das dificuldades: uma foi com as disponibilidades e os tempos, outra tem a ver com o caminho que queríamos seguir. Se calhar tínhamos músicas muito Linda Martini, outras que se calhar não tinham nada a ver com nada. Foi esse de exercício de experimentar um bocadinho de samples, de acústico, e vai ficar neste meio termo. Foi esta escolha do estilo ideal, o que é que vai ser Quinta-Feira 12.

EF – O que é que os ouvintes podem esperar do álbum?

RJ – Podem esperar alguma nostalgia subliminar, porque tem sempre influências mais antigas, de coisas que ouvíamos quando éramos mais novos, do género Xutos, Delfins, e essas bandas todas! Se calhar não conhecíamos grandes coisas de António Variações ou Heróis do Mar, ou seja o que for, mas temos, nem que seja, um bocadinho de uma música lá no inconsciente; num pop mais alternativo e cinemático.

JC – E o featuring com o Fuse, dos Dealema, é uma surpresa que está lá também. Temos letras que eu acho que muita gente se vai relacionar, pelo menos esperamos nós. São coisas que nem são nem muito diretas, nem muito metafóricas. Há ali um meio termo que faz com que as pessoas oiçam e também se identifiquem.

EF – Como foi gravar o videoclip do tema “Fiasco” no Japão?

JC – Isso é daquelas coisas que não tem nada a ver com nada! Não foi propriamente pensado para isso.

RJ – O meu tio, irmão da minha mãe, vive no Japão há 25 anos. E eu lembrei-me: já que tinha de ir lá e tinha uma possibilidade de ir lá mais desafogado economicamente, vou aproveitar. Surgiu a oportunidade, comprei a viagem e disse ao João. Estivemos lá uns cinco dias e depois mostraram-nos muito rapidamente o principal de Tóquio…

JC – Acabámos por não ir àqueles sítios como os Montes Fuji e essas coisas, onde adorávamos ter ido, mas apareceram no videoclip!

RJ – Aproveitámos mais esse conceito da confusão e do movimento para a música que era.

JC – Acabou por resultar muito bem mesmo. Isto para dizer que não fomos ao Japão propriamente para gravar o videoclip, mas fomos e aproveitámos a oportunidade de gravar.

RJ – E podemos dizer que acabámos de escrever o segundo verso lá …

JC – … o segundo verso da “Fiasco”. Tínhamos que acabar a música e portanto foi do género “Bora fazer estas frases que faltam!”. Fez-se na boa e por acaso correu bem.

EF – Como foi trabalhar com o Carlos Marques e o Pedro Teixeira na produção do filme a partir da “Carrinha Trágica”?

JC – Trabalhámos também com a Bárbara Rocha. O vídeo vai desenvolver-se em mais duas partes. Poderão ser ou não de animação, mas se tudo correr bem vamos ter um início em animação e de repente a transformar-se para vídeo. Mas isso já são coisas que estamos a ver para longo prazo. A ideia é haver uma continuação desta história, e ligar um bocadinho àquilo que estávamos a falar, que é haver sempre um conceito por detrás destas letras. Isto no fundo, a carrinha é um Diabo que quase que nos está a encaminhar para algum lado, que à partida parece um sítio mau. Se calhar no próximo vídeo podemos ver se calhar o sítio não é mau e que o Diabo não é a pior pessoa. É gerar um pouco esta confusão saudável. E foi brutal trabalhar com estas pessoas talentosas. A ideia era mostrar a nossa viagem enquanto amigos e músicos ao longo destes 12 anos que temos projetos em conjunto. Esta estrada é quase como um tour, as uma tour metafórica Vais encontrando as pessoas ao longo do caminho, vais encontrando obstáculos. No fundo é o que acontece na nossa vida.

EF – Numa conjugação entre música, imagem e uma mensagem de reflexão, como é o vosso processo criativo? Como é que isso tudo conflui num tema?

JC – Há catalizadores diferentes…

RJ – Por vezes chegamos com uma frase, lembramo-nos de um verso e pensamos que ficaria bem no início de uma música. Outras vezes pode ser só um beat ou um som ambiente um bocado diferente, depois o João vai escrevendo, se eu me lembrar de alguma coisa também escrevo… Complementamos bem essa parte. Ele manda-me umas frases e eu consigo encaixar num bocadinho que eu já tenha de uma ou outra.

EF – As vossas músicas têm sempre uma mensagem importante por trás. Consideram-se de certa forma ativistas?

JC – Sim, há aqui uma voz reivindicativa, meio humilde e low profile. Não somos Homens da Luta, nem coisa parecida, mas sim, há ali dicas. E no resto do álbum há músicas direcionadas para a política, muito mais diretas. Há músicas mais viradas para o amor, para a perda, há várias coisas.

RJ – Há aqui temas relacionados com relações pessoais, e depois tem sempre uma costela de revolução.

EF – O que é que gostariam de explorar em termos musicais num próximo projeto?

JC – Para nós foi tudo muito natural, a cena de criar e de avançar com as músicas. Nós juntávamo-nos nestas semanas para complementar as coisas, só que isso depois tem uma parte má, que no fundo até não o é porque as coisas funcionaram e está aqui um álbum bem equilibrado. Mas fazer músicas, fazer letras por cima de instrumentais, não estar propriamente numa banda a discutir as coisas é complicado. Se calhar o caminho passa por fazer isso logo de início, juntarmo-nos os cinco. O caminho será portanto ser tudo muito mais natural, no sentido de ensaiar e chegarmos lá os cinco. Em vez de ser tudo beats aqui e samples ali…

RJ – Há sempre uma ideia inicial, mas se calhar vai ser muito menos do que até onde chegava o nível de confusão na música base. Em vez de avançar logo até ao fim, há ali uma parte, pegamos os cinco naquilo e continuamos.

JC – No fundo é desconstruir tudo mais um bocadinho. É fazer o que fizemos agora para tocar ao vivo para os próximos. É ter aquela cena à banda, porque no fundo estas coisas acontecem desta forma pela falta de tempo, pelas vidas de cada um. É sermos mais “naturistas”, mais à antiga, é mais a cena da banda. Acho que é aí o caminho.

Fotografia de: Ana Póvoa

Fotografia de: Ana Póvoa