A espera terminou. Uns meses depois da confirmação, juntamente com umas últimas semanas de expectativa, A Moon Shaped Pool, o novo álbum de Radiohead, foi finalmente lançado ao público.

O seu início é já algo conhecido, uma vez que consiste nas duas faixas já recentemente reveladas, Burn the With e Daydreaming. Burn the Witch é conduzido por um arranjo de cordas agressivas que com o seu tempo elevado e timbre riscado criam um ritmo musical rebelde, mas igualmente amigável e sensato. Esta relação musical aparentemente incompatível é influenciada pelos recentes trabalhos cinematográficos de Jonny Greenwood, onde em The Master, de Paul Thomas Anderson, utilizou o alcance dos instrumentos de cordas para colocar o espectador numa posição de desconforto e com isso ajudar ao dramatismo do filme. Aqui, no entanto, isso é balançado com a voz decisiva de Thom Yorke e por um contrabaixo dominante, que vai impondo um ritmo mais seguro e vencedor à música à medida que ela progride. Desta forma o álbum começa com um risco controlado, que nos deixa intrigados para aquilo que vamos ouvir.

Essa postura rebelde, com o seu propósito já cumprido, é rapidamente alterada e Daydreaming traz de seguida uma balada sóbria guiada por um tímido piano e acompanhado por uns toques de sintetizador. Como um filho de Pyramid Song e No Surprises, Daydreaming introduz-nos à estética do álbum, um som sereno, algo resignado mas não pessimista, que nos deixa confortáveis debaixo de um cobertor num domingo chuvoso.

A capa do single Daydreaming. Fonte: http://www.wasteheadquarters.com/

A capa do single Daydreaming.
Fonte: http://www.wasteheadquarters.com/

Passadas estas duas músicas, vem então o período de relativa descoberta, isto porque uma considerável parte das músicas de A Moon Shaped Pool apareceram já em atuações ao vivo da banda, e foram agora finalizadas para fazerem parte do álbum, sendo o exemplo mais conhecido True Love Waits, que encerra o álbum.

Em Decks Dark, o estilo sóbrio continua, apenas acompanhado desta vez por uma bateria, ao início domesticada através de meios eletrónicos, mas cada vez mais orgânica e natural. Um coro monástico transmite inicialmente um vazio desconfortável, que é dominado pelo piano e pela voz de York, e que por fim é substituído pelo baixo discreto mas autoritário de Colin Greenwood.

A passagem para Desert Island Disk é quase impercetível, e apresenta pela primeira vez sinais de uma guitarra acústica, tocada sem esforço. Aqui começa uma fase mais expansiva do álbum, com passagens camufladas e uma combinação de sons de baixo contraste.

A meio de Ful Stop volta a guitarra, desta vez mais elétrica, a lembrar a fantástica energia de Reckoner, mas agora sem destaque de papel principal, servindo para auxiliar aos lamentos da voz de Yorke e a mais uns instrumentos de cordas distorcidos. Novamente sem esforço flutuamos para a serenidade de Glass Eyes, a música mais pequena do álbum, que consiste numa bela nuvem de piano e de cordas onde o vocalista da banda explora no seu íntimo a temática da ansiedade e alienação.

Identikit marca a entrada na segunda metade do álbum e o regresso a um som menos discreto. Ainda que comece com uma voz que se assombra a si mesmo num vazio apenas preenchida por uma bateria simplista e uma guitarra recatada, a entrada a meio da música de um coro e de um sintetizador faz com que vá crescendo até terminar naquilo que se pode considerar um solo irrequieto da guitarra de Greenwood. O álbum é transformado por este solo, e a música seguinte, The Numbers, segue o ritmo confiante por ele introduzido, agora com um baixo mais atencioso e uma guitarra rítmica a marcar o tempo, mas sempre sem largar os arranjos de cordas ou o tímido piano.

A seguinte Present Tense vira-se mais para os ritmos relaxados de uma guitarra dedilhada e de umas maracas organizadas, mas nem com isso deixa as vozes ecoadas, que como uma assombração refletem a letra da música.

Isto parece, aliás, ser o maior trunfo dos Radiohead ao seu nono álbum, a capacidade de juntar instrumentos distintos e explorar na mesma música ritmos à partida contrastantes. A facilidade com que a banda se move no espectro sonoro e conjuga todas as diferenças em músicas que mantêm uma identidade e união invioláveis é inigualável. Desta forma conseguem apresentar um trabalho multidimensional e com uma profundidade de significado e interpretação inacabável. No fim, com o arrepiante arranjo de cordas de Tinker Tailor Soldier Sailor Rich Man Poor Man Beggar Man Thief e a apaixonante True Love Waits, agora reformulada numa delicada balada de piano, é impossível não ficar tocado com o intimismo transmitido por este trabalho, tanto nos momentos otimistas como pessimistas.

Avaliar um álbum de Radiohead é sempre uma tarefa perigosa e que muda com o passar do tempo, seja pelas novas sonoridades que se vão destacando nas músicas, pelos novos significados que as suas letras vão apresentando, ou pela sua relação como um todo que se vai cimentando – ninguém se atreve a atribuir uma pontuação definitiva apenas dias depois do seu lançamento. No entanto, o que se pode já identificar aqui é uma postura mais confiante da banda, a relegar os arranjos eletrónicos para segundo plano e utilizar as suas capacidades, incluindo a peculiar voz de Thom Yorke, para impulsionar as sonoridades no álbum. Elas lembram o videoclip de Daydreaming: não chamam à atenção, não alertam para a sua presença; tem de ser o ouvinte a analisá-las e a interessar-se por elas. Também não são perfeitas. Vemos as rugas de Yorke, a barba esbranquiçada e a sua ptose ocular, tal como ouvimos a fragilidade na sua voz. E é esse o encanto de Moon Shaped Pool, a beleza da mudança, das imperfeições e das incompatibilidades. A melancolia de envelhecer, de tentar e errar, de se perder, mas de saber que nada ficou efetivamente perdido.

Nota: 8/10