Deolinda
Rui Bandeira

Casa da Música enche-se para receber os Deolinda

6 de maio de 2016. 21:10h. “Senhoras e senhores, sejam bem-vindos à sala Suggia da Casa da Música. Dentro de momentos o espetáculo irá começar”. Apagam-se as luzes. Faz-se silêncio. Num jogo de luzes e fumo, surgem quatro sombras, pertencentes a nomes que conhecemos bem: José Pedro Leitão (contrabaixo), Luís José Martins (guitarra), Pedro da Silva Martins (guitarra) e Sérgio Nascimento (percussão). Ouvem-se os primeiros acordes de Pontos No Mundo e num aplauso caloroso, o público recebe Ana Bacalhau.

Mas foi com a dança e o ritmo energético da vocalista que o público teve um bom Mau Acordar.
Boa noite, Porto! É uma tremenda felicidade para nós voltar a esta cidade que faz parte do ADN da Deolinda. Vocês dão-nos sempre noites inesquecíveis”, ouve-se, em tom de saudação às mais de 1200 pessoas que enchiam a sala.

No final de Manta Para Dois, há uma nova pausa, desta vez para dar asas à crítica social. Numa explicação muito clara, Ana apresenta a música que segue com as seguintes palavras: “Esta música foi escrita a pensar naquela gente que nos tenta convencer de duas coisas: a primeira é a de que o bote onde todos estamos está furado e temos de remar com mais austeridade para o aguentarmos. A segunda é a de que fomos nós que fizemos o furo no bote”. O público sentiu-se de tal maneira identificado com a mensagem de Bote Furado que as palmas foram uma constante do início ao fim da música.

Depois da apresentação de quatro canções do novo álbum Outras Histórias e como o que tem de ser tem muita força, recuamos até Mundo Pequenino para ouvir a tão aplaudida Seja Agora.

De volta à conversa intimista, Ana usa o seu bom humor para introduzir uma música do novo álbum. Foi com uma alusão à chuva que se fazia sentir naquele dia e com um “Que pouca vergonha de Primavera. S.Pedro, estás-te a passar?” que se deu início a Corzinha de Verão.

É hora de chamar uma convidada. Ana Isabel Dias surge em palco, a par da sua harpa, para se juntar ao quinteto e, não sei se eles sabem, mas fizeram o nosso dia com a Bons Dias, à qual se seguiu Dançar de Olhos Fechados, que terminou com um belo solo de harpa.

Entretanto, e sem que dessemos conta, ficamos emaranhados na teia tecida pela Canção Aranha. Sucedeu-se a Não Tenho Mais Razões, que concedeu ao público um momento de grande animação ao ritmo dos tambores. Eis que surge um dos pontos mais altos da noite. Os primeiros acordes do Fado Toninho fazem-se ouvir e, sem dar hipótese à vocalista, a plateia presente canta em uníssono a primeira estrofe. Ana enche-se de orgulho e exclama “Estão contratados!”.

A música recomeça com a sua ajuda e no final dá-se a primeira ovação da noite, que apenas cessou com o início da Bom Partido. As Canções que Tu Farias vem como homenagem às grandes vozes “que partiram cedo demais”. “Lindo! Bravo”, ecoa na sala.

Ainda no seguimento das “grandes vozes”, Manel Cruz é chamado ao palco para Desavindos, num dueto arrepiante. A Avó da Maria enternece. O Movimento Perpétuo Associativo adaptado ao clube de cada um diverte. E o Berbicacho que contou com participação ativa do público, foi tudo menos isso mesmo. Dá-se início a Um Contra o Outro e não há um único momento ao longo da música em que as palmas mostrem fraqueza. Aproveita-se, já em tom de despedida, para apresentar todos os músicos e equipa técnica e agradecer-lhes, bem como ao público.

Mas a noite era ainda uma criança em surpresas e o inesperado aconteceu. Nas palavras de Anaa Casa da Música esta noite vai virar uma disco night”. O DJ Riot, dos Buraka Som Sistema entra em palco onde o espera uma mesa de mistura. É verdade. A plateia em pé a dançar, o jogo de luzes e o fumo fizeram da Casa da Música uma autêntica discoteca.

O fim do concerto desenha-se. Os músicos abraçam-se, agradecem e abandonam o palco. Mas o mais expectável acontece. E a banda regressa. Ana, de guitarra na mão, tal como no princípio da sua carreira, e num tom acústico, apresenta Nunca é tarde e Mal por Mal. Com a plateia em pé a aplaudir, a banda volta a agradecer e a sair de palco. Mas face à tamanha ovação, os Deolinda regressam para o clássico Fon Fon Fon, dois minutos de conversa e um espetáculo de luzes e sons que acompanharam mais uma Musiquinha final.

Os aplausos enchem a sala ao desaparecer dos músicos. A curiosidade paira no ar e entre os persistentes que gritam o nome da banda e os conformados que vão abandonando a sala, os Deolinda voltam ao palco num terceiro encore para um “Obrigada do fundo do coração” e, para terminar definitivamente a noite com uma canção cheia de romantismo, Clandestino, que acompanhou as pessoas no regresso a casa, ora não tivesse sido este final de concerto tão subtil.
As conclusões são as de sempre: Portugal é um berço de talento e os Deolinda fazem jus a isso mesmo.

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