AC/DC Rock or Bust 2016
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AC/DC: a máquina em retalhos ainda é infernal

Quando eu era miúdo (ainda mais do que sou agora) os AC/DC foram uma banda importante porque inauguraram o período da minha vida em que descobri que a música não se cingia apenas àquilo que a Cidade FM e a MTV me ofereciam e que, lá para uma longínqua data do século XX, havia coisas giras cativantes.

Mesmo que, anos mais tarde, tenha vindo a perceber que estes escoceses e australianos não eram assim tão bons, a verdade é que foi depois deles que descobri algumas das bandas que ainda hoje venero e estaria a mentir se dissesse que não sei de cor a maior parte das letras deles. Até porque, verdade seja dita, não é tarefa complicada.

Na manhã de 3 de Junho de 2009, antes de ir para a escola, os meus pais aparecem-me à frente com um bilhete para o concerto que os AC/DC viriam a dar um dia depois em Alvalade, quando eu já estava perfeitamente convencido de que não ia. Com o passar dos anos comecei a borrifar-me totalmente na banda ou naquilo que eles andavam a fazer. Já não os ouvia nem me interessavam. Mas ainda guardo essa noite como uma das mais felizes da minha vida.

Foi com este background, e com o peso emocional que ele tem em mim, que ontem cheguei ao Passeio Marítimo de Algés. Confesso que se não estivesse a cobrir o concerto para o Espalha-Factos era certo que não me veria ali, mas a oportunidade apareceu e com ela apareceu também um entusiasmo palerma e uma vontade enorme de ir reviver a minha infância. Um Fernando Pessoa dos tempos modernos, portanto.

E assim foi. O início de noite ainda diluvioso e feio ficou a cargo de Tyler Bryant & The Shakedown. O quarteto de blues texano apresentou-se pujante, animado e com a disponibilidade necessária para combater a chuva. Chegou mesmo a arrancar alguns aplausos e abanares de cabeça daqueles que iam enchendo o recinto. Mas aqueles que ali estavam não enganavam (nem queriam enganar ninguém). Estavam nas primeiras filas porque queriam ver malta de Highway to Hell e, olha, já que estão aqui uns menino a tocar rock, mais vale abanarmos a cabeça.

Enquanto os roadies preparavam o palco para a vinda dos australianos era notório o crescimento de uma certa ansiedade e curiosidade entres os vários milhares que se iam aglomerando à volta de um palco gigantesco, com dois característicos cornos e com um set quase pornográfico de luzes e amplificadores Marshal que mais tarde viriam a mostrar todo o seu poder e esplendor.

Eram normais esta ansiedade e curiosidade. Se, por um lado, era uma das banda mais famosas do mundo que estava prestes a aparecer ali, por outro lado permanecia um ponto de interrogação gigantesco em relação a como seria a prestação do vocalista que veio substituir Brian Johnson enquanto este lida com alguns problemas de saúde: ninguém menos que Axl Rose.

AC/DC Rock or Bust 2016

Não passava muito das 21 horas quando todas as luzes se apagam e a banda sobe ao palco. Aquilo que nos é apresentado são uns AC/DC em versão manta de retalhos. Da banda original estão apenas o carismático e literalmente endiabrado guitarrista Angus Young e o discreto baixista Cliff Williams. Os restantes elementos da banda foram sendo substituídos e, apesar de a noite ser da banda, o destaque começa por ir naturalmente para Axl Rose que se apresenta ao centro do palco sentado num misto de cadeira com trono e com uma perna partida. Num concerto que tinha os olhos do mundo virados para si (tal como teve, naquele mesmo sítio, o dos Libertines no NOS Alive de há dois anos) comecei a perceber que realmente estavam ali reunidas todas as condições para se fazer história. E, muito provavelmente, seria pela negativa.

Não foi tanto assim. De facto, não foi quase nada assim. O set de 22 canções começou com com Rock or Bust, single do mais recente álbum da banda, igual a todos os singles que os australianos têm lançado na última década, ou seja, pouco marcante e consequente.  Mas serviu para mostrar algumas coisas. Que Axl era claramente apenas um convidado e era nessa pele que se encontrava, mas que nem por isso fugiria à tarefa de, mesmo sentado, ser em conjunto com Angus Young o mestre de cerimónias de uma noite onde a chuva já tinha fugido com medo dos riffs barulhentos.

A segunda canção é também a primeira a marcar um concerto que, à semelhança daquilo que tem acontecido nos últimos (se calhar) vinte anos da banda, foi de best of. Shoot to Thrill é calorosamente recebida e mostrou um Axl claramente prazeroso neste seu novo emprego. Mostrou também que, mesmo com as falhas (algumas delas clamorosas que viria a ter), era o homem certo para fazer este trabalho.

Os grandes êxitos foram sendo deitados cá para fora sem excepção. Ouviu-se Back in Black cantada efusivamente por toda a gente, uma Dirty Deeds Done Dirt Cheap com um coro de milhares e ainda uma Rock’no’Roll Damnation que foi tocada pela última vez quando eu ainda nem sabia escrever.

AC/DC Rock or Bust 2016

Num concerto que até aqui, mesmo que não brilhante, estava a ser extremamente competente, surge Thunderstruck. Abordada de forma errada pôs a banda na primeira, e se calhar única, situação de desconforto. Mas isto do rock é coisa sem tempo para parar e por isso a banda e Axl continuaram flamejantes nesta maratona de êxitos. Seguiram canções como High Voltage, Hells Bells (um dos grandes momentos da noite com um gigantesco sino pendurado no topo do palco), Give The Dog a Bone e You Shook Me All Night Long, que foi precedida de uma pequena brincadeira onde Axl perguntou se alguém conheceria a canção.

Até ao final da primeira parte do espectáculo destaca-se ainda Whole Lotta Rosie (com uma já habitual Rosie gigantesca no fundo do palco) e Let There Be Rock, que teve direito a um solo extralongo de Angus Young, durante a qual o eléctrico menino de colégio se foi passeando entre uma plataforma circular que entrava pela plateia e o próprio palco.

O encore, como também já é clássico, começa sem vergonha nem rodeios com o melhor momento da noite, a Highway to Hell cantada em plenos pulmões por quase toda gente. Segui-se Riff Raff, canção preferida de Axl Rose e que não era tocada desde o fim da década de 70. O concerto terminou com a histórica For Those About To Rock, acompanhada das salvas do canhão que também está na capa do álbum e com um fogo de artificio que deu um toque festivo a todo o acontecimento.

E assim foi. Nunca se poderá dizer que este foi mais um concerto de AC/DC porque as circunstâncias não o permitem. Acredito que não ouvirão nenhum daqueles milhares de ainda fãs da banda a dizer que preferem Axl Rose a Brian Johnson mas a verdade é que o homem dos Guns’n’Roses, mesmo com algumas falhas que doeram na alma, fez em muitas canções um trabalho mais competente do que quase todos vaticinavam.

Assistiu-se a duas horas de uma banda oleada pelos anos e que tem sabido resistir a toda e qualquer adversidade, assistiu-se a um espectáculo bom, divertido e de rock’n’roll que nem sequer esteve perto de chumbar no teste. Palermas daqueles que foram pedir o dinheiro de volta.

Em plena segunda década do século XXI é quase impossível sermos surpreendidos por esta banda. Os acordes são os mesmos três de há trinta anos; o mesmo álbum foi feito vezes e vezes sem conta com letras provocatórias quase sempre semelhantes; os êxitos serão sempre os mesmos e os novos álbuns, sem grande coisa realmente boa para oferecer. Mas isto é o rock e isto são os AC/DC. Quem gosta venha cantar. Quem não gosta vá para casa e esteja caladinho.

Fotografias: Everything Is New

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