Um hotel foi montado na Rua das Gaivota 6, em Lisboa, no último fim de semana. Com direção de Carlota Lagido, Hotel Flamingo abordou a fisicalidade de momentos bem conhecidos da história do teatro.

Há um ano, Hotel Flamingo estava no Teatro A Barraca, depois de ter feito residência artística na Companhia Olga Roriz. Já instalado em várias casas, o espetáculo chega à Rua das Gaivotas, com direção do Teatro Praga. Espaço já habituado a peças mais experimentais, este foi um espetáculo que se colou bem ao sítio.

A entrada do espetador para Hotel Flamingo é feita num palco tradicional pintado de branco. Os atores encontram-se a arrumar a cena sob a luz da projeção de um flamingo roxo. Com tudo arrumadinho, começa a peça oficialmente.

Victor Gonçalves, Ana Alves e Sónia Neves experimentam várias posições em palco. Nenhuma delas resulta, nem com Ana encostada no ombro de Victor, nem com a atriz à frente do ator. Nada. Mas toda a peça vai ser assim: uma acumulação de instantes e experimentalismo, sem ter o objetivo de resultar.

Um hotel com personagens já conhecidas

A folha de sala informava que estariam personagens e textos bem conhecidos em palco. O momento mais evidente pertence a Ricardo III, de Shakespeare. O ator João Ascenso afirma: “O meu reino por…”. Desta forma faz com que os colegas em palco lhe entreguem fita cola, uma garrafa, uma mesa, um banco, um chapéus e se desmanchem em pedidos. Até que surge o cavalo. Há olhares e o início de um jogo de xadrez entre um rei e o cavalo.

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Ana Alves em ‘Hotel Flamingo’. Foto: Mariana Silva

O jogo segue com mais referências a amantes como se tratasse de Romeu e Julieta e os dois pares formados se consumissem a preto e branco, que é a cor das t-shirts. Vem o chamamento a Ofélia de Hamlet, que resulta num conjunto de posições sexuais entre Ana Alves, João Ascenso e Victor Gonçalves. Sónia Neves é como uma mestra, ou melhor, uma encenadora, como daqueles que apareceram no século XIX com a formalização do teatro.

E se é para ter episódios Tchekhov, que venham umas palavras em russo e uma cena de tortura. A cena começa com João Ascenso e termina com Victor Gonçalves nuns deslizes no palco molhado, e com sorrisos, que terminam no enrolar de um plástico em si.

Até há cinema neste hotel

Também se pode falar em momentos corajosos, Sónia Neves esteve mesmo em frente ao público, e se na primeira vez nem conseguiu falar, na segunda forçou a voz ao som da guitarra elétrica de Victor Gonçalves. E se é para ir fazendo um percurso pela história, que se termine onde o teatro acaba por ter um papel principal: o cinema.

Victor e Ana têm indicações de Sónia e João numa cena que representa a gravação de um take apaixonado. É também neste momento que surge o derradeiro trabalho de equipa que Hotel Flamingo vinha pedindo, onde as representações dos quatro atores culminam na gestualidade conseguida por Victor Gonçalves.

Entre as várias referências que podem surgir da peça, é de destacar os figurinos escolhidos por Carlota Lagido. Se como figurinista já trabalhou com Francisco Camacho, Meg Stuart e Joana Providência, na peça feita em cocriação com os atores optou por t-shirts com diferentes pinturas. Se em Ricardo III João Ascendo teve um rei na camisola, Victor Gonçalves num momento mais heróico teve um Spider Man.

Hotel Flamingo é feito de encaixes, não tem uma lógica, apenas um rumo que termina quando a luz do palco se desliga. É uma peça sobre vários momentos, em que se procura distinguir o início, o meio e o fim de um espetáculo. Há um imensidão de personagens, que se vão materializando através de instantes, vontades, desejos e indícios de palavras bem conhecidas. Quantos personagens cabem em palco? As que pedirem para entrar em Hotel Flamingo. Aqui todos podem ser hospedados.

O Espalha-Factos é parceiro media da Rua das Gaivotas 6.