Numa semana inundada de sol e calor, o dia escolhido para o concerto de Samuel Úria, na Invicta, anoiteceu do mesmo modo que nasceu: chuvoso. No entanto, o cinzento do céu não foi, de todo, presságio da noite memorável (no mínimo) que a Casa da Música viu acontecer dentro das suas paredes, neste dia cinco de maio.

Se a Sala 2 da Casa da Música tiver lotação, sem dúvida que está mais do que esgotada. No palco, estão pendurados alguns quadros de pop art; no público, alguns comentam o novo álbum ali apresentado, Carga de Ombro. Os lugares sentados, dispostos imediatamente em frente ao palco, estão já ocupados e o restante espaço em pé ocupado está. Aparentemente, de fãs de boa música está o Porto cheio: são eles quem recebe Samuel Úria com palmas eufóricas assim que se apagam as luzes da plateia e se acendem as do palco, deixando ver uma banda já pronta.

Dou-me Corda, a primeira faixa do novo álbum, é também o motor de arranque deste concerto. Pouco tardam a chegar as primeiras de muitas palavras que Úria trocaria, com o seu público, durante toda a noite. “Que prazer estar aqui e ver esta sala tão cheia. Eu gosto muito do Porto e gostava de ter a chave da cidade, mas da Casa da Música, aqui tão bem implementada…” e não precisa de acabar a frase, porque todos os portuenses – todos os portugueses, na verdade – reconhecem o potencial da sala de espetáculos. Agora, entramos numa espiral de canções antigas, como Espalha Brasas, e mais recentes, como Aeromoço, sendo esta dedicada a Bruno Morgado.

Tomara a muitos artistas terem, em palco, a presença que tão bem caracteriza Samuel Úria e que o leva a interagir com o público no intervalo de todas as canções. Não se poupam agradecimentos – à plateia, à banda, ao coro, aos técnicos que tornam tudo possível – e por entre piadas amigáveis, agradece ao Porto por “aplaudir a fanfarronice”. Como não pensar, por instantes, que estamos em casa com amigos? A viagem pelo antigo e pelo novo prossegue, desta vez com Nem Lhe Tocava, Repressão (com refrão cantado por Tiago Ramos) e a canção que dá nome ao último álbum, Carga de Ombro.

Agora, sobe ao palco Miguel Ferreira, “um dos responsáveis por este álbum” e que prontamente aceita o chamamento do xilofone. Vem por Mim, de ritmo calmo e quase embalador, pede que se baixem um pouco as luzes para criar o ambiente intimista que tanto se sente neste concerto. Mas um dos melhores momentos que a Casa da Música alguma vez presenciou estava ainda para vir.

Vai a meio o concerto. “Esta canção não só foi estreada cá no Porto, como foi pensada para se cantar com um distinto homem do Norte. Se ele estivesse aqui hoje, convidava-o para vir cantar comigo… É o Manel Cruz.” Desvenda Samuel Úria. É aqui que se dá o plot twist: do público, alguém grita “ele está aqui!” e imediatamente se viram todas as cabeças, incluindo a de Úria. “Manel, estás aí? Vem cantar comigo!” E eis que surge Manel Cruz no seu caminho por entre o público, até ao palco onde o espera o amigo.

Para quem não estiver a compreender bem a dimensão do momento, Manel Cruz é para o Porto o que o Mosteiro dos Jerónimos é para Lisboa: o nosso orgulho. Lenço Enxuto é cantada não só pelos dois protagonistas – e que voz tão característica e reconfortante se ouve agora – como por toda a sala, que sabe a letra de cor e tem, talvez, uma lágrima no canto do olho.

EF_SamuelUria (23)Samuel Úria com Manel Cruz

Dificilmente se supera um momento desta grandiosidade, mas o concerto prossegue com o ritmo convidativo e dançável de Palavra-Impasse e Não Arrastes o Meu Caixão (que saudades de 2009). Por uns instantes, voltamos às origens: “Uma vez tive um senhor muito zangado e quase a oferecer pancada porque não toquei esta canção. Então, para precaver, cá está ela.” Trata-se do tango pouco inteligente e muito eficaz de Barbarella e Barba Rala, que tantos suspiros arranca, e conta com a participação do glorioso coro que acompanha Samuel Úria desde o início.

De surpresas é a noite feita, agora à responsabilidade de Ana Bacalhau, que se junta para interpretar Ei-lo (material de novo álbum) e Não Ouviste Nada, dos Deolinda. “Obrigado Porto, até uma próxima!”. Ao que parece, está a chegar ao fim e, supostamente, O Diabo encerraria esta hora e meia de concerto… Supostamente.

EF_SamuelUria (30)Samuel Úria com Ana Bacalhau

Samuel Úria e a sua estimada banda voltam ao palco para nos dizer, um tanto ironicamente, que o silêncio é de ouro e que nunca foram do prog-rock (com Essa Voz e Teimoso).De seguida, a poderosa canção Império e a animada Forasteiro marcam o novo falso alarme de uma despedida que ainda não estava para acontecer. Num segundo encore (porque concerto que é concerto tem os encores que forem necessários!), toda a banda, coro e convidados de Samuel Úria fazem uma atuação itinerante – literalmente – de Carga de Ombro, percorrendo toda a sala no meio do público. Atrevo-me a dizer que, durante esse momento, fomos todos irmãos.

Serve este parágrafo para dizer que, caso não tenham ido a este concerto, deviam ter ido; se foram, ganharam, sem dúvida, uma das melhores noites das vossas vidas.