Em 1988, uma canadiana do Quebéc atravessou o Atlântico e veio representar a Suíça no Festival da Eurovisão. Chamava-se Céline Dion e a canção Ne Partez Pas Sans Moi venceu numa das votações mais entusiasmantes da história eurovisiva, ficando apenas um ponto à frente do Reino Unido. Foi a segunda vitória da Suíça, depois de ter ganho na primeira edição do Festival da Eurovisão, em 1956.

Passaram 28 anos. A Suíça não voltou a vencer a Eurovisão e mais nenhuma canção cantada em francês conquistou a Europa – mesmo a França, o mais bem sucedido dos países francófonos, teve a última vitória em 1977. Mas as coisas podem mudar este ano.

Os sites de apostas continuam a colocar a Rússia como favorita em 2016, mas as últimas semanas trouxeram a canção francesa para o grupo dos favoritos, num segundo lugar muito próximo da vitória. J’ai Cherché é cantada por Amir Haddas, franco-israelita de 31 anos, surdo do ouvido esquerdo, e que parece ser um dos mais fortes concorrentes de França nos últimos anos.

J’ai Cherché não é cantada apenas em francês – tem uma parte também em inglês, uma fórmula que França usou já quatro vezes. Os franceses também já cantaram em francês e espanhol, francês e crioulo do Haiti, em bretão e em corso, mas tal como os portugueses, nunca cantaram exclusivamente em inglês (em 2008, dois pequenos versos em francês de Sébastien Tellier mantiveram Divine uma canção bilingue).

Canções em francês na Eurovisão são uma raridade desde que deixou de haver obrigatoriedade de cantar numa língua oficial do país. O inglês domina desde o final dos anos noventa, e este ano apenas Macedónia, Bósnia Herzegovina e Áustria fogem à regra – curiosamente, os austríacos vão cantar apenas em francês.

A estratégia francesa pode vir a resultar, depois de quatro anos consecutivos a ficarem nos últimos lugares da tabela. Nos últimos 20 anos, só Sérvia e Israel venceram a barreira linguística e ganharam sem cantar em inglês.