Comecemos por um throwback rápido, mesmo que hoje não seja quinta-feira: Michael Knight e os anos 80, em que ninguém contestava a poluição de um carro chamado Kit, que andava sempre a abrir (dar nomes aos bólides, quem nunca?). Um pulo até 2016 e ganhamos todos consciência ecológica – obrigada, Verdade Inconveniente. Ainda bem que este Mike El Nite anda de bicicleta e nos recorda que a água é “pura, fresca, cristalina”, pelo palco do Musicbox.

Mike El Nite já andava a dar nas vistas: em 2013, mostrava-nos um Mambo N.º 1 e já se percebia que não ia ficar por aí. Enquanto dá uma ajuda a outros músicos (é um dos nomes que costuma compor a crew de Da Chick), andou a preparar este Justiceiro, o seu longa duração, editado recentemente pela NOS Discos. Ontem foi dia de apresentação do álbum, no Musicbox, depois de já ter passado pela Invicta.

Dizer que estava casa cheia é pouco. Se há coisa que se pode dizer sobre Mike El Nite é que nunca será aplicável o conhecido título de um dos álbuns dos Ornatos Violeta: amigos é coisa que não lhe falta. As primeiras filas estavam recheadas de companheiros de Telheiras (ou Zona T, berço deste Justiceiro de bicla) e de colaborações, prontas a subir a palco e agarrar um microfone.

Mike El Nite conquista pela atenção àquilo que o rodeia, conseguindo rapidamente uma ligação com o público. Basta dar um olho às redes sociais do músico para perceber que papa tudo o que é vídeo viral e referência da atualidade. Ao final da primeira música, Horizontes, já dava sinais de Tranquilo, Favorável, com coreografia a acompanhar, e até uma referência ao prato destes dias: “’tou rijo, ’tou em dia” – claro que arrancou sorrisos.

Mas não é só isso: há muitos jogos de palavras inteligentes nos temas, quase marca registada de Mike El Nite, que tão depressa aliviam beats pesados quanto põem o dedo na ferida. Há menções que são facilmente identificáveis para uma geração que tenha vivido nos anos 90: Oliude e o seu verso ” (…) Big Show SIC, eu quero é ser sick e ter um big show”. Para quem gosta de piscinas, nem o Ai, os Homens fica de fora – lembram-se de quando o José Figueiras atirava homens para a piscina num programa da SIC? É isso, está na música T.U.G.A. 

Como em muitos casos as imagens transmitem mais do que as palavras, é assim que se pode representar o clima na sala lisboeta ontem à noite: irrequieto, enérgico e derivados.

Mike El Nite, Musicbox, 2016

Santa Maria foi dos primeiros coros da noite. Se o facto de recorrer a um hit dos Santamaria (olá, anos 90!) ajuda? Claro que sim, mas só cumpre uma pequena percentagem do trabalho. O resto é um bom instrumental, a acompanhar uma palavra à altura.

Passando por Monkey, Malucos do Riso e Água Fria, Mike El Nite ia chamando a palco as colaborações, com L-Ali, Nofake e Profjam, o renovar da colaboração já feita em Mambo N.º 1. Ficou de fora o galego Kaixo – “ligou-me a dizer que não tinha conseguido apanhar o autocarro”, brincava Mike El Nite no intervalo entre temas. Nota para Água Fria, que faz com que toda a gente recorde a composição da água (se alguma vez pensei que ia ficar com duas de hidrogénio, uma de oxigénio em repeat na cabeça? Devo confessar que não, mas são proezas.)

Nem Da Chick faltou, preparadíssima para dar tudo em Só Badalhocas, do EP Vaporetto Titano. Se a acidez da letra não caiu bem a muita gente na altura do lançamento, a verdade é que é impossível não dançar com o groove do tema. E foi justamente isso que aconteceu.

Portanto, refrescar de memória de Mike El Nite: não se mostra as pearls a toda a gente, a música 2P é adequada para sabermos todo e qualquer botão de um comando de consola de cor e Malucos do Riso serve para praticar a gargalhada sarcástica – para fingir que estamos contentes. DWARF, um dos responsáveis pela produção, é um fiel companheiro de Nite nesta aventura, que mostrou bem que sabe partilhar as luzes da ribalta e dar os devidos créditos a quem os merece. Aos interessados, o álbum Justiceiro está disponível para download gratuito e legal, através da NOS Discos. Resta saber qual é o próximo passo deste Justiceiro eco-friendly mas sempre preparado para não ser assim tão amiguinho quando é preciso criticar.

Fotografias de Mariana Godet