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‘Saga – Volume Três’: “A vida é aprender a perder”

Saga – Volume três, de Brian K. Vaughan e Fiona Staples, retoma os acontecimentos do volume anterior, apresenta-nos novas personagens e continua não só a ser exemplar na crítica, como no entretenimento. Um romance intergalático num mundo vasto e hostil, capaz de abordar temas profundos com humor e acutilância.

Para quem não está a par dos acontecimentos, Alana Marko, dois soldados de lados opostos de um conflito galático, são o casal protagonista que, 12 horas após o primeiro encontro, se apaixonam e decidem fugir, distanciando-se da trágica história de Romeu e JulietaSaga – Volume um começa com o nascimento de Hazel, a sua primeira filha, símbolo de esperança num mundo em guerra, para a qual (rápida mas não facilmente) arranjam a babysitter Izabel, uma jovem fantasma, cujo corpo termina nos intestinos pendurados.

Por sua vez, Saga – Volume dois apresenta-nos os pais de Marko e, continuando a focar-se no seio familiar da nossa ocasional narradora, expande a narrativa através do worldbuilding e do desenvolvimento de personagens secundárias, cujas sub-tramas se continuam a destacar cada vez mais.

Saga – Volume três retoma os acontecimentos anteriores para desvendar o que aconteceu após o encontro com D. Oswald Heist, o herói literário de Alana. Paralelamente, é-nos mostrado o que está a acontecer com outras personagens, como o mercenário freelancer A Vontade e as suas companheiras, Gwendolyn, a ex-noiva muito zangada de Marko, e a ex-escrava sexual de apenas seis anos, que está prestes a ser batizada (e não só).

“São as histórias que não têm lado que os preocupam.” – A Marca em Saga – Volume três

As personagens permanecem indiscutivelmente humanas, nos seus pensamentos, conflitos e desejos, apesar da diversidade estética, étnica, sexual e de comportamento de género. Mais do que isso, são absolutamente cativantes, o que se deve em muito à capacidade de Vaughan de explorar as suas personalidades e vidas para além da primeira impressão. Por outro lado, a distinção entre hérois e vilões é progressivamente esbatida, à medida que as perspetivas de uns e outros nos são desvendadas . São, acima de tudo, indivíduos com valores e causas próprias, que num mundo em guerra foram obrigados a escolher um lado. Afinal de contas, o conflito entre o planeta Terravista e o satélite Coroa envolve a galáxia inteira, e mesmo os mais neutros acabam por ser afetados.

A premissa pode ser linear – um casal romântico de fações opostas que, sem estar realmente interessado em provar que o amor não tem barreiras, acaba por se tornar um símbolo de esperança, mas a forma como a narrativa nos é contada, em reviravoltas inesperadas, torna Saga uma série incrivelmente mágica. As questões abordadas são, sem sombra de dúvida, pertinentemente contemporâneas, como a homossexualidade, o poder belicista e os jogos políticos que se lhe associam, o jornalismo (muitas vezes sensacionalista), rituais de mutilação (como o que é realizado em Terravista) ou o desemprego.

A mensagem de tolerância que percorre toda a narrativa é-nos novamente relembrada com a entrada em cena de Upsher Doff, um casal de jornalistas que, por serem naturais de Refugo, têm de esconder a sua preferência sexual. Mas esse é apenas um dos preconceitos abordados por Vaughan, que faz questão de quebrar tabus da forma mais chocante possível. Aliás, o teor sexual mantém-se, mas Saga – Volume dois já tinha sido censurado, pela App Store da Apple, por mostrar sexo homossexual explícito. Apesar do tom gráfico, a nudez e a representação de relações sexuais e de preferências sexuais distintas não é novidade para os fãs.

“Supostamente, o conselho para matarem os vossos personagens favoritos” foi atribuído a vários escritores pelas galáxias… e o senhor Heist odiava-os a todos.” – Hazel em Saga – Volume três

A existência de um planeta monárquico, aliado de Terravista, é outro detalhe interessante, sobretudo porque o Princípe Robot IV (com um ecrã no lugar da cabeça, no qual se vislumbram os seus pensamentos e desejos) foi encarregue de matar Alana e evitar, assim, a potencial paz. A sub-trama que envolve a sua família influencia, por isso e inevitavelmente, a vida dos protagonistas. Por outro lado, destaca-se a primeira aparição de mais uma freelancer, A Marca, e a existência de romance, drama e humor corrosivo suficientes para que os leitores se envolvam emocionalmente, sobretudo quando Vaughan decide que, uma vez que há uma guerra, têm de existir mais do que apenas feridos.

Quanto à arte de Staples, há pouco que ainda não se tenha dito acerca do seu talento, razão pela qual voltou a arrebatar, em 2015, o prémio Eisner para Melhor Desenhadora e o prémio Harvey para Melhor Arte e Melhor Capa. A paleta de cores, inspirada em videojogos e animes, é predominantemente quente e viva (muitos laranjas, amarelos, verdes e rosa-choque). A criatividade reflete-se quer nos pormenores, quer na elegância com que cria mais seres fantásticos.

O lançamento da edição portuguesa, com a chancela da G. Floy Study, de Saga – Volume quatro, que reúne os comics homónimos #19-24, estava previsto para abril e, embora com atraso, acontecerá ainda este ano.

Samples da capa e de quatro páginas de Saga – Volume Três, disponibilizadas pela G. Floy Studio:

Nota: 9/10

Ficha Técnica

Título: Saga – Volume Dois

Argumento: Brian K. Vaughan

Arte: Fiona Staples

Coordenador: Eric Stephenson

Publisher: Christine Meyer

Editor e Tradutor: José Hartvig de Freitas

Grafismo e Legendagem: Rui Alves

Editora: G. Floy Studio

Páginas: 152

Preço: 10,99€

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