Ao longo da sua história a RTP2 sempre dedicou bastante atenção ao desporto, tendo desempenhado um importante papel no acompanhamento de modalidades ignoradas pelos outros canais abertos. Nos últimos anos, com as limitações orçamentais a que o canal foi sujeito, a oferta de transmissões desportivas reduziu bastante.

A única modalidade cujo campeonato nacional é acompanhado ao longo de toda a época com transmissões em direto é o futsal. O Desporto 2 é preenchido com magazines sobre várias modalidades, embora frequentemente com recurso a repetições de provas disputadas já há longos meses, uma falta de respeito pelo (pouco) público que vê o programa. Apesar destes retrocessos, a RTP tem assegurado os “serviços mínimos” no que a competições internacionais diz respeito, nomeadamente de ciclismo, futsal e hóquei em patins, o que tem rendido boas audiências à RTP2. Este ano nota-se um esforço nessa área, com a aquisição de um pacote de provas de ciclismo da ASO, a organizadora do Tour de France, que nos últimos anos vinham sendo acompanhadas na TVI24 (para além do Eurosport, claro).

Vem este texto a propósito de várias situações ocorridas nas últimas semanas e que me fazem pensar que a RTP poderia fazer mais do que faz. É evidente que a televisão pública está sujeita a limitações de vária ordem e que não dependem apenas dela. Isto leva a que, por exemplo, provas como a Volta ao Algarve em Bicicleta não possam ter a cobertura televisiva que mereciam devido à falta de patrocínios ou apoios de entidades públicas e à impossibilidade de a RTP rentabilizar os avultados custos que a cobertura de uma etapa de ciclismo exige. A não transmissão da Volta ao Algarve é, portanto, indesejável mas compreensível. O que já não é compreensível é que se façam resumos diários de 10 minutos e que estes sejam exibidos na RTP2 às 2h da manhã, como aconteceu na Volta ao Alentejo.

Um outro exemplo ocorreu ao longo da última semana durante o Estoril Open, prova que a RTP acompanha há vários anos, cada vez com uma cobertura mais discreta. Se nos últimos anos a tendência foi a de transferir jogos em direto da RTP2 para a então RTP Informação, este ano, com uma aparente reorientação estratégica da RTP3, a RTP passou a transmitir apenas um jogo em direto no 2.º canal às 15h. O jogo que, nos moldes dos anos anteriores, seria transmitido em direto na RTP3 passou a ser emitido em diferido a altas horas da madrugada na RTP2. Como é evidente, não se pede à RTP2 que cancele toda a sua programação para dedicar o dia inteiro ao ténis, mas que sentido faz remeter jogos para um horário onde praticamente ninguém os vê?

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Outra opção difícil de compreender foi a não-transmissão em direto da final da UEFA Futsal Cup no passado dia 24 de abril. A eliminação do SL Benfica na meia-final ditou que os encarnados disputassem o jogo de 3º e 4º lugares nesse dia 24, que a RTP2 transmitiu em direto. No entanto, a pretexto de não haver equipas portuguesas na final, a RTP2 cancelou na última hora a transmissão em direto do Ugra Yugorsk x Inter Movistar e optou por emiti-lo em diferido à 1h da manhã. À hora em que o jogo seria exibido foi colocada programação repetida que nem 1% de share obteve, números certamente inferiores aos que uma final da UEFA Futsal Cup conseguiria.

Podem parecer casos isolados de má gestão de grelha mas não são, nem sequer são algo exclusivo do desporto. Da mesma forma que não aproveita ao máximo o desporto que tem, a RTP2 também desperdiça séries inéditas no início das madrugadas, como acontece atualmente com 24 e 30 Rock, e até programas nacionais do canal como Portugal 3.0, Cinemax Curtas, No Ar ou Contentor 13 são emitidos a horas vergonhosas.

Provavelmente haverá razões plausíveis que expliquem uma ou outra opção de programação e que desconheço. Mas não posso deixar de estranhar que, num momento em que as suas audiências estão em níveis próximos da completa irrelevância, a RTP2 não queira aproveitar estes momentos em que poderia atrair público que habitualmente não vê o canal. Será intencional?

Miguel Alexandre
Autor convidado