A temporada dos blockbusters aproxima-se e traz consigo um renovado conjunto de heróis e vilões que promete preencher o imaginário pop dos próximos meses. Nem o mais rudimentar dos filmes de ação dispensa as narrativas clássicas do pecado e da culpa, as quais, neste género de cinema, costumam surgir concretizadas num mal exemplar, muitas vezes personificado, que vai assumindo diferentes configurações dependendo da história contada – assassino em série, terrorista, zombie, etc.

Nesta semana recordamos cinco “maus” das suas respetivas fitas que são de tal modo cruéis que chegam mesmo a eclipsar os heróis a eles opostos. Para além das características físicas curiosamente típicas (o Mal é um indivíduo adulto do sexo masculino, Hollywood?), o que une estes vilões que aqui vamos enumerar é a recusa de um modelo de personagem que consiste no mero e necessariamente superável negativo do protagonista honrado e de boa conduta. E outro aspeto comum a todos eles, bem mais evidente: não nos quereríamos cruzar com nenhum destes sujeitos num beco escuro…

Albert Spica – The Cook, The Thief, His Wife & Her Lover (1989)

TheThief

A clássica comédia macabra do cineasta britânico Peter Greenaway tem no seu coração um vilão que dificilmente se esquece: Albert Spica, o odioso dono de um restaurante chique. Símbolo, extremado até à caricatura, de uma burguesia inculta e postiça que não receia recorrer a caminhos fáceis para se impor num meio social severamente competitivo, Spica mantém uma relação abusiva com a sua mulher Georgina, que todas as noites é agredida física e verbalmente diante dos clientes do “Le Hollandais”. Esta personagem poderia reduzir-se a uma indigesta piada de mau gosto, mas não temos como fugir da diabólica interpretação de Michael Gambon, e a nossa curiosidade mórbida impede-nos de desviar o olhar enquanto Spica esmurra e insulta todos os que têm a infelicidade de estar por perto, exercendo a sua retórica de poder e controlo num espetáculo de exibicionismo sádico que é, afinal, a própria condição de “ser vilão” posta a descoberto, satirizada.

Joker – The Dark Knight (2008)

Joker

Por muitas reservas que possamos ter quanto à consistência artística do filme de Christopher Nolan, não recusamos ao excecional Joker de Heath Ledger um lugar nesta lista. O horrível agente da anarquia em The Dark Knight descola-se das suas origens mais “apalhaçadas” da BD e dá uma cara perturbadora ao niilismo do novo milénio, sentimento perverso que surge como resposta à completa indiferença perante a falência das instituições democráticas, financeiras e sociais. Nesta sequela da saga Batman, Joker e o seu amor ao caos estão mais vivos que a fantasmagórica Gotham que vão destruindo, e é isso que verdadeiramente escandaliza o espetador: a violência gratuita e aleatória surge como única solução para o cinismo apático dos tempos em que vivemos. Temos de agradecer este formidável vilão a Heath Ledger, que nele se embrenhou e não pôde regressar.

Lars ThorwaldRear Window (1954)

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Dentro de uma oeuvre tão malvada quanto a de Hitchcock não faltam crimes escabrosos e homicidas carismáticos, pelo que Lars Thorwald, o ambíguo antagonista em Rear Window, poderá parecer uma entrada estranha nesta lista. E, no entanto, é um vilão como nenhum outro na filmografia do incontestável mestre do suspense: aquilo que mais nos assusta neste vizinho, que espiamos com a câmara do fotojornalista L.B Jefferies (James Stewart), é o que ele não mostra, é o que se encontra no domínio do inteiramente não-dito e não-visto. Thorwald começa por ser a fonte e a vítima do nosso fascínio voyeurista, e só muito lentamente revela a sua natureza ruim, até que a incerteza por fim se desfaça no clímax que ensaia um jogo de metaficção – a personagem que “sai do ecrã” (da sua janela) para se confrontar com o espetador passivo (Jefferies e, é claro, nós mesmos). Entre o anónimo vendedor de joias suspeito de ter cometido um homicídio e aquele que, desconfiado, o observa à distância, há uma cortina que se impõe e não permite que a testemunha conheça os pensamentos e justifique as ações deste misterioso homem. Será, talvez, a “cortina” da subjetividade, e Hitchcock, genial, conseguiu filmá-la enquanto outros ainda a teorizavam.

Bobby Peru – Wild At Heart (1990)

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Todas as obras de David Lynch são obscenos contos de fadas povoados por bestas e donzelas em apuros. Wild At Heart, filme que venceu a Palma de Ouro em Cannes e se baseia no homónimo romance neo-noir de Barry Gifford, conta a história de Lulu e Sailor, um jovem casal que é perseguido por criminosos, psicopatas e detetives contratados pela impiedosa mãe de Lulu, que não aprova o namoro da filha. Eventualmente, os amantes conhecem um sinistro gangster chamado Bobby Peru (Willem Dafoe com dentes apodrecidos e uma presença enervante, balouçando do ridículo ao aterrador). Um dos muitos dragões do fantástico lynchiano, Bobby Peru ombreia com o infame vilão de Blue Velvet, Frank Booth, ao apresentar-se também ele como alguém completamente destituído de bússolas morais, um ser repulsivo e de insaciáveis pulsões sexuais, o terror infantil e egoísta do id freudiano. Confirma-se: Lynch diverte-se com os seus monstros mascarados de gente.

Hannibal Lecter – The Silence Of The Lambs (1991)

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Vencedor de cinco Oscars, incluindo os de Melhor Filme, Melhor Ator (para Anthony Hopkins) e Melhor Atriz (para Jodie Foster), The Silence Of The Lambs tem o seu principal vilão na figura de Hannibal Lecter, o psicanalista canibal que é já um marco na cultura pop, tendo inspirado diversas sequelas, romances policiais e séries de televisão. O terror em Hannibal (irrepetível performance de Hopkins) nasce de um contraste: por um lado, a sua eloquência e sofisticação atrai-nos; por outro, quando pressentimos que ele é capaz de sucumbir aos deploráveis apetites de que é acusado, afastamo-nos de imediato. É o mesmo terrível e aparentemente impossível equilíbrio de que George Steiner fala quando dá o exemplo dos oficiais nazis que trabalham em campos de concentração de dia e tocam Schubert à noite. Reconforta-nos pensar que razão e abjeção são inconciliáveis, quando uma e outra vez a História e as histórias (como a deste filme) nos desmentem. Hannibal Lecter, nos seus cordiais, quase amorosos, diálogos com Clarice Starling (Jodie Foster), não deixa margem para dúvidas.