Capitão Fausto, Lux Frágil
Vera Marmelo via Facebook da banda

Capitão Fausto: Se os dias estão contados, os do Lux serão memoráveis

Sempre que os Capitão Fausto lançam um álbum é quase certo que, mais tarde ou mais cedo, acabem a apresentá-lo na sala de concertos da discoteca Lux (isto, para mim, deve ser um acordo que eles lá têm com o João Botelho). Desta vez também não se verificou a exceção à regra mas a verdade é que houve diferenças marcantes.

Desde já, o facto de a banda ter conseguido a proeza de esgotar dois dias seguidos de concertos. Depois, o enorme impacto que o novo álbum Os Capitão Fausto Têm os Dias Contados está a ter desde o momento em que foi lançado, assumindo-se quase indiscutivelmente como o melhor trabalho da banda.

Por volta das 23h30, já com a sala completamente à pinha, as luzes apagam-se e ouve-se Wuthering Heights, de Kate Bush. A banda entra e começa uma hora e meia de concerto com Morro na Praia, que é também a primeira canção do novo álbum. E bastou uma música. Bastou uma para se perceber que as vinte mil linhas que se escreveram nos últimos dias, repetindo incansavelmente o trocadilho de que os meninos Fausto tinham saído das saias da mãe, têm uma razão de ser e uma transposição direta para a realidade.  A banda está mais adulta, mais ensaiada, mais profissional e, sobretudo, com um som muito mais apurado.

A visita ao reportório antigo começou logo de seguida com Célebre Batalha de Formariz, que deu espaço ao primeiro moche (sim, estou a falar a sério) e ao primeiro dos já conhecidos crowd surfings dos membros da banda. Logo de seguida e antes de se voltar ao novo álbum com Dias Contados, ainda se tocou a Litoral.

De resto, estas frequentes visitas ao Gazela e ao Pesar o Sol foram uma das mais assinaláveis qualidades do concerto. A banda soube criar uma setlist tão diversificada como completa na satisfação dos desejos das pessoas. E se é verdade que os três álbuns que os Capitão Fausto nos ofereceram divergem muito entre si em termos sonoros, também é verdade que a banda revelou uma enorme inteligência na forma como criou arranjos que tornaram as dezasseis canções tocadas num todo orgânico que fez sentido e impressionou. De tal forma que, a dada altura, até as canções de Pesar o Sol estavam a ser agradáveis de ouvir.

Assim, a banda foi surpreendendo por tudo. Com os picos de euforia naturalmente causados por canções mais antigas como Supernova ou Zécid e com a não menos calorosa receção a canções novas (que o público já sabia de cor) como Corazón ou Mil e Quinze. No meio de tudo isto houve ainda espaço para improvisações deleitosas e que deixaram bem à vista de todos as cada vez mais apuradas qualidades técnicas da banda. De destacar é ainda o bonito medley entre Santa Ana e Tem de Ser e coro do público para ajudar a banda a cantar Amanhã Tou Melhor, que terminou o concerto antes do retorno dos cinco ao palco.

O encore foi sumária e energicamente despachado com umas barulhentas Maneiras Más, com uma bonita Alvalade Chama Por Mim e com uma muy festiva e dançante Verdade.

Eu não sei se os Capitão Fausto estão mais adultos, se trocaram definitivamente o Bairro Alto por Alvalade ou, sequer, se têm os dias contados. Mas que estão a dar uns concertos do (inserir uma das mais utilizadas palavras do jargão português), lá isso estão.

Imagem: Vera Marmelo, através do Facebook da banda