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Foto: Catarina Veiga

Lourenço Ferreira, um Romeu português à conquista da dança

Romeu e Julieta é um bailado especial para Lourenço Ferreira. Foi a peça que o levou até à Companhia Nacional de Bailado (CNB). Desde que chegou, em 2012, Lourenço tem tido uma evolução que o levou a interpretar papéis principais no último ano. No mês em que se comemora o Dia Mundial da Dança e os 400 anos da morte de William Shakespeare, o bailarino volta a dançar a peça, desta vez como Romeu.

Os placards estão espalhados pela cidade de Lisboa. Duas mãos agarram-se como se quisessem levar a vida do outro consigo. A fotografia é alusiva a uma estreia. Hoje comemora-se o Dia Mundial da Dança e a Companhia Nacional de Bailado apresenta Romeu e Julieta, de Rui Horta.

Nos corredores do Teatro Camões já se sente a estreia a chegar. Os figurinos pretos e justinhos de Ricardo Preto já estão prontos, a música de Bruno Pernadas rematada e a coreografia de Rui Horta pronta para uma nova interpretação da peça escrita por William Shakespeare.

O percurso na Companhia Nacional de Bailado

Em palco está já a Ensemble. O início dá-se com uma martelada do ator Pedro Gil, a peça prossegue com Carla Galvão e alguns excertos de Shakespeare. De dois lados opostos entram os bailarinos da Companhia Nacional de Bailado. De um lado os Montéquio, do outro os Capuleto. Num dos grupos está Lourenço Ferreira, do corpo de baile da CNB, desde 2012.

Pode-se dizer que o seu caminho na companhia começou mesmo nesse palco e com a mesma peça. Tinha 17 anos e estudava na Escola de Dança do Conservatório Nacional. “Foi talvez a produção que levou a Companhia Nacional de Bailado a querer contratar-me”, afirma. A versão que dançou era a de John Cranko, uma versão clássica, bem diferente do Romeu e Julieta, de Rui Horta. “Eles [CNB] gostaram de me ver. Foi uma das peças mais importantes da minha carreira”, garante.

Desde então, tem conquistado o seu lugar na companhia. Teve já um certo destaque no Programa de Homenagem ao Ballet Gulbenkian, onde dançou Treze Gestos de um Corpo, de Olga Roriz, e Minus 16, de Ohad Naharin.

Lourenço Ferreira e Leonor de Jesus, em Minus 16 - Programa de Homenagem ao Ballet Gulbenkian. Foto: Bruno Simão
Lourenço Ferreira e Leonor de Jesus, em Minus 16 – Programa de Homenagem ao Ballet Gulbenkian. Foto: Bruno Simão

Mas para Lourenço, tudo começou com Giselle, há um ano.“A Giselle foi algo prestigiante na carreira. Foi algo de que não estava à espera e tentei aproveitar ao máximo.” Na altura tinha 21 anos e dançou com a também jovem Tatiana Grenkova. “Não foi uma Giselle perfeita, mas viram que tinha qualidade suficiente, segundo o que me disseram”, conta.

Gisele®Pedro Mendes
Giselle. Foto:Pedro Mendes

Logo na abertura da atual temporada, teve outro papel principal, numa peça de Olga Roriz. “O Pedro e Inês foi uma surpresa autêntica, não estava nada à espera”, relembra.

Não passou muito tempo até que interpretasse o Pássaro Azul e o Príncipe em A Bela Adormecida, em dezembro passado. Revela também o aumento da dificuldade técnica de Giselle para A Bela Adormecida. “O primeiro era uma experiência, deram-me a oportunidade de provar e o segundo deram-me oportunidade de tentar estabelecer e provar que não é uma coisa de ocasião”, desabafa.

Desta vez o desafio é bem diferente. A peça de Rui Horta não conta uma história como o Romeu e Julieta que conheceu na escola do Conservatório. “Uma pessoa pensa que o Romeu e Julieta é uma história romântica, mas existe muita desgraça. É muito trágico”, adianta.

Um Romeu e Julieta bem diferente

Esta é a primeira vez que trabalha com o coreógrafo, que assume já conhecer de reportório dançado. Começou a trabalhar na peça depois de ter terminado o Programa Reportório em fevereiro. “É sempre diferente trabalhar com um coreógrafo português, porque sendo português é mais fácil de comunicar. Mas é uma experiência diferente. Todas as experiência têm momentos mais rápidos, mais lentos, mais fáceis, mais difíceis. Neste éramos um grupo grande e foi um processo longo”, revela sobre o tempo de ensaios. Também não esconde o entusiasmo ao trabalhar com Teresa Alves da Silva, que considera uma grande bailarina. Espera ter superado o desafio deste trabalho.

“Como o Rui [Horta] diz, com a tortura o Romeu está a ficar maluco. Enlouquecer é pior que a morte. É uma mistura de emoções”, afirma sobre o seu Romeu

Sendo que neste desafio vai dançar Romeu nos dias os dias 5 de maio às 15h (espetáculo para escolas), 6 às 21h e 8 às 16h. Esta é uma peça onde as personagens não são facilmente identificáveis. Há uma base, que é a história original, mas há apenas indícios. Numa dessas alturas, Lourenço dançará o trio da luta com Tebaldo e Mercúcio. “Como o Rui diz, com a tortura o Romeu está a ficar maluco. Enlouquecer é pior que a morte. É uma mistura de emoções”, afirma sobre o seu Romeu.

Há opostos, mortes, amor e vingança. É através da peça de Shakespeare que se pretende mostrar os problemas da atualidade: conflitos interiores, tortura e violência. Como o fazem? Com movimento. Para Lourenço, são “coisas que são brutas e coisas a explodir dentro do corpo para fora.”

Há em toda a expressividade um movimento particular: haka, uma dança ritual da Nova Zelândia. A dança serve para dar as boas-vindas aos visitantes, em tempos realizado em campos de batalha. Hoje é conhecida como um ritual de intimidação no início dos jogos dos All Blacks, equipa de rugby da Nova Zelândia.

Na passagem deste gesto algo ‘animalesco’ para o público, diz que tem o cuidado de não desrespeitar a tradição e tenta acreditar ao máximo no que está a representar. “Falo por mim, não vou falar por toda a gente, mas espero que toda a gente se sinta assim, tento exprimir e acreditar naquilo ao máximo, colocando medo. Embora seja franzino e magrinho e não meter medo a ninguém”, brinca.

Na preparação para bailarino principal

Neste Romeu e Julieta vai ter uma companhia especial em palco: os músicos. O bailarino tem vários objetivos, sendo um deles ter a oportunidade de dançar certas partituras, de que revela já ter dançado duas: O Pássaro de Fogo e A Sagração da Primavera, de Stravinsky.“Tem de ser estar concentrado e perceber exatamente a partitura porque não é fácil, muda muitas vezes de contagens”, diz o bailarino com o quinto grau de Música no Conservatório. Tem ainda na sua lista: Fauno, de Debussy, e Apolo, de Stravinsky.  Quanto à partitura deste Romeu e Julieta, confessa: “Sinceramente, a adorar, já disse ao Bruno várias vezes.”

Outro dos seus objetivos é dançar em grandes palcos lá fora e chegar a bailarino principal da companhia. “Estou a trabalhar e tentar evoluir para mais tarde ser o bailarino principal como deve ser.”

“É um trabalho contínuo, é como dizem, é fácil chegar, manter é difícil. Temos de estar sempre em forma, que é bastante mais fácil de dizer do que fazer.” Destaca os trabalhos de relevo que teve de fazer e do caminho pela conquista de um mínimo de forma cada vez mais alto.

Além da questão da forma há a atitude. “Eu quero chegar a bailarino principal e ter uma postura de bailarino principal”. Lourenço deseja ser um bailarino principal digno.

Ainda nesta temporada, Lourenço vai estar em Carnaval, de Victor Hugo Pontes. Nunca trabalhou com o coreógrafo e afirma estar pronto para esta nova aventura. “Mais uma nova experiência com um novo coreógrafo, um novo ensaiador, novas músicas, presumo que novo estilo de dança também”, conta.

Por agora, ouve com atenção as indicações que Rui Horta tem de dar antes da estreia. Tem sido nesta preparação que encontrado a sua evolução crescente na companhia. “Depois para o ano não sei como vai ser, mas espero que seja uma boa bola de neve e continue a melhorar e a fazer coisas. Espero que sim.”

Como ver

Romeu e Julieta pode ser visto até 15 de maio, de quinta a sábado, às 21h e domingos, às 16h, no Teatro Camões. O espetáculo também vai estar no Teatro Nacional D. Maria II de 14 a 23 de julho, enquadrado no festival Glorioso Verão, dedicado a William Shakespeare. O preço do bilhete varia entre os 5 e os 30 euros. Consulta mais informações, aqui.

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