“Hollywood, tens cá disto?”: Os Verdes Anos (1963)

“Hollywood, tens cá disto?”: Jaime (1974)

Jaime, curta-metragem de 1974, estabeleceu-se como uma das peças documentais que encabeçou o movimento vanguardista do Novo Cinema português. O nome do filme advém do da sua personagem de análise: Jaime Fernandes, camponês nascido na Beira Baixa e que foi internado no Hospital Miguel Bombarda, vítima de esquizofrenia. Foi aí que começou a pintar até parar em 1967, data da sua morte. Realizada por António Reis (e também pela sua mulher, Margarida Cordeiro), foi esta a película que elevou o nome do poeta como realizador. Será que com razão?

É difícil encontrar palavras para descrever esta obra. Tem uma aura especial que prende o espectador até ao seu fim. Não possui uma história linear ou uma narrativa concreta, no entanto é puramente cativante. Todo o documentário é uma montagem de planos sucessiva genial, planos esses que por si só constituem o motor que faz avançar a película. Observamos o hospital, um local vazio e em tons sépia no qual os poucos pacientes são meras sombras de um outrora alguém. Vemos a natureza, que tem tanto de belo como de assustador. Ambos estes espaços da vida de Jaime se encontram ligados pelas pinturas macabras do próprio, que têm uma estreita ligação com as palavras incompreensíveis que o mesmo escrevia. Sons ruidosos, pouco perceptíveis e perturbadores são audíveis durante todo o filme, imergindo ainda mais o espectador na fotografia fantástica que se encontra perante dele e atribuindo um novo significado àquilo que é observado. Todos estes elementos no seu conjunto remetem a um arrebatador sentimento de solidão. A solidão do espaço, a solidão da pintura, a solidão de Jaime e a solidão de quem se encontra a ver o filme. Mas essa solidão é imensamente bela, talvez até libertadora daquilo que é o real, passando para o plano de um imaginário que qualquer um pretende alcançar.

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Jaime conta não uma história, mas sim uma vida. No entanto, não podemos encarar esta curta metragem como a representação da vida de Jaime, mas sim como a representação da sua mente. Ao vê-la o espectador não se sente como alguém exterior, sente-se na pele do próprio Jaime. Entramos no mundo deste, um mundo em que as pinturas são um reflexo das suas vivências ou então do seu imaginário. Como disse o mesmo: “Há fotografias de nitidez, estas são obscuras, feitas por mim conforme a minha vontade“.

Se no inicio o espectador é confrontado com a palavra escrita de Jaime “Ninguém, só eu!“, no final pensa: “Ninguém, só nós“.

Ficha Técnica:
Realizador: António Reis e Margarida Cordeiro
Argumento:António Reis e Margarida Cordeiro
Duração: 33 minutos

8/10

Hollywood, tens cá disto? promete trazer, mensalmente, até nós aquilo que só Portugal nos dá: o Cinema Português. Não que de Hollywood não cheguem muitos títulos de qualidade, mas de Portugal, ao longo das décadas, têm sido muitos os grandes filmes de que pouco se fala. Esta é a rubrica certa para se falar deles.

 

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