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Beyoncé serve limonada… agridoce

O ano era 2003 e Beyoncé – recentemente emancipada das Destiny’s Child – lançava a sua primeira música a solo: Crazy In Love, com a participação do rapper Jay Z. Desde então, o  jovem casal manteve uma relativa discrição e durante anos se especulou se existiria entre os músicos uma relação íntima e amorosa.

As referências eram implícitas e pontuaram a discografia dos artistas durante a primeira década dos anos 2000. O casal – que escolhia ser críptico sobre a natureza do seu relacionamento – fazia, no entanto, aparições públicas pouco subtis. Recordemos-nos da passadeira vermelha dos MTV Video Music Awards, em 2004, onde surgiram com uma infeliz combinação de indumentária.

O duo uniu-se numa cerimónia privada em 2008. Em 2010, Beyoncé optou por fazer um hiato na sua carreira para se focar na família, alimentando rumores de uma possível gravidez. Gravidez confirmada em palco um ano depois, durante os MTV Video Music Awards, onde Beyoncé terminou a atuação de Love On Top com o acariciar da sua barriga. A filha dos Carter, Blue Ivy, nasceu no início de 2012.

Apesar dos rumores de separação, o power couple sempre pareceu resistir às pressões da indústria. Em 2014, no rescaldo da Met Gala, Jay Z e a irmã de Beyoncé – Solange Knowles – foram captados pela videovigilância de um elevador no momento em que Knowles atacou o cunhado. O incidente incendiou as conspirações que Beyoncé e Jay Z estariam perto do divórcio.

No remix de Flawless – com Nicki Minaj – Beyoncé respondeu com a icónica letra: “Of course sometimes shit go down when it’s a billion dollars on an elevator” e ainda acrescentou, sobre o marido, “my man made feel so God damn fine“.

Lemonade, o sexto disco da cantora, é um projeto conceptual sobre um casamento em crise. Narra o trajeto – pessoal mas universal – de uma mulher traída pelo amante. Um caminho de dor, decepção e raiva que, no entanto, culmina num lugar de amor e esperança. A história marca uma mudança no posicionamento da artista face à sua vida privada e provocou reações na sua fiel colmeia de fãs, que rapidamente apontou os ferrões a Jay Z – considerando-o autor do adultério.

O disco é uma coleção sonicamente eclética que se recusa a encaixar em géneros mas que pede emprestados elementos do rock dos anos 70 – na parceria com Jack White Don’t Hurt Yourself – e do country e jazz em Daddy Lessons. Transversalmente, é um disco que não tenciona encaixar-se nos ganchos e moldes da música pop e será interessante acompanhar a sua longevidade, quando o hype inicial esmorecer. Considerando que todas as músicas tiveram já tratamento visual, no mini-filme que acompanha o álbum, é possível que Beyoncé abandone os mecanismos normais de distribuição e opte pelo não lançamento de singles promocionais.

Poucos seriam os candidatos para assumirem esse papel: 6 Inch, com The Weeknd, seria , quiçá, a opção mais comercial da coleção. Formation, excluída para o final do disco, e o seu som enraizado no hip hop são ingredientes estranhos na mistura, contrastando com o sabor intemporal dos primeiros.

Lemonade tem sido associado a grandes discos-testamento que marcaram a carreira de lendas do pop: como Thriller de Michael Jackson ou Like a Prayer de Madonna. Foram álbuns que aliaram o apelo comercial a um estrondoso impacto cultural. Em Lemonade, Beyoncé canta numa voz ácida, política e sempre feminista – mas será digna de ser colocada na mesma esfera lendária? O sismo cultural provocou-o, mas conseguirá manter o sucesso uma artista que progressivamente se aliena das suas contemporâneas?

Como qualquer arte, também Lemonade deve ser olhado com um olhar crítico e consciente de que, embora íntima, a narrativa é uma criação algo artificial de experiências – que embora possam ser verdadeiras – são também, em parte, desonestas. Vale a pena lembrar que o disco foi lançado em exclusivo no Tidal, plataforma de streaming de que Jay Z é acionista, e que o rapper acompanhou ontem (27 de abril), na primeira fila, o arrancar da digressão The Formation World Tour, em Miami.

Portanto, é ingénuo acreditar que foi um ato de completa ousadia Beyoncé expor a suposta infidelidade do marido. A receita de limonada de Beyoncé é, por isso, parte sumo fresco e parte concentrado. A Page Six, secção do New York Post, reportou em exclusivo que o fio condutor de Lemonade terá sido elaborado em conjunto pelos Carter e que a infidelidade esteja a ser utilizada estrategicamente como ferramenta para criar buzz, para obtenção de subscritores no Tidal e para aumento de vendas.

A estratégia pode resultar. A Billboard prevê que o disco venda 450 mil cópias na América, durante a primeira semana, o que pode catapultar o álbum para uma estreia no primeiro lugar dos discos mais vendidos.

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