Capitão América: Guerra Civil é a sequela directa de Soldado de Inverno e Idade de Ultron – os últimos dois blockbusters lançados pela Marvel Studios – e foca-se, essencialmente, na conturbada luta de egos entre Steve Rogers e Tony Stark. Apesar do título do filme nos remeter, imediatamente, para um dos arcos mais interessantes com que a Marvel nos presentou, assim que chegamos à primeira meia hora, percebe-se claramente que os interesses são outros. Na verdade, Guerra Civil serve de mote para o tal choque de personalidades dos dois alfa males do universo cinemático mas distancia-se, bastante, do livro de banda desenhada com o mesmo nome. Não que isto seja um factor negativo (antes pelo contrário) mas quem esperava uma adaptação fidedigna da história criada por Mark Miller em 2006 pode ficar, visivelmente, desapontado.

Esta perspectiva dos dois realizadores (Anthony e Joe) não deixa, no entanto, de ser bastante ambiciosa tendo em conta as limitações que o universo cinemático da Marvel apresenta, mesmo após mais de cinco anos de actividade. Visto que a Marvel não detêm, ainda, na totalidade os direitos de imagem de todos os super-heróis e ainda não ter recuperado algumas franchises importantes (como os X-Men que continuam nas mãos da Century Fox), os dois realizadores sabiam que tinham uma tarefa árdua pela frente mas conseguiram, de algum modo, juntar as peças soltas com um enredo interessante até para quem não é fã de super-heróis.

Sabendo que a autoridade e legitimidade dos Vingadores está cada vez mais sobre cheque – face ao número crescente de vítimas civis durante a maior parte das missões/conflitos – Thaddeus Ross, o Secretário de Estado dos E.U.A, reúne a equipa de super-heróis e tenta chegar a uma possível solução: é apresentada, a cada um dos elementos, uma proposta que visa o controlo total das Nações Unidas sobre as acções dos Vingadores. Isto significa que esta organização é que decide quando, onde e porquê é que este grupo deve entrar em acção. Naturalmente, nem todos recebem as notícias com grande entusiasmo e formam-se duas facções dentro da equipa: Tony Stark assume-se como o líder da facção que apoia esta decisão enquanto que, Steve Rogers defende, veemente, o contrário. Enquanto tudo isto acontece, Bucky Barnes, também conhecido por Soldado de Inverno, é acusado de um atentado terrorista e torna-se o principal alvo das forças militares espalhadas pelo mundo.

Homem-Aranha

Capitão América: Guerra Civil possui, indubitavelmente, o maior roster alguma vez visto num filme de super-heróis e compensa as ausências de peso (especialmente dos Fantastic Four) em relação ao mesmo arco dos quadradinhos com a introdução de T’challa, também conhecido por Pantera Negra, e o já conhecido Homem-Aranha. Se o primeiro herói é exemplarmente interpretado pelo jovem Chawick Boseman, o mesmo se pode dizer do reboot, bastante esperada por todos, em relação ao aracnídeo. Na verdade, Tom Holland veste, brilhantemente, a pele de um Peter Parker na flor da juventude e bastante entusiasmado por poder participar numa luta que não é a sua (este é recrutado por Tony Stark), o que leva o espectador a pensar que a Marvel acertou, finalmente, na representação do Spidey no grande ecrã. Este “novo” Homem-Aranha é fantástico e não serve, apenas, como um cameo de pequena duração. Tom Holland adaptou a visão mais sarcástica e juvenil de Peter Parker na perfeição, o que significa que os fãs do herói podem, finalmente, suspirar de alívio, visto que o personagem está nas mãos certas – a performance do ator é tão boa que nos deixa ansiosos para a próxima aventura do Spidey no cinema.

No que diz respeito ao resto do elenco, há pequenos cameos que acrescentam um comic relief leve quando o enredo assim o pede – especialmente Paul Rudd – mas nota-se, mais uma vez, que falta, claramente, um vilão suficientemente bom que não se deixe ofuscar pela equipa de super-heróis. Este continua a ser o problema principal dos filmes da Marvel, visto que nunca sentimos, verdadeiramente, que os Avengers estão em perigo. E apesar de existirem diversos maus da fita neste filme, nenhum é explorado o suficiente para poder causar qualquer tipo de receio no espectador, algo que é feito, brilhantemente, na primeira temporada da série televisiva Daredevil.

Com um elenco vasto de heróis e vilões, seria de esperar que esta adaptação acabasse por ficar aquém das expectativas, mas os irmãos Russo escolheram, tal como no Soldado de Inverno, focar-se numa história de espionagem política mais coesa e interessante que a visão mais infantil de Joss Whedon, o que se traduz, automaticamente, num passo superior em relação ao desapontante Idade de Ultron. Tal como o filme promete há ainda espaço para o embate entre o Capitão América e Homem de Ferro mas o sumo principal deste filme não é esta luta de titãs. Isso está reservado para a dinâmica e backstory que foi criado para introduzir o eventual conflito. O eventual destaque recai nas fantásticas cenas de acção filmadas pelos dois realizadores que, mais uma vez, assumem-se como verdadeiros peixes dentro de água. Ninguém, dentro do ramo, sabe criar setpieces tão desenvolvidas e interessantes como os irmãos Russo – a cena do aeroporto, tal como era prometido pelos trailers promocionais, é um um dos melhores pontos de destaque dos filmes da Marvel até à actualidade.

Civil WarO problema é que, mesmo apesar de uma abordagem mais arriscada e menos colorida da Marvel, fica sempre a sensação que tudo isto já foi experienciado anteriormente. Ironicamente, a ambição que originou a fornalha de filmes criados pelo universo cinemático pelos estúdios da Marvel abriu as portas para todo o género de adaptações (que vão desde o Homem-Formiga ao Doutor Estranho) e está a tornar-se bastante cansativa. O interesse do espectador perdeu-se após tantos filmes diferentes, o que resulta numa incapacidade de acompanhar, com o mesmo entusiasmo inicial, as peripécias dos Vingadores & lda no ecrã de cinema. Este sentimento agrava-se, ainda mais, quando mais uma vez os argumentistas optam por não introduzir um soco no estômago suficientemente forte para deixar os fãs atordoados. Após tantos anos, já se começa a notar a idade destes personagens e é crucial que a Marvel comece a pensar num plano para renovar os nomes que vão aparecendo nos posters das adaptações de quadradinhos.

Em suma, tal como em Soldado de Inverno, os Irmãos Russo provam, mais uma vez, que são os melhores realizadores possíveis para adaptar as histórias de quadradinhos, não só pelas técnicas visuais que empregam (especialmente nas cenas de luta) como também na criação de um fio sólido que explora cada uma das personagens e desenvolve um enredo, minimamente, interessante para um filme deste calibre. Esta abordagem mais séria (apesar da existência de momentos leves e subtis de humor bem executados) tornam este filme na adaptação mais ambiciosa e bem estruturada da Marvel até à data.

8/10

Ficha Técnica
Título: Captain America: Civil War
Realizador:   Anthony Russo, Joe Russo
Argumento: Christopher Markus, Stephen McFeely
Com: Chris Evans, Robert Downey Jr, Scarlett Johansson, Sebastian Stan, Anthony Mackie, Paul Rudd, Chadwick Boseman, Don Cheadle, Tom Holland, Marisa Tomei
Género: Ação, Aventura, Ficção Científica
Duração: 2h27 minutos

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945