Abril é mês de celebrações. Shakespeare, Cervantes e Graham. Como seria de esperar, o Apsarases deste mês é dedicado a este grande nome da dança. A peça escolhida não pertence aos primeiros anos da companhia, no entanto Chronicle é uma das suas peças mais marcantes e de maior relevo.

New York’s Guild Theatre, 20 de dezembro de 1936, um novo espetáculo da Companhia de Dança Martha Graham estreia nessa noite. Chronicle, um espetáculo crítico e controverso onde as grandes questões político-sociais são exploradas.

Neste ano a companhia de Martha Graham ainda só tinha mulheres. Mulheres estas que contavam uma história, que se sacrificavam em palco, que tinham a força para se afirmarem, o poder de efetivamente mudar a história das artes. Eram mulheres em palco a mostrar uma realidade, a dar voz a quem não a tinha, a tomar uma posição e a exigir uma mudança.

Vê aqui o percurso dos 90 anos da Companhia Martha Graham 

 

PeiJu Chien-Pott em Spectre -1914, primeira parte de Chronicle. Fotografia: Brigid Pierce

PeiJu Chien-Pott em Specter -1914, primeira parte de Chronicle. Fotografia: Brigid Pierce

Dos 181 trabalhos de Martha Graham a escolha de Chronicle não foi um mero acaso. Além de ser uma das peças onde a sua técnica e o desenho coreográfico estão muito definidas, esta obra tem um significado e uma importância especial não apenas para o mundo artístico, mas para a sociedade em geral.Em 1936, o mundo conhecia os horrores da Guerra Civil Espanhola; apesar do Nazismo, Berlim era palco dos Jogos olímpicos e Martha Graham recusou-se a fazer parte dos espetáculos que Hitler idealizou para mostrar a harmonia entre os vários países do mundo.

Nos Estados Unidos, a população ainda sofria os efeitos do crash da Bolsa de 1929, e Graham não consiga manter-se calada, não conseguia deixar de se influenciar no clima instável e miserável da sociedade. É com base nestes três momentos da história que surgiu Chronicle, uma peça escura onde o isolamento, a depressão e desolação são os sentimentos mais explorados. Mas Graham queria apelar a algo, queria uma mudança e após o período negro e sanguinário certamente que aparecia um período de esperança trazido pela ação conjunta de todos.

Sob o cenário de Isamu Noguchi, Chronicle divide-se em três partes. Specter 1914 é um solo, originalmente interpretado por Graham, onde a bailarina e o palco fazem parte de um só corpo. Num longo vestido negro, o corpo liga-se à terra, é uma dança do próprio figuro negro onde o forro vermelho sangue se salienta e salta como dos corpos feridos na guerra. Na segunda parte, Steps in the Street, doze mulheres de negro saem à rua para saltar e correr num sincronismo incrível. Há um apelo emocional à força de um grupo que se move como um todo. Há algo que as torna um todo, uma identidade de um grupo unido e cúmplice. Um grupo de mulheres que luta pela sobrevivência, estando todas na mesma condição.

Prelude to Action é a peça final, onde a bailarina solista regressa num vestido branco e efetivamente toma uma atitude. É o motor da diferença e da mudança, apoiando-se nos pares e na massa para conseguir avançar.

Steps in the Street, Companhia de Dança Martha Graham

Chronicle é um grito de revolta, uma chamada de atenção para uma realidade tão próxima. A arte é um reflexo do mundo e tem efeito não apenas em quem a produz, mas igualmente em quem a absorve. Chronicle é igualmente contemporâneo aos nossos dias. Oitenta anos passaram e são vários os problemas económicos do mundo. Guerras, desastres naturais e terrorismo espalham o horror e o medo. O cenário do caos está instalado e cada vez mais a possibilidade de uma III Guerra Mundial se torna mais plausível.

Chronicle é um apelo, um pedido de reação e de movimento. É uma tomada de posição política, em que face aos problemas um conjunto de indivíduos similares podem fazer surgir a esperança e o movimento do meio da sua união. É a arte como força de expressão. É um exemplo de como a cultura pode ser a base fundamental e estruturante de uma sociedade culturalmente crítica e bem formada.