Estreou hoje o primeiro de 100 episódios previstos para a nova série infantojuvenil da TVI. Depois do fracasso de Doida Por Ti e I Love It, Massa Fresca vem tentar fazer sucesso no horário anteriormente ocupado por Morangos Com Açúcar. Terá os ingredientes na medida certa ou será uma receita antiquada? Atenção: este artigo contém spoilers.

Massa Fresca traz de volta a ficção nacional ao horário das 19 horas na TVI. Esta tentativa falhou com Doida Por Ti e I Love It muito por causa de uma fraca história, apesar dos reconhecidos atores e personagens irreverentes e com potencial. Analisemos, então, a trama de Massa Fresca.

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massa fresca

Maria Miguel (Mafalda Marafusta). Fotografia: Divulgação.

A história desenrola-se em torno da vida de Maria Miguel (Mafalda Marafusta) que tem 21 anos e vive em casa da Avó Miquinhas (Catarina Avelar), num programa de combate ao isolamento da terceira idade. A mãe morreu vítima de cancro e Maria viu-se obrigada a deixar os estudos e os sonhos para trabalhar e pagar a clínica privada da mãe. Atualmente, ainda vive com a dívida emocional e financeira desta situação.

A história muda quando Maria Miguel se cruza com a família Elias, uma família abastada com cinco crianças entre os 5 e os 17 anos. Subitamente, Maria ficará responsável por tomar conta da família, com a morte dos pais Elias. Terá o apoio das empregadas e dos restantes familiares. Neste momento, Massa Fresca tem tudo para se tornar numa Floribella.

As temáticas abordadas nesta história são variadas e atuais, como é habitual. A existência de um vasto elenco juvenil promove assuntos como o uso excessivo de tecnologia (“Pobres dos ricos que tanto têm”?) e o enfoque exagerado dado à obtenção de resultados na educação.

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Família Elias. Fotografia: Divulgação.

Além disso, já no primeiro episódio, vê-se a preocupação na promoção do vegetarianismo e da alimentação saudável. Com a personagem de Teresinha (Maria Eduarda) aborda-se, ainda, os problemas e limitações da doença Xerodermia Pigmentosa, que a torna vulnerável a radiações ultravioleta.

Quanto à produção, há algo que aborrece: a demasiada colocação de produto (product placement). Isto é, a série era para se chamar Quatro Estações, por ser o nome da pizzaria onde a protagonista trabalha, mas com o patrocínio de uma cadeia de restaurantes mudou-se para Massa Fresca. Até porque designar uma série com o nome de uma marca seria perigoso.

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O nome da série não transmite o posicionamento, nem o enredo do programa. Pelo menos, no que se prevê a partir do primeiro episódio. Haveria, certamente, opções melhores e mais relacionáveis com a história de Maria. Além da mudança do nome, vemos o logótipo da referida marca em demasiados momentos do episódio.

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Fotografia: Divulgação.

Focando agora exclusivamente o primeiro episódio: foi bom. Seguiu a tendência de apenas mostrar as personagens centrais para não confundir o telespectador (especialmente tendo em conta que o público-alvo são as crianças e os jovens). Contudo, não revelou demais da história ao ponto de se sentir que se está a perder o fio à meada.

O momento do atropelamento, no final do episódio, foi demorado. Esse aspeto retirou algum realismo e imprevisibilidade à grande cena dramática. Porém, os efeitos foram bem aplicados e o momento de suspense foi conseguido.

Como aspetos positivos, destaco duas cenas, protagonizadas por Mafalda Marafusta: as negociações da dívida relativa ao tratamento da mãe de Maria com o representante da administração da clínica privada e a analepse a um momento entre mãe e filha, no hospital. Estes dois momentos foram cruciais para desenvolver uma opinião sobre o desempenho da atriz, muito versátil e completo.

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Ruben Valle. Fotografia: L’Agence.

Outro ator que não posso deixar de destacar é Ruben Valle. O ator e YouTuber participou em vários projetos independentes (Ruas Rivais ou O Discípulo, por exemplo), conciliados com a sua formação ao longo da sua carreira. Ver a TVI a apostar num jovem talentoso que perseguiu o seu sonho de forma independente é de louvar. Até porque o seu talento e dedicação são evidentes.

Aliás, também Francisco Soares (Kiko is Hot), Ana Correia (Peperan), Soraia Carrega (Djubsu) e Fábio Lopes (Conguito) participam na novela, mostrando a crescente presença do YouTube em Portugal.

O que me faz querer ver Massa Fresca é o facto deste enorme potencial ainda estar no limbo. Tem tudo para correr bem, mas também o tem para correr mal. Aliás, para além das semelhanças com Floribela, se a história for fraca, pode acontecer o mesmo que aconteceu a I Love It, apesar das personagens ricas.

Com a direção de Hugo de Sousa (responsável por Morangos Com Açúcar, mas também por outras telenovelas de horário nobre), penso que se evitará a comparação com o formato e história de Floribella.

A história ainda se vai desenvolver num triângulo amoroso e pode gerar mais interesse com a presença do restante elenco. Gostava de ver um bom núcleo cómico e uma história que vá para um bom porto e que não se limite a usar ingredientes fora do prazo.

Será que Massa Fresca vai inovar ou vai aquecer o jantar de ontem? Todas estas incógnitas serão decifradas nos próximos episódios e veremos como se desenvolve a intriga após o conceito forte de onde parte. Independentemente disso, Massa Fresca poderá conseguir singrar no seu público-alvo. Contudo, teria, certamente, mais valor se o fizesse com uma história robusta.

Se não viste o primeiro episódio, podes fazê-lo aqui.