Quarto dia de IndieLisboa e novas temáticas abordadas. Desde um documentário sobre o outro lado do Louisiana – talvez um lado não muito bonito e por isso mesmo mantido fora dos olhares curiosos até hoje – até à ficção thriller sobre um assassino em série brasileiro. Um dia forte em emoções e em diferentes perspectivas do mundo que nos rodeia.

A sessão 4 de curtas-metragens na competição internacional é, talvez até agora, a menos coesa. Sem quaisquer interligações ou temática a fluir da ligação das mesmas, só a curta inicial e as duas finais é que despertaram verdadeiramente a atenção do espectador, acabando pois com um trabalho genialmente irónico e sinceramente engraçado.

Captura de ecrã 2016-04-24, às 12.53.05

Louisiana (The Other Side) – 7/10

louisiana-the-other-side-2015-roberto-minervini-e1432714704388Este é um retrato a que estamos pouco habituados de uma América tão genuína quanto assustadora. É a realidade filmada pela lente de Roberto Minervini, nascido em Itália mas radicado nos Estados Unidos, que nos denuncia casos de extrema pobreza, toxicodependência, preconceito e intolerância.

O documentário é uma boa surpresa na programação do IndieLisboa, este ano repleta de filmes do mesmo género. É filmado com destreza e coragem e resulta depois numa íntima e bonita fotografia. As cores, as sombras, os close-ups e os planos afastados, tudo ajuda a criar uma tal ambiência que nos transporta, a nós espectadores, para o Louisiana que Minervini nos quer mostrar.

É no entanto no final que o documentário perde um pouco a vitalidade e se acaba por arrastar. Há um problema grave neste filme em termos de montagem e, consequentemente de ritmo, ou antes da perda de ritmo. Os minutos finais parecem quase deslocados e não existe um balanço entre as histórias que Minervini nos quer apresentar. Há um despegar do ponto de foque Mark e um esquecimento desta linha da narrativa, mas para piorar, há uma substituição pela história dos veteranos de guerra, que chega até nós deslocada.

 

Mate-me Por Favor – 8/10

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Talvez uma das grandes surpresas deste ano na secção competitiva de longas-metragens internacionais é este Mate-me Por Favor de Anita Rocha da Silveira, ela que teve na sala para apresentar a sua primeira longa ao público português. Um filme que aborda a temática do liceu (o mítico high school americano que já proporcionou tantos filmes, principalmente na década de 90) e que junta a isto um assassino em série que vem dar aos novíssimos, brancos e aparentemente perfeitos complexos de habitação da Barra da Tijuca uma aura muito mais perigosa e mística.

É nesta criação da ambiência que o filme de Silveira brilha, na sua fotografia que se alia ao forte poder do argumento que nunca deixa de lado o seu toque mais misterioso. Silveira cria aqui com excelência, através então da correlação entre argumento/fotografia, um mundo quase distópico nesta Barra da Tijuca onde as personagens principais vão pairando num eterno limbo, balançando entre o medo, a crença, a futilidade e as hormonas.

E por falar em hormonas, há aqui um excelente executar da temática do liceu e um abrir portas ao mundo dos adolescentes da classe média brasileira. Este tema equilibra-se deliciosamente com o denso progredir do suspense e dá-nos talvez os momentos mais cómicos e as paródias mais implacáveis de toda a película, como a da cantora pop ultra católica que serve também como uma mensageira da palavra do Senhor às camadas jovens da cidade.

Mate-me Por Favor é assim um fortíssimo primeiro trabalho de alguém que ainda tem muito para dar. Um forte argumento que se alia a uma forte componente técnica e visual, criando talvez os planos mais bonitos vistos até agora nos ecrãs do IndieLisboa (desde o contraste desterro/complexos brancos até à beleza da morte nos close-ups nos corpos das vítimas). É um filme que acaba também em excelência e que conta com um conjunto bastante forte de performances.