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Factuz e Weelz: um serão de hip hop no Copenhagen

Um dos mais valiosos ensinamentos que as repetidas visitas à noite lisboeta podem oferecer é o de que os lugares mais improváveis escondem, não raro, as mais agradáveis surpresas.

Não tanto as mais esplendorosas ou magnânimas como aquelas que, precisamente pela sua pequenez, acabam por carregar um encanto desproporcional. E mesmo que, neste caso em específico, o recinto não fosse completamente alheio ao conteúdo, foi uma destas surpresas que encontraram aqueles que se dirigiram ao Copenhagen, na quarta-feira, para assistir ao modesto showcase que deram os irmãos Factuz e Weelz.

A sugestão do anonimato não é difamatória: não caberiam mais do que meia centena de pessoas no apertado espaço do Copenhagen para assistir ao concerto dos jovens rappers emergentes de S. João do Estoril, o primeiro de nome feito nos círculos da Liga Knockout e o segundo acumulando mixtapes independentes no YouTube e no Soundcloud.

Não se confunda, no entanto, a falta de mediatização com a de vontade já que, à revelia da tenra idade (Weelz tem 20 anos, Factuz apenas 16), os dois fizeram tudo para proporcionar uma contagiante experiência aos que os vieram apoiar. Cada um com seus trejeitos e qualidades próprias, brilhavam mais quando cantavam juntos, completando-se a cada rima que partilhavam e demonstrando uma admirável união nos momentos que facilmente poderiam desembocar em conflito.

Apresentavam, de facto, qualidades invejáveis que os distinguiam dos MCs que surgem todos os dias de cada esquina: um flow sólido, em cima do beat e raramente fraquejante; manifesta estratégia nas influências que congregaram à mente do espectador (homenageavam Kanye West e Nas com uma mão enquanto se agarravam ao legado de Sam the Kid ou Dillaz com a outra); e, mais relevantemente, um repúdio visceral pela vulgaridade que por todos os lados pulula as letras do hip hop português.

É certo, não tinham nenhuma grande mensagem para partilhar com o mundo, falavam do que sabem e do que conhecem. Mas faziam-no com tal assertividade, rodeando-se de vivas aliterações e uma honestidade cabal, que não há como não encarar a sua escrita e entrega de barras como uma potencial promessa para o futuro.

Para além dos temas em conjunto, que iam intercalando com instâncias individuais de cada um deles, Weelz e Factuz convidaram companheiros de caminhada para dividir com eles o palco, que não era mais que o mesmo chão que pisava o público que os rodeava. Amaro foi o primeiro, trazendo uma corrente de rap mais cantado que outra coisa e o habitual beat de trap, ao qual se seguiram Ozz e Mary – o primeiro, virtuoso produtor além de MC, fazendo surpreendentemente boa figura nas intervenções entre os irmãos; a segunda, sempre afinadíssima nos acompanhamentos vocais, trazendo bastante cor e vivacidade aos versos de Factuz e Weelz. E foi com estas cartadas que o clima se ia acalentando dentro do Copenhagen, com amigos dos músicos de entre o público a gritar elogios e a filmar, como que orgulhosamente, as valentes incursões do duo.

Talvez tenha sido esta componente de microcosmos familiar a maior das virtudes de um concerto que, publicitado (erradamente) como “Factuz convida Weelz…”, viveu afinal da comunhão de dois irmãos que se conhecem como tal, e que sob a ribalta souberam retirar um do outro apenas as mais apelativas qualidades. Alguns problemas de som e mistura e o ocasional tropeço não serviram para manchar a impressão de um combo que usufrui da jovialidade de uma potencial carreira pela frente e, ao mesmo tempo, do luxo de não ter, a esta altura, muito a perder, mesmo que mais para a frente a coisa dê para o torto. Afinal, como os próprios fazem questão de apontar, só se estraga uma casa.

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