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IndieLisboa’16: distante Cairo

No segundo dia do festival o grande destaque da programação vai, inevitavelmente, para a estreia nacional da curta-metragem de Leonor Teles,  Balada de um Batráquio, filme que ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim 2016.

A inaugurar a competição de curtas-metragens internacionais estava uma sala cheia no Pequeno Auditório da Culturgest. Enchente muito motivada talvez pela estreia do filme de Teles que, depois de passar por Berlim e Hong Kong, chega a Portugal pelas mãos do IndieLisboa. A realizadora compareceu na sessão e depois de uma Q&A com o público convidou o mesmo a, à moda do filme, partir sapos de loiça, deixando a entrada da Culturgest cheia de cacos de loiça verde enquanto conversas de apreciação eram soltas.

Sessão de Curtas Internacional 1:

Captura de ecrã 2016-04-22, às 23.27.55

In the last days of the city – 7.5/10tamer-el-said-in-the-last-days-of-the-city

Uma dedicatória de amor e ódio a uma cidade ruidosa e vibrante por parte de Tamer El Said, um filme num tom quase auto-biográfico que acompanha as dificuldades criativas de um cineasta que tenta perceber  a essência de uma cidade que o desilude, mas deslumbra, que o encanta, mas assusta e que vive numa constante mutação diária. A essência procurada é talvez ilusória, mas o retrato de uma cidade à beira de um colapso social é completamente transmitida.

Talvez o maior feito desta película, que esteve presente na selecção oficial do Festival de Berlim este ano, é o de rebentar a bolha em que vivemos no mundo ocidental, ao nos oferecer o retrato da rotina, do dia-a-dia, das comodidades, dificuldades e fatalidades de um conjunto de cidades completamente destruídas pela guerra e o terrorismo. Este Cairo é aqui o porto seguro de um grupo de cineastas oriundos das mais diferentes capitais do médio oriente, como Beirute e Baghdad, e para a audiência é o despertar da consciência quando é deparado com a visão de Cairo como uma cidade segura.

Além de todas as suas falhas narrativas e talvez não a melhor interpretação por parte de Khalid, personagem e ator principal, o filme de El Said é de facto importante e ricamente explorado ao nível de uma vibrante cidade que é tão rica em contrariedades, ruidosa e vivendo para sempre num estado semelhante ao de inércia. Conhecemos aqui uma Cairo diferente da dos dias de hoje e, infelizmente, todos nós sabemos mais histórias da capital egípcia e do tumulto social que se vai fazendo adivinhar no filme, algo bem captado pela lente de El Said desde 2009 – ano em que iniciou este projecto.

Não sendo contudo um filme memorável nem perfeito, In the last days of the city é um filme testemunho, um réquiem, uma homenagem e uma carta aberta ao mundo sobre o pulsar de uma cidade que, ao fim de contas, é o pulsar amargurado de todo um país, povo e, talvez, região.

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