De Manfred Karge, A Conquista do Pólo Sul chegou ao palco do São Luiz com encenação de Beatriz Batarda e tradução de Helena Topa. Em palco desde o passado dia 7 de abril, a conquista acontece no São Luiz até domingo, dia 24, e depois passará por Ovar, Guimarães, Matosinhos e São Miguel.

A história da conquista

A Conquista do Pólo Sul foi escrita em 1986, pelo dramaturgo alemão Manfred Karge. Trinta anos depois, o texto resiste e toca de uma forma muito especial em questões caracterizantes da nossa sociedade. Particularmente no desemprego, que levanta outras questões, a ânsia de ser mais, de ser melhor, de ser alguém que não fique à margem da sociedade. Durante pouco mais de duas horas, experimenta-se um caos novo, um caos maior.

Em 1909 foi feita uma expedição ao Pólo Sul, liderada por Shackelton. Ao fim de 73 dias a desistência deu-se a 179,45 km do Pólo Sul. Em 1911, Amundsen, Bjaaland, Hassel, Hansen e Wisting conquistaram o Pólo sul na primeira tentativa. São os papéis destes exploradores que os atores escolhem primeiro. Mais tarde, uma das personagens sugere que o grupo recrie Shackelton.

O Pólo Sul no palco do São Luiz

Tudo branco, tudo gelado. Quatro amigos perdem-se na dureza do real e encontram-se na ficção gelada e heroica. Assistimos à conquista platónica, esquizofrénica e alucinada do Pólo Sul. Sobre o palco, um sótão e sobre o sótão, o Pólo Sul, ou o refúgio de quem não cabe na realidade. Somos guiados por Ana Brandão, Bruno Nogueira, Flávia Gusmão, Miguel Damião, Nuno Lopes, Nuno Nunes e Romeu Costa num caminho que oscila entre o frio do Pólo e a fria realidade.

Sete atores, oito personagens que se desdobram em catorze. Ana Brandão é Rosi – a desempregada, a fumadora, o carocinho de cereja de Rudi, a divorciada – e também Frankieboy, a quem é dado o papel de Lasse, um cão. Bruno Nogueira é Slupianek, herdeiro de um pombal e desempregado, toma a personagem de Amundsen e recusa o papel de Marshall. Flávia Gusmão é Luise Brauckmann, casada com Brauckmann. Miguel Damião é Seiffert, um desempregado que conheceu o sentimento de exclusão desde muito cedo encarna Bjaaland e, depois, Adams. Nuno Lopes é Buscher, recebe o papel de Hanse mas gostava de ser Wilde, por se identificar mais com fracassos do que com conquistas. Nuno Nunes é Rudi e Romeu Costa é Braukmann, que na conquista assume o papel de Wisting e depois Shakelton.

O feito da Conquista

A conquista acontece ao som de uma bateria frenética e um baixo sóbrio que nos dissolvem na intensidade do texto e da representação. Tudo é feito em palco, vemos a bateria, o baixo, ouvimos e vemos quem os toca.

A Conquista do Pólo Sul é feita com pancadas, tiros, gritos, choro, desespero, confusão, desilusão, um sonho muitas vezes consciente e uma dor de presença constante. É uma produção séria, diferente, que testa a fronteira entre o que somos e o que queremos ser. Explora a capacidade do Homem tornar sua uma conquista alheia para ser alguém, para se refugiar do que é. Os marginalizados, os excluídos de uma sociedade que depende de um emprego, projectam no grupo de exploradores do Pólo Sul o que queriam ser. São só mais 179,45 km para a vitória. São só mais – sabemos lá quantas – visitas ao centro de emprego.

Perto do fim, Bruno Nogueira está sentado num cadeirão no centro do palco, a debater-se num monólogo que ele próprio interrompe mesclando involuntariamente o real e a ficção heroica que lhe congela a coragem. O realismo com que cada palavra é proferida e a credibilidade da luta entre o real e a história que o grupo de amigos vive são soberbos. Só vê pinguins. Todos em fila, todos iguais, sentados no banco corrido do centro de emprego. Mas em cada porta parece brilhar a neve que cobre o seu Pólo Sul.

O público revê-se facilmente no que é apresentado. Com ou sem emprego, a insatisfação quase crónica faz parte da condição humana. Todos temos um Pólo Sul, somos todos feitos de gelo com as fissuras que dele fazem parte. Somos isto e queremos melhor. Só mais 179,45 km, o Pólo Sul há-de ser de todos.