O Espalha-Factos esteve na 5.ª edição do festival de storytelling Grant’s Stand Together. No dia em que subiram ao palco nomes como Carlão, Fernanda Serrano ou Vasco Palmeirim, foi a conversa entre Beatriz Gosta e Sam The Kid que tomou a nossa atenção.

É a primeira noite do Festival Grant’s Stand Together. Luzes, música, flashes e um mar de gente esperam os visitantes do festival à entrada. O Cinema São Jorge está ao rubro e há um copo de Grant’s na mão de toda a gente. No piso superior, quase não se consegue respirar e é difícil avançar por entre a multidão que tenta entrar na sessão de storytelling com Joaquim de Almeida.

No piso inferior já está tudo mais tranquilo quando, meia hora mais tarde, na sala 2, começa a primeira sessão de Get Together em Minha Casa. O rapper Sam The Kid vem preencher o lugar de Capicua, ausente por motivos de saúde, numa informal conversa com a figura do momento no youtube, Beatriz Gosta – ou Marta Bateira, a mulher por trás da personagem, também conhecida como M7, quando está em palco a fazer rimas.

Sam The Kid e Beatriz Gosta em conversa (Foto: Facebook Grant's)

Sam The Kid e Beatriz Gosta em conversa (Foto: Facebook Grant’s)

Um salto do vídeo para o real

Estamos numa sala dominada pela cultura hip-hop e onde não há convenções nem restrições. É mesmo Beatriz Gosta, a personagem, que está presente em conversa o tempo todo. As expressões, a linguagem, os maneirismos – o registo habitual de Beatriz Gosta reina. Quem está na sala sente que saltou para dentro de mais um vídeo do popular canal (que já conta com mais de 33 mil subscrições), com a exceção de que, desta vez, Beatriz não está sozinha. Tem audiência direta e um convidado.

Marta Bateira é carismática até dizer chega. Tem um à-vontade impressionante, mesmo sob todos os imprevistos, e não deixa ninguém indiferente. Em 60 segundos, conta-nos a história de Beatriz Gosta a alta-velocidade e introduz-nos no mundo desta trintona nortenha. Sam The Kid é aberto e honesto – sim, e também uma lenda do panorama do rap português.

Sentados frente a frente, com uma ténue luz néon a iluminá-los e garrafas de Grant’s em cima da mesa, os dois “indivíduos” conversam, essencialmente, sobre sexualidade, relacionamentos e engate, durante uma hora e meia. A falta de glamour da vida na estrada ou o lendário cabelo comprido de Sam The Kid (que Regula, o “rapper-barbeiro”, aconselha constantemente a cortar) foram outros dos temas falados.

Sam the Kid num registo intimista

Só que este “vídeo” ao vivo acaba por perder em relação aos online. O texto está mal delineado – provavelmente pelas alterações de oradores à última hora – e há uma participação algo desconfortável, pela parte de Sam The Kid. O rapper tenta ser real e verdadeiro, revela ao público histórias do seu foro íntimo, quando a sua interlocutora é, claramente, uma personagem (impossivelmente mais fiel a Beatriz Gosta, a própria). A discrepância entre registos foi clara, denotando uma estranheza evidente.

O lugar da mulher no rap português é tocado de leve, mas não desenvolvido. Quem comprou bilhete à espera de uma conversa entre duas MCs femininas que conseguem vingar num meio predominantemente masculino esperaria mais palavras desse lado. Sente-se a falta de Capicua para uma conversa “à séria” entre mulheres fortes.

Afinal, este Get Together em Minha Casa não passou de uma conversa informal que, como manda a tradição de Beatriz Gosta, não caiu muito além das peripécias entre sexo masculino e sexo feminino na “parada”. Algumas gargalhadas e sentido de humor? Confere. Sintonia entre convidados e o desenrolar do real potencial de uma conversa entre grandes figuras do hip-hop? Talvez para a próxima.