Foi no dia 12 que os Scott Bradlee’s Postmodern Jukebox irromperam pela Aula Magna e deram um concerto que abanou a Cidade Universitária. O Espalha-Factos assistiu e deixa aqui a crítica a um dos grupos musicais que mais rápido está a crescer no jazz jovem.

O grupo inova por pegar em músicas do panorama musical contemporâneo e as reinventar totalmente segundo géneros associados ao passado, como o jazz vintage, o doo-wop, o swing ou o motown. Em plena tour europeia, passaram por Lisboa para mostrarem a uma sala completamente cheia o que significa “voltar ao passado” sem sair do século XXI.

Abrindo com uma versão muito própria da Bye Bye Bye (dos *NSYNC), deram-nos imediatamente a entender que o concerto seria tanto animado quanto ensurdecedor. A voz característica de Cristina Gatti não perdoa, e encheu o auditório antes que estivéssemos sequer preparados.

Num regime rotativo, cada um dos cantores que alternavam entre as músicas eram apresentados pelo bem-disposto LaVance Colley, também ele cantor. Colley espantou o público com performances inesperadas: Halo (Beyoncé) e uma My Heart Will Go On (Céline Dion) ao estilo dos anos 50.

Outra das vozes que não se pode deixar de destacar foi a de Von Smith, um vocalista que mostrou como as aparências podem enganar. Não só a sua performance explosiva da Cry Me A River (Justin Timberlake) fez arregalar olhos e ouvidos, como ainda mostrou ser um excelente backup singer para os outros artistas. O seu falsete foi particular em todas as actuações, cumprindo a dificuldade de chegar ao extremo sem se tornar demasiado.

Mas nem só de voz e instrumental se faz um concerto de Postmodern Jukebox. Não podia faltar a presença de Sarah Reich, a artista de sapateado que acompanha várias das músicas ao seu ritmo muito próprio. Uma das mais icónicas será sem dúvida a Bad Romance (Lady Gaga), que pela voz enérgica de Sarah Niemitz, surgiu alegremente acompanhada pela dançarina.

Reich protagonizou ainda, juntamente com o baterista Lyndon Rochelle, um drum off dividido entre o sapateado e duas baquetas que competiam pelo ritmo mais original. Ao longo de praticamente dez minutos, o único som foi o da batida, completado por aplausos ensurdecedores.

Também os trios de vocalistas são como uma marca de Postmodern Jukebox. Fosse numa Burn (Ellie Goulding) ou numa All About That Bass (Meghan Trainor), a tríade Cristina Gatti – Robyn Adele Anderson – Sara Niemitz relembrava os grupos femininos das décadas de 50 e 60. As cartas de Gatti e Niemitz estavam já dadas a este ponto – se a primeira respirava sensualidade com uma voz mais nasalada e grave, a segunda enchia o palco de energia com um tom digno de uma banda rock.

Mas foi Robyn Adele Anderson quem brilhou mais, ou não tivesse já protagonizado inúmeros vídeos do grupo musical. A talentosa vocalista esteve no seu melhor enquanto reproduziu uma Thrift Shop (Macklemore) em estilo vintage e uma Talk Dirty (Jason Derulo) em formato de música judaica.

Outros momentos ficaram na memória. Shoshana Bean trouxe a casa abaixo com uma performance de Sweet Child o’ Mine (Guns N’ Roses) que competiria com a original. Colley, Gatti e Niemitz trouxeram ainda ao palco uma versão (melhorada, diga-se de passagem) da Sorry (Justin Bieber).

Se algum defeito se queira colocar, mesmo que seja apenas uma breve nota de rodapé, será talvez a falta de uma música mais lenta ou a puxar ao sentimento, que sabemos não faltar no repertório. As únicas que se aproximaram foram ambas trazidas à vida por Cristina Gatti – uma Hotline Bling (Drake) sem os característicos efeitos de luzes e uma magnífica-ainda-que-rápida Someday (The Strokes) na reta final, quando se agradecia a cada um dos artistas individualmente.

O grupo começou de forma modesta, em 2010, com Scott Bradlee, um estudante de música nova-iorquino, a propor-se repensar a forma como as músicas mais mainstream poderiam ser transformadas em algo ao gosto de um público diferente. Seis anos depois, a tour pela Europa não poderia estar a correr melhor, com várias datas esgotadas. Os convidados musicais variam entre artistas a solo (como a ex-concorrente do American Idol, Haley Reinhart ou a artista da Broadway Morgan James) e a banda que nunca deixa de se afirmar. Fica aqui o canal do Youtube, que continua a ser uma das suas principais plataformas de divulgação.

Resta esperar pelo regresso dos Postmodern Jukebox a terras lusas e esperar que, tal como desta vez, o concerto seja dado por terminado com o maxilar dorido de tanto sorrir e as mãos vermelhas dos aplausos que não terminam.