Brigid Pierce
Foto: Brigid Pierce

90 anos da companhia de Martha Graham – o percurso

Faz precisamente hoje 90 anos que Martha Graham criou a sua companhia de dança. Definidora da dança moderna, mãe de uma nova técnica, falar de Graham é falar de uma reviravolta no mundo das artes, não apenas da dança.

Com a criação da sua companhia em nome próprio, Graham afastou-se dos ideais da sua época e iniciou um processo revolucionário a nível técnica, figurativo e conceptual na dança.  Hoje o Espalha-Factos presta-lhe homenagem e convida-te a descobrires mais sobre a Companhia de Dança Martha Graham.

Martha Graham em Martha Graham's "Deaths and Entrances." Fotografia: Chris Alexander.
Martha Graham em Martha Graham’s “Deaths and Entrances.” Fotografia: Chris Alexander

O início

Após a Primeira Guerra Mundial, os norte-americanos mudaram os seus padrões de vida. Estamos nos loucos anos 20, os anos da modernidade e da revolução. Querendo esquecer os horrores da guerra, refugiam-se na cultura e no lazer: jazz, charleston, tertúlias, teatro e dança. Martha Graham tem 30 anos e uma carreira mais que reconhecida no mundo da dança.

Visionária muito contestável, bailarina exímia, portadora de uma técnica invejável e uma forma de ver a dança única. Em 1926 abre a sua companhia em nome próprio. Lá apenas bailarinas mulheres dançam.  18 de abril de 1926 foi o dia de estreia da sua independência com  um programa com peças como Chorale ou Novelette. Apesar da notória influencia da Denishaw, a escola e companhia que a formou, Martha Graham abandonou os ideais românticos e lançou-se numa dança diferente.

Vê aqui o libreto original da primeira apresentação da Companhia 

Os valores da Companhia

A companhia de Graham apenas era composta por mulheres. Inicialmente Thelma Biracree, Evelyn SabinBetty Macdonald eram as três das bailarinas que ao lado de Graham exploravam vertentes nunca antes pensadas na dança. Questões sociais, políticos, sexuais eram agora colocadas em placo e trabalhadas de uma forma inovadora. Contrações e relaxamento, trabalho de chão e suspensões, espirais e torções eram exploradas numa técnica inovadora.

Com coreografias abstratas e pouco literárias, Graham foi uma modernista e opositora à forma concreta ou objetiva. Procurando extrair a emoção através do movimento, Lamentations de 1930 é um exemplo de um trabalho que coreografou e interpretou com um figurino sem forma ou feitio. Semelhante a uma borracha elástica, Graham criou uma forma única e estranha, incorporando a dor e a mágoa por si só.

Lamentations (1930), originalmente coreografado e interpretado por Martha Graham

Ao longo da sua carreira, Graham sempre acreditou no poder da dança, uma arte que deve ser vivida e absorvida por cada um da plateia. Martha falava de uma resposta visceral à peça, mais do que a criação de uma imagem objetiva ou de um registo do intelecto.

Em palco, houve sempre uma preocupação de recriação da emoção através da forma e não da cópia literal. Defendia o movimento como uma forma de expressão do interior humano. Transformar o sensível no visível e construir um gráfico das emoções eram duas das metáforas centrais do seu trabalho. Poderoso, dinâmico, irregular, tenso, paralelo e abstrato: assim se descreve o trabalho distinto desta companhia.

Lê mais: Ver Passo a Passo com Martha Graham

As divergências e os encontros entre clássicos e modernos

Apenas em 1938 entraram homens na sua companhia. Este foi o ano de viragem e de real mudança. Estava lançada a nova geração de bailarinos e coreógrafos modernos que procuravam fugir aos cânones clássicos e às representações literárias da realidade. Estava aberto o período de exploração, de descoberta e experiência. Anna Sokolow, Sophie Maslow, Pearl Lang, May O’Donnell, Erick Hawkins, Merce Cunningham, Paul Taylor ou John Butler são alguns dos reconhecidos nomes da dança que colaboraram com a companhia.

O ballet clássico e a dança moderna sempre se mostraram frações diferentes de uma mesma arte. Em 1959, o New York City Ballet apresentou Episodes, um espetáculo de duas partes coreografado pelo clássico George Balanchine e a moderna Martha Graham. Em 1975, Graham declarou o fim da guerra entre as duas técnicas trazendo Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev como convidados na sua companhia. A ligação ao ballet manteve-se e entre 1987 e 1989 foi a vez do brilhante Mikhail Baryshnikov se juntar à companhia considerada a mãe da dança moderna.

O legado da companhia

O legado que Graham deixou no mundo da dança é inconfundível. Criadora de um técnica por muitos explorada é ainda hoje estudada e apresentada. Na totalidade, a coreógrafa deixou um total de 181 peças que são constantemente apresentadas e adaptadas por companhias de todo o mundo.

Os trabalhos inovadores da companhia de Martha Graham são um espelho da sociedade americana da altura e tiveram efetivamente um impacto no mundo cultural e artístico. Martha Graham sempre viu a arte como um reflexo do tempo e por isso inseparável da vida. É reconhecida a sua frase: “A minha dança não é uma tentativa de interpretar a vida no seu sentido literário. É uma afirmação da vida através do movimento”.

Procurando a diversidade, Graham sempre esteve atenta à vertente multidisciplinar tendo trabalhado com especialistas de outras áreas como o escultor Isamu Noguchi e designers de moda como Halston, Donna Karan e Calvin Klein, assim como os compositores Aaron Copland, Samuel Barber, William Schuman, Norman Dello Joio e Gian Carlo Menotti.

 Maple Leaf Rag (1990), coreografia de Martha Graham, Música por Scott Joplin e Figurinos de Calvin Klein

 

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