O Livro da Selva: mais do que somente o necessário

O Livro da Selva: mais que somente o necessário

Depois de Maléfica, Cinderela e outros tantos títulos que nos últimos anos começaram a chegar às nossas salas, a Disney volta a “liveactionizar” um dos seus maiores sucessos de animação: O Livro da Selva. Mogli e companhia, personagens que conhecemos pela primeira vez no livro de Rudyard Kipling em 1894, estão assim de volta, agora numa grande produção que se apresenta, a nível técnico, como um dos grandes triunfos dos estúdios.

Os contornos da narrativa são praticamente os mesmos: após ser encontrado em bebé por Baguera, uma simpática mas rígida pantera negra, Mogli é acolhido por uma alcateia, crescendo e aprendendo a viver toda a sua vida junto de lobos. Contudo, Shere Khan, um tenebroso tigre outrora ferido por caçadores, apercebe-se da presença de um humano na selva e ameaça matá-lo à primeira oportunidade que tiver. Com medo de colocar a alcateia em perigo, Mogli abandona a sua família com destino à aldeia dos humanos. Mas, pelo caminho, viverá ainda muitas aventuras e conhecerá um punhado de personagens bem animadas.

Jon Favreau é o homem do leme deste novo Livro da Selva. Famoso por ter realizado os dois primeiros filmes de O Homem de Ferro e por ter produzido os dois Avengers da Marvel, a experiência de Favreau nestas grandes produções faz-se sentir por toda a fita. Como peixe na água a trabalhar com CGI, o realizador cria cenários incríveis, que, no grande ecrã, nos parecem verdadeiros e palpáveis, e consegue ainda dar vida a cada um dos animais da selva, contribuindo para tal um escasso uso de motion capture. Sentimo-nos, assim, no meio da ação, no meio de todas aquelas árvores, a balançar com Mogli pelos ramos e a nadar com ele na barriga do urso Balu.

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Mas se O Livro da Selva é um triunfo de nível técnico (muitos já o comparam a Avatar no que toca ao uso dos efeitos especiais), o que dizer dos restantes aspetos do filme? Bem, ainda que não tão distintos e soberbos, é visível o empenho na escrita do argumento, na escolha do elenco, na construção da história e das suas personagens. Obviamente com o mero objetivo de entreter e divertir por breves momentos miúdos e graúdos (apesar de o tom já não ser tão infantil como a adaptação de 1967), não deixa de haver compromisso em tornar a experiência da sua visualização o mais rica possível.

A história é mais aprofundada ou, pelo menos, melhor explorada que O Livro da Selva da década de 60. As motivações das personagens estão muito mais definidas e a vertente emocional bem mais convincente, com destaque ainda para um Mogli a descobrir-se a si mesmo (não há indicações da sua idade, mas supõe-se que esteja a entrar na fase da puberdade) e com um dilema interno com o qual se depara ao longo do seu percurso: se é um lobo ou um humano. A comédia também não desilude e não falta um leque de cenas bem divertidas protagonizadas, principalmente, por Balu e Mogli. É claro que, como seria de esperar, alguns momentos estão menos conseguidos, nomeadamente aqueles com a serpente Kaa e o Rei Louie, que surgem apenas como desculpa para ter Scarlett Johansson e Christopher Walken no elenco, mas é indubitável que, como um todo, a fita tem condições para superar as expetativas que se criarem à sua volta.

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A grande novidade do filme é Neel Sethi, o jovem ator escolhido para interpretar Mogli, naquela que é sua estreia nas longas-metragens. Sethi é uma réplica perfeita a nível físico do destemido rapaz-lobo, mas está ainda algo “verde” para chegar a ser totalmente credível nas emoções que pretende transmitir. Há, no entanto, que lhe dar crédito por conseguir aguentar-se a película inteira sozinho, já que foi o único ator nos cenários. As restantes personagens foram todas geradas por computador, estando um elenco de luxo destinado a dar-lhes vida com a voz. E é aí que se juntam a irreverência de Bill Murray (Balu), o charme de Ben Kingsley (Baguera), o tom intimidante de Idris Elba (Shere Khan) e a doçura de Lupita Nyong’o (Raksha, progenitora de Mogli) num impecável trabalho de dobragem, dos melhores que já se viram neste género de títulos.

Sem grandes pretensões e até alguma humildade (duas características a que nem estamos habituados a encontrar em produções destas – basta até olhar para projetos semelhantes da Disney que quiseram dar um passo maior que a perna…), o filme sabe bem onde quer chegar e como lá chegar, nunca perdendo a identidade. Este novo Livro da Selva prima essencialmente pelos seus magníficos efeitos visuais, mas não deixa de oferecer também uma história divertida, capaz de entreter os mais velhos e com uma bonita moral de fácil interiorização para os mais novos. E, claro, não falta a clássica Bare Necessities, agora numa versão mais pomposa cantada por Bill Murray.

7/10

Ficha Técnica
Título: The Jungle Book
Realizador: Jon Favreau
Argumento: Justin Marks, baseado no livro homónimo de Rudyard Kipling
Elenco: Neel Sethi, Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Lupita Nyong’o, Scarlett Johansson, Giancarlo Esposito, Christopher Walken
Género: Aventura
Duração: 106 minutos

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