Intimidades, encenado e dirigido por Jorge Gomes Ribeiro e Joana Furtado, é inspirado no filme Interiors de Woody Allen. Em cena até dia 1 de maio no Teatro da Luz, o espectáculo sobe ao palco com a Companhia da Esquina. O Espalha-Factos já assistiu e vem aguçar-te o apetite.

A meia hora do início do espectáculo, o público começa a juntar-se à porta da sala. Num ambiente descontraído trocam-se palavras, risos e confessam-se expectativas. As portas abrem, o público senta-se e as luzes baixam. Passam poucos segundos até se ouvirem as primeiras gargalhadas.

Interiors é a inspiração de Intimidades

Interiors foi visto como o primeiro filme num registo mais sério do cineasta, ainda assim, não deixa a comédia de lado, ou não fosse esta uma obra de Woody Allen. O drama está bem presente nas temáticas centrais do espectáculo, mas a forma como estas são tratadas garante o factor cómico e conquista gargalhadas sonoras à plateia.

Os atores Alda Gomes, André Nunes, Inês Patrício, Sofia Nicholson e Quimbé dão vida a Carol, Horácio, Julieta, Felícia e Saúl. No palco juntam-se dois casais e uma amante, arquétipos do egoísmo, da falta de comunicação e do individualismo sintomático da sociedade actual. Durante os setenta minutos de peça, vemos as personagens e nunca os atores – estes só se deixam ver no final, quando a sala se inunda de aplausos.

A desarrumação do cenário reflete-se nas personagens

O cenário algo desarrumado, à semelhança das relações entre as personagens, é estreado por Felícia (Sofia Nicholson), que recebe Carol (Alda Gomes). Algum tempo depois surge Horácio (André Nunes), marido de Carol, e depois Saúl (Quimbé), marido de Felícia. Por fim, Julieta (Inês Patrício). Felícia é uma terapeuta de renome que não se soube tratar a si mesma, Horácio um maníaco-depressivo com o qual Carol já não sabe lidar e Saúl um advogado que, à semelhança dos restantes, está descontente com o casamento. Se nuns a insatisfação os prende ao conformismo, noutros leva à procura de mais. Julieta é a jovem descoberta de Saúl.

Após o primeiro confronto entre Felícia e Carol, a tensão aumenta e as personagens em palco também, assim como o martini nos seus copos. A traição é exposta e esmiuçada. Com o confronto, sentimos as personagens progressivamente despidas de si e a cair naquilo que é sentir pelo outro ou por causa de outro.

Intimidades constrói uma comédia tocante

Confissões, revelações, desilusões e até encontrões. Tudo acontece em Intimidades. Embora o texto que inspirou a peça date de 1978, a atualidade do que nos é trazido permanece intacta. Mergulhamos numa comédia dramática que põe a descoberto o que de mais azedo existe guardado entre as personagens. Desabafos em jeito de divagações que oscilam entre a euforia, o histerismo e a frustração. Um corrupio de emoções intensas, inconstantes e simultâneas. Gritos misturam-se com risos, lágrimas com danças, insultos com medo.

Intimidades descreve a procura, o encontro e a perda do amor – ou da concepção que se tem dele. O amor, o desamor, a ilusão e a desilusão sobem ao palco do Teatro da Luz. Os momentos cómicos tornam Intimidades um espectáculo agridoce. Fala-se da dor entre gargalhadas, tratam-se os sentimentos mais duros de lidar com humor – e martini.

Sobre uma divagação profundamente existencial, Intimidades constrói uma comédia tocante.