Shakespeare é um dos mais emblemáticos e influentes dramaturgos da história da literatura. As suas obras teatrais foram traduzidas para inúmeras línguas e são hoje conhecidas em todo o mundo. A sua influência estendeu-se também ao mundo do cinema, originando ao longo das décadas adaptações dos mais diversos géneros e níveis de ousadia das histórias originais. O mês de abril marca os 400 anos da morte de William Shakespeare e, por isso mesmo, o Espalha-Factos reuniu algumas das mais pertinentes adaptações cinematográficas da obra de Shakespeare.

Otelo (1952)

othello

Otelo foca-se num general mouro que luta pelo reino de Veneza e que é levado a suspeitar que a sua mulher está a cometer adultério devido às mentiras que lhe são ditas por Iago, o seu sub-oficial.

A versão de 1952 é sem dúvida a mais bem sucedida. Sob a realização e protagonismo de Orson Welles (de O Mundo a Seus Pés), o filme mantém um ritmo mais rápido do que era normal para outros filmes da altura. Estão presentes alguns problemas sonoros (as vozes foram gravadas separadamente das filmagens), mas não é nada que enfraqueça o trabalho dos atores envolvidos.

Ran – Os Senhores da Guerra (1985)

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Um rei que está a chegar à velhice decide passar o seu reino e posses às suas três filhas. Para decidir o quanto vai dar a cada uma, pergunta-lhes o quão gostam dele. As duas primeiras filhas lisonjeiam-no, enquanto que a terceira lhe diz que gosta tanto dele como uma filha deve gostar do seu pai. Sentindo-se insultado pela resposta, ele expulsa e deserda-a. Ao longo do tempo, as filhas a quem ele tinha dado o seu reino acabam por o trair e levar o país a uma guerra civil. Este é Rei Lear de William Shakespeare, cuja adaptação de maior mérito veio de Akira Kurosawa (Os Sete Samurais e Yojimbo).

Ran passa a história para o período Sengoku do Japão e inspira-se na vida de Mõri Motonari, um famoso Daimyõ dessa altura. Apesar de outros pormenores terem sido mudados, como a personagem principal passar o seu reino a filhos, em vez de filhas, Ran mantém a “mensagem” e “espírito” de Rei Lear, ao apresentar um líder que enfrenta a sua mortalidade e observa o reino que elevou a ser destruído pelos seus sucessores.

Os Livros de Próspero (1991)

Em Os Livros de Próspero, Próspero, antigo Duque de Milão, acaba exilado numa ilha deserta com a sua filha Miranda, os membros da sua tripulação e os espíritos residentes. Consegue, no entanto, salvar os seus livros, os seus bens mais valiosos. Uma noite, ultrajado ao lembrar-se dos seus inimigos que o obrigaram a exilar-se da sua posição enquanto Duque, começa a imaginar uma peça onde uma formidável tempestade os traz a todos para a ilha, e assim relembra o seu passado e inventa o seu futuro.

Uma adaptação de 1991 de Peter Greenaway da peça A Tempestade, Os Livros de Próspero é um filme particularmente conhecido pelas suas inovações estéticas e técnicas, que incluem a manipulação da imagem digital, do qual foi pioneiro, a sua combinação de imagem real com animação e o uso da dança, mímica, ópera, e estética renascentista (especialmente no nu humano). É, assim, por muitos considerado mais uma experiência do que um filme no seu sentido restrito.

Hamlet (1996)

Hamlet (1996)

Passado na Dinamarca, a peça centra-se no jovem Príncipe Hamlet, que procura vingar-se do seu tio Cláudio por este ter morto o rei anterior para alcançar o trono. O rei anterior era pai de Hamlet e aparece como fantasma, a pedir vingança pela sua morte.

Após Romeu e Julieta, é possivelmente a peça de Shakespeare que foi adaptada mais vezes para o cinema. Até a Disney criou a sua própria versão com O Rei Leão (1994). Apesar de haver mais do que uma boa adaptação de Hamlet, a que merece maior destaque é a de 1996. Sob a realização de Kenneth Branagh (Thor e Cinderella), o filme toma pouca liberdade com o texto original, sendo extremamente fiel a toda a linguagem do dramaturgo. A elevar a experiência está a excelente fotografia de Alex Thompson, que cria a “grandeza” visual que a história merece.

Romeu + Julieta (1996)

Romeu + Julieta de Baz Luhrmann é simultaneamente uma das mais conhecidas e controversas adaptações cinematográficas da obra de William Shakespeare. Lurhrmann serve-se do texto original como diálogo ipsis verbis (dito fielmente como o original), mas transporta a história para a época pós-moderna de Verona Beach, onde os Montague e os Capuleto são dois gangues rivais cujos filhos adolescentes, Romeu Montague e Julieta Capuleto, se conhecem numa festa organizada pelos Capuleto e imediatamente se apaixonam.

A escolha de seguir à risca a estrutura e diálogos da tragédia original deu espaço para que se conseguisse, através da cinematografia, das escolhas estéticas arrojadas, das cenas frenéticas e da imersão no novo espaço social, uma atualização bem conseguida da história em que não se perde nada, e ainda se adiciona um novo nível de profundidade ao enredo. Foi uma escolha arriscada, desaprovada por muitos e elogiada por outros mas que, quanto a nós, acabou por funcionar.

Macbeth (2015)

Nesta mais recente adaptação da tragédia homónima, Macbeth de Justin Kurzel mantém-se fiel à história original e às suas temáticas da busca cega por poder e ambição que resulta na queda das personagens. Macbeth recebe uma profecia de quatro bruxas (três na peça original) de que será rei e assassina o Rei Duncan para que esta se cumpra – no entanto, a sua ambição misturada com a sua falta de confiança em si mesmo fazem com que entre numa espiral de loucura e paranóica, que acaba por ser a sua desgraça.

O filme tomou muitas liberdades no que tocou à adaptação da peça de Shakespeare. Ao longo do filme, notamos a utilização de mecanismos estéticos e cinematográficos para passar a ideia deste conflito interior em Macbeth, as suas dúvidas, medos e desenvolvimento de personalidade – visto ser o material original destinado à apresentação teatral, e não cinematográfica. Houve também adaptação da peça para um público contemporâneo, em assuntos como a masculinidade associada à agressividade e o papel da mulher, que foram abordados de forma mais atual. Num todo, este é um filme que aproveita uma história emblemática e lhe adiciona conteúdo e profundidade, sem no entanto perder a sua essência original.

Escrito por Adriano Ferreira e Mariana Ramos