Fotografia: Carlos Pereira

‘Rule of Thirds’: procurar a humanidade de um instante

No escurinho que podia ser do cinema, uma música entoa no grande auditório da Culturgest. No palco estão três figuras de costas voltadas para o público. Ali permanecem por uns instantes.

Rule of Thirds é uma regra fotográfica que divide a imagem em nove quadrados no total, em três partes na horizontal e outras três na vertical. É um guia para definir a composição da imagem, para facilitar o enquadramento e a posição do retratado. Rule of Thirds é também o novo espetáculo de António Cabrita e São Castro que partem agora para o desvendar da imagem, depois do estudo da palavra em Play False e da promessa futura da exploração da música.

A fotografia de Henri Cartier-Bresson é o mote para esta criação em que os instantes captados ganham uma nova dimensão imaginária de passado e futuro, assumindo-se como eternas suspensões que voltam agora a ser animadas no corpo de quatro bailarinos: António Cabrita, Luís Malaquias, Margarida Belo Costa e São Castro.

Fotografia: Susana Pereira
Fotografia: Susana Pereira

Sensibilidade, intuição e sentido de geometria

Rule of Thirds é uma peça pensada ao detalhe, limpa e coerente. É nítido o tempo de discussão e de exploração de ideias antes de partirem para o movimento, e, aí chegado, houve um trabalho exigente para se atingir o nível apresentado na Culturgest. Os instantes que ficaram em suspensão durante a História, ganham agora vida através do movimento destes quatro bailarinos.

A nível coreográfico podemos falar de um movimento típico destes dois coreógrafos. São Castro e António Cabrita são um dos melhores produtos da dança atual em Portugal e o reconhecimento que lhes é devido tem-se, felizmente, tornado cada vez mais óbvio. As suas peças exploram uma dança contemporânea extremamente técnica, de execução difícil e trabalhosa. A minúcia e a precisão jogam lado a lado com o exagero e a leveza. Um dedo de uma mão que se mexe é visto do último lugar da plateia, uma corcunda nas costa é bonita e desenha uma linha no palco, um salto fica em suspenso no ar, um braço ou uma perna que estica prolongam-se até ao infinito.

ACSC RT Susana Pereira
Fotografia: Susana Pereira

Margarida Belo Costa e Luís Malaquias acompanham os criadores como se já trabalhassem juntos há anos. Os seus corpos funcionam perfeitamente numa coreografia que parece ter sido também desenhada por eles. Há um entendimento corporal, uma identificação a nível de movimento conseguido não só pelo trabalho físico, mas também uma compreensão do humanismo intencional do trabalho de António Cabrita e São Castro.

Das 160 candidaturas que receberam, estes dois jovens foram os selecionados. Não só pela sua técnica ou pela linha de movimento limpo, mas também pelo lado humano que apresentaram. “Procuramos uma postura humana, não só de bailarinos. Queríamos que eles chegassem, entrassem e soubessem ser humanos”, explicou São Castro na conversa após o espetáculo, admitindo que é necessário uma relação entre intérpretes para que se consiga “imprimir o nosso movimento no corpo do outro”.

“Um instante que revela a ambiguidade do visível”

António Cabrita definiu o trabalho de Cartier-Bresson como “um trabalho interessante e visualmente poético” que os obrigou a um imersão na obra e a uma divagação intelectual. São Castro completou falando do lado humano, dos corpos das pessoas estão presentes nestes excertos da vida. O corpo em pausa mostra-se com um certo mistério e incerteza sem que haja dogmas concretos sobre aquilo que a imagem retrata.

A fotografia torna um momento eterno, mas não o capta na totalidade. Quem? O quê? Como? O detalhe na fotografia pode ser incompreendido, há uma história por contar deste instante que podia ser efémero mas que alguém o tornou eterno. O desvendar de uma fotografia é o desvendar de uma coreografia. Quem representa? Porque o faz? O que os move? O que significa? Nada e tudo. Como São Castro diz: “A dança é uma arte que se vê, que toca e que faz sentido ou não. Tal como um quadro ou uma fotografia, o seu significado e aberto e cada um retira dali o que entender”. Ao espectador não lhe cabe a tarefa de uma leitura concreta, de descoberta do universo criativo dos seus autores, mas apenas lhe é pedido que sinta e que explore aquilo que lhe causou.

RT ©Carlos Pereira 2
Fotografia: Carlos Pereira

“A poética do silêncio… O movimento em pausa”

O solo de São Castro é um dos primeiros momentos do espetáculo. Contrariamente ao que assumimos como movimento de São, em Rule of Thirds assume inicialmente um movimento quebrado. Num estudo de vários frames, assistimos a um solo mecanizado e robótico de um detalhe incrível. Fragmentado o movimento, vemos como a pausa se movimenta. Como se de um disparo com obturação contínua se tratasse, Castro revela não só a sua técnica e expressividade, como também o lado humano e sensível presente na peça.

À sua presença em palco, juntamos um incrível desenho de luz que torna a peça ainda maior. As luzes fazem parte da coreografia e completam-se mutuamente. Há um sincronismo e uma harmonia entre estas duas artes que aumentam não apenas a carga dramática, como revelam o lado visível e o invisível da performance e comprovam a noção de gosto e sentido estético destes artistas.

Fotografia: Susana Pereira
Fotografia: Susana Pereira

Entre solos, trios e duetos, o espetáculo vai acontecendo durante uma hora. Chega-se ao fim com a sensação de dever bem cumprido, com o olhar cheio e com a cabeça a tentar guardar todos os retratos mentais feitos desta obra efémera. Tornar o eterno em algo finito, dar movimento a algo que é inanimado, trabalhar o lado humano e emotivo sem se conhecer do que se fala. Assim é Rule of Thirds.

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